Há um estudo, realizado por Jeffrey Sachs, que procura explicar o avanço dos países do Hemisfério Norte, de clima predominantemente temperado, em relação ao subdesenvolvimento das nações do Hemisfério Sul, de clima tropical. Basicamente, a teoria diz que o desnível social entre os dois hemisférios existe devido ao avanço tecnológico que os países de zona temperada alcançaram no combate às pragas e pestes de suas lavouras. Este know how rapidamente difundiu-se nos países de mesmo clima, que desenvolveram inovações tecnológicas beneficiando os seus sistemas agrícolas e de saúde, enquanto as nações de clima tropical ficaram para trás no campo tecnológico, o que trouxe como conseqüência uma enorme defasagem econômica e social.
Não adianta, porém, ficar lamentando o atraso ou atribuir todos os nossos problemas a esse fato. O momento é de olhar atentamente para o futuro, pois hoje vivemos uma situação parecida com aquela que nos distanciou dos países de primeiro mundo. Refiro-me à questão da exclusão digital, à qual a mídia ainda não tem dado a atenção merecida.
O assunto é sério e tem merecido a atenção de estudiosos, como é o caso do sociólogo Sérgio Amadeu da Silveira que lançou recentemente o livro Exclusão digital - a miséria na era da informação. Estamos na era do conhecimento, onde o saber é fundamental para o crescimento das pessoas e se não garantirmos o acesso à informação será praticamente impossível galgarmos posições. Estrategicamente, neste quesito, o Brasil mais uma vez está atrasado.
No mundo, segundo dados da OIT Organização Internacional do Trabalho-, apenas 6% da população mundial navegam na Internet e 88% destas pessoas vivem em países desenvolvidos. No Brasil, esta exclusão atinge cerca de 95% da população, segundo o Ministério de Ciência e Tecnologia. Dos 5% de brasileiros com acesso à rede, 80% pertencem às classes A e B, o que é grave se considerarmos a Internet como um veículo que se transformou numa fonte de pesquisas e informações. Enquanto isso, considerando toda a população mundial, os EUA e o Canadá concentram 57% dos usuários de Internet. Portanto, temos uma distância gritante que precisa ser reduzida. Caso contrário, o fosso da desigualdade social no País certamente ficará mais profundo.
Está na hora de nos livrarmos do estigma de nação conhecida por não planejar e ter quase sempre que remediar. Para reverter o atual quadro de exclusão digital, cabem ações emergenciais em duas linhas: instalação de computadores conectados à Internet em locais públicos para facilitar o acesso à população associado ao oferecimento de cursos comunitários para que o povo possa fazer o uso correto e monitorado das máquinas, garantindo capacitação ao usuário; inclusão do tema na agenda do Governo Federal - a Lei do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust) ainda não tem apresentado resultados suficientes -, com o estabelecimento de um cronograma com metas claras e objetivas focadas no desnivelamento social. Desta forma, estaremos democratizando a informação, abrindo um leque de oportunidades à população.
A largada foi dada e temos que correr contra o tempo. Precisamos investir pesado em tecnologia para não subirmos as escadas do desenvolvimento feito pagadores de promessa: lentamente e de joelhos. Não sugiro atalhos, mas um caminho seguro, com forte ação conjunta de governos, ONGs Organizações não-governamentais - e iniciativa privada. Desta forma o Brasil poderá ser competitivo e navegar em harmonia na era do conhecimento.
(*) O autor, Arnaldo Jardim, é deputado estadual