O que emerge forte e inconteste, das páginas desse despretensioso livro, A Andarilha, dessa incrível Thei de Almeida Vianna, é a sua personalidade, sua força de caráter, sua dignidade, que permeiam cada linha do gostoso texto.
O livro relata a saga de uma simples menina do Interior de uma pequena cidade paulista, cuja vida, desde a mais tenra infância, resolveu aprontar com ela, dando-lhe um limão, começando com a morte do pai com apenas meses de idade, a conseqüente neurose da mãe, a falta de irmãos, o amor dos avós e dos tios, que, muito mais velhos, pouco ou nada a entendiam.
Mas, desse limão que lhe deu a vida, Thei, com sua valentia, sua força de caráter e de ânimo, juntando com o açúcar dos que a amaram e com a água de sua vocação profissional, fez uma gostosa limonada. E essa limonada, é, a meu ver, um poderoso antídoto para esses males modernos chamados de estresse, quando mais brando, e depressão, quando vira doença.
Com a Thei não tem nada disso, nem mesmo quando teve de perambular entre tiros, bombas e gás lacrimogêneo, sem nem mesmo saber por quê. Isto sem contar as peripécias de menina da cidade, vivendo no mato, ao lado de morcegos, ratos, aranhas e cobras, para poder cumprir o seu mister mais alcandorado: ensinar.
E quando sua vida parecia certa, estabilizada, pronta para realizar o sonho de toda mulher, casando-se com o homem que ela amava e também a amava, uma insidiosa tuberculose e o seu caráter íntegro a levam para Campos do Jordão, rompendo com o noivo, por temer que a tuberculose a impedisse de ser a esposa ideal para ele. O que ela deve ter sofrido então, está nas entrelinhas porque ela nunca foi de chorar e ter pena de si mesma, ela sempre levantou a cabeça e seguiu adiante, mesmo com lágrimas teimosas escorrendo-lhe pelas faces.
Também quando a sua vida ameaçada a levou para outras plagas, outro ambiente, outras pessoas e mesmo outra linguagem de comunicação, lá encontramos a Thei se adaptando, se alegrando, fazendo mais uma limonada, com aquele limão tão azedo, do exílio sem culpa.
Mas Deus nunca a abandonou e sempre enviava alguém para a amar, certamente porque ela, com seus atos heróicos, com seu jeito de enfrentar a vida, merecia de Deus essa benesse.
Enfim, quem estiver se sentindo vítima de estresse e/ou de depressão, leia esse livro e tenho certeza de que sentirá vergonha e deixará de ficar com pena de si, vendo a corajosa determinação com que uma menina que tinha tudo para ser deprimida e estressada, tornou-se uma campeã de vida, uma vencedora das procelas, por mais encapeladas e imprevisíveis que fossem.
Estou acrescentando entre os meus livros de cabeceira esse livro da Thei.
Os meus livros, que eu chamo de livros de cabeceira, são aqueles aos quais eu pretendo voltar às vezes, quando triste, saudosa ou melancólica, como se fora uma suave brisa que traz de longe um som, um perfume, uma saudade gostosa, dessas que a gente até gosta de ter.
Assim, reservo para a Thei, um lugar entre os grandes autores da minha preferência, mais do que pela sua literatura, muito mais que isso, pelo exemplo de coragem, pela lição de vida, pela capacidade de lutar e vencer, pela persistência em seguir sua vocação de professora, pela fidelidade ao seu ideal, com a certeza de saber que está preparada para fazer o melhor para os seus alunos, muito embora não seja isso o melhor para si mesma. Quantas vezes melhor seria para ela que esquecesse os alunos e pensasse em si mesma. Esse desprendimento, essa generosidade, essa doação de si mesma, que ela não conta, mas que ressalta dos fatos, comprovam a grandeza dessa Andarilha que eu respeito e admiro.
(*) Isolina Bresolin Vianna, doutora em Literatura Portuguesa, ocupa a cadeira n.º 12 da Academia Bauruense de Letras.
(*) Especial para o JC Cultura