Geral

Educação valoriza a cultura popular

(*) Magno de Aguiar Maranhão
| Tempo de leitura: 3 min

Estamos falando não só de Brasil: em todo o Planeta, a instituição escolar, limitada à transmissão do saber exigido para o progresso social e profissional dos indivíduos, sempre pecou ao erguer barreiras entre o conhecimento formal e o popular (que por vezes nem registro escrito tem), geralmente associado à parcela da população que não teve chance de entrar em sala de aula para aprender o que vale a pena.

Um novo olhar sobre a educação vem permitindo a multiplicação dessas iniciativas. Há as que têm o apoio de ONGs e prefeituras, e as que são levadas adiante apenas por professores bem-intencionados. Algumas estão cadastradas no Banco de Ações Educacionais (BAE), do programa Acorda, Brasil, do MEC. Outras, certamente, ainda não conseguiram divulgação, embora a mídia já esteja se convencendo da importância de dar espaço a tudo o que possa ser relevante para a formação de mais de 50 milhões de estudantes. E o respeito e valorização, por parte das escolas, da pluralidade cultural do País, reconhecida pela atual Constituição, reafirmada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação e pelos Parâmetros Curriculares Nacionais, é assunto que merece constar da pauta.

Há mobilização, igualmente, em nível internacional. Famosa por premiar sítios arquitetônicos e naturais com o título de Patrimônio da humanidade, a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) agora elegerá também obras mestras do patrimônio oral e imaterial da humanidade. O título será conferido às manifestações populares dignas de nota, ainda que desprezadas em seus próprios países e em risco de extinção - culinária, música, rituais, literatura oral, idiomas, etc. O problema é particularmente grave em nações em desenvolvimento, que centraram o foco na briga pela inserção no mundo globalizado.

Mas, quem sabe não é a globalização e a ameaça de homogeneização que estejam provocando, como efeito inverso, essa busca pelas raízes culturais? No tocante à educação, vamos além: trata-se de admitir que o aluno, antes de se apropriar do conhecimento formal, já é dono de um conhecimento adquirido em seu meio.

No Brasil, o campo a ser explorado pelos professores é vastíssimo. No Nordeste, já temos bons exemplos. No Colégio Cenecista Maria Madalena de Souza, da prefeitura de Umburanas, sertão da Bahia, uma professora do ensino médio fez os alunos se interessarem pelo trovadorismo europeu relacionando-o à literatura de cordel. Aproveitou o gancho e mandou que eles conversassem com moradores antigos da cidade sobre figuras famosas cantadas pelos cordelistas, como Antônio Conselheiro e Padre Cícero - o que despertou os jovens para as aulas de História. Eles acabaram levantando a história da cidade, contada depois em praça pública para a comunidade em versos de cordel.

No Sul, a Escola Reunida do Sambaqui, Florianópolis, iniciou há sete anos, no primeiro ciclo do ensino fundamental, o projeto Arte e Criatividade com a ONG suíça Enfants du Brèsil. Os alunos fabricam figuras do folclore e têm contato com artesãos da comunidade, que lhes ensinam suas técnicas de trabalho, o que significa estímulo à profissionalização e garantia de continuidade de uma tradição local. Paralelamente, o projeto oferece educação ambiental e aulas de reforço escolar.

Essas ações, cadastradas no BAE do MEC, foram citadas porque tiveram sucesso ao ultrapassar a fronteira entre ensino formal e cultura popular, fortalecendo um e outro. São apenas exemplos de que a integração é possível e precisa ser incentivada pela escola, e não só em nome da nossa memória cultural - mas por fazer com que tantas crianças e jovens não mais se sintam excluídos, mas sim integrantes de um grupo social, herdeiros de um saber e co-responsáveis por sua preservação. Enfim, cidadãos.

(*) Magno de Aguiar Maranhão é conselheiro do Conselho Estadual de Educação do RJ.

Comentários

Comentários