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Já há sinais de mudança

(*) Fernando José Dias da Silva
| Tempo de leitura: 3 min

O tom cowboy, a linguagem autoritária estão dando lugar a uma posição mais reflexiva, de ação estratégica que envolve a conversa, a busca de acordos e a procura de uma ação conjunta entre países para que qualquer iniciativa não redunde em um daqueles fracassos retumbantes e espetaculares que desmoralizam qualquer iniciativa. Alguma coisa vai acontecer, porque senão os EUA podem ser chamados de maricas, o que eles não admitem. Aquela história de que o mundo livre precisa de uma resposta. Mas a novidade é a interpretação de como esta resposta pode ser dada. A mudança é de que a resposta na mesma intensidade não precisa ser necessariamente feita através da descarga de toneladas de bombas.

A mudança não se limita à questão da resposta ao ataque. Ela é mais ampla. Depois do 11 de setembro, os EUA isolacionistas se converteram a uma espécie de new deal republicano. E mobilizam excedentes orçamentários para consolidar a demanda, sustentam com fundos públicos uma indústria indiscutivelmente privada, debatem abertamente a estatização da segurança aérea. Uma movimentação que os críticos dos norte-americanos dizem que não foi feita contra a droga e o tráfico, contra a indústria da corrupção e da lavagem de dinheiro sujo. Algumas atividades que facilitam o terrorismo.

Alguns especialistas já estão marcando as diferenças entre esta e a última década. Os anos 90 foram os da globalização econômica, da busca do lucro pelo lucro, da acumulação indiscriminada do capital, da falta de reparo aos excluídos, da mediocrização do Estado e da transformação da política em caso de polícia. A década atual promete ser claramente mais política, mais reguladora e nitidamente mais intervencionista, para o mal e para o bem.

Na visão de Jean Baudrillard, começa a se levar em conta que o processo de globalização tem duas vias. E os dois lados se desenvolveram paralelamente, mas de forma antagônica. E Baudrillard vai mais longe para identificar os novos tempos. Ele diz que as declarações de Fidel Castro e Yasser Arafat, condenando os atentados, são posições claramente políticas de atores que fazem oposição, mas estão no plano político de enfrentamento clássico, histórico. Os acontecimentos de 11 de setembro não são políticos, são transpolíticos, estão muito além. Uma situação que nenhuma potência militar ou política pode resolver porque quanto mais ela emprega seus próprios meios, sua própria lógica, mais ela suscita esta espécie de reação automática.

Para o filósofo francês também não é o início da 3.ª Guerra Mundial, porque ela já acabou com o final do sistema bipolar EUA-União Soviética. Agora é a 4ª Guerra, a primeira verdadeiramente mundial, porque ela tem como contexto a globalização. Outro problema é saber quanto tempo essa guerra vai durar. As autoridades da Casa Branca dizem que ela vai durar bastante. Será a guerra permanente? Não se sabe. Mas que ela tem tudo para ficar aí até a campanha de reeleição de George W. Busch, isso tem.

(*) O autor, Fernando José Dias da Silva, é articulista da Agência Estado.

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