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Eu Estive lá: Uma viagem pela fabulosa história do Império Inca

Sílvio, Roberto, Marcos, Walter
| Tempo de leitura: 7 min

Conforme caminhávamos, Nelly ia nos desvendando toda a maravilhosa cultura inca. Passamos por algum sítios arqueológicos onde recebíamos diversas informações fascinantes. Nada melhor do que uma aula in loco com uma excelente professora. Chegamos a Wayllabamba com noite escura. Fomos os últimos a chegar, pois paramos várias vezes para ouvir as explicações de Nelly, fotografar, filmar ou simplesmente apreciar toda aquela exuberante paisagem.

Além de nós quatro e a guia, juntou-se ao nosso grupo uma garota, Alexandra, aeromoça da Tam, para alegria da rapaziada. Bem humorada e espirituosa, logo estávamos dando muitas risadas juntos. Apesar de todo o cansaço do dia, antes de jantar arrumamos um jeito de tomar um banho improvisado de torneira. Pusemos os maiôs e lá fomos nós pra baixo da água gelada. Sob o olhar incrédulo da guia e de todo o grupo, tomamos banho sob uma temperatura bem baixa.

Mas domir sujo nem pensar! Jantamos feito lordes, uma comida deliciosa, sopa de legumes, arroz, frango ao molho e chás diversos. Com a barriga cheia e limpos, fomos dormir encerrando o primeiro dia da trilha. O segundo dia amanheceu ainda mais bonito. Um céu incrivelmente azul e muito frio! Tomamos o café e pusemos o pé na estrada.

Esse seria o dia mais difícil de toda a trilha, sairíamos de três mil metros e subiríamos até quatro mil e duzentos metros em Warmiwanuscca ou Passagem da Mulher Morta. O nome já antecipava o que nos esperava. Caminharíamos doze quilômetros nesse dia, sempre subindo. A medida que progredíamos, o ar diminuía, e tome folha de coca!!

Apesar do visual cada vez mais incrível, a falta de ar era cada vez mais implacável. Desanimávamos só de ver o que tínhamos que subir. Aos poucos fomos vencendo as incríveis distâncias. Dez passos, parada para respirar, e assim por diante. Muita gente passou mal, uma inglesa que estava no caminho vomitava sem parar, era o Soroche ou mal da altitude, teve que ser amparada para conseguir chegar até o fim do caminho. Finalmente, depois de muito esforço conseguimos chegar ao topo, uma vitória comemorada por nós quatro juntos. Lá em cima sentamos por algumas horas e apreciamos toda a imensidão dos Andes. Uma sensação de vitória indescritível era comemorada secretamente por cada um de nós. Após registrar em vídeo e fotos, iniciamos a descida até o segundo acampamento. Chegamos no final da tarde e mais uma vez o local de parada foi escolhido a dedo, um vale exuberante para descansarmos a vista. Nossos amigos carregadores nos esperavam com um lanche pra lá de delicioso, massinha de pastel frita, com doce de leite, pipoca, pães, chocolate quente, chás de todos os tipos, enfim, um manjar dos deuses!

Antes que esfriasse mais e sob protestos veementes de nossa guia Nelly, lá fomos nós tomar banho de novo. Meu Deus! Foi o banho mais gelado de toda a nossa vida. Imagine se enfiar debaixo de um chuveiro com água em ponto de congelamento. Quase tivemos hipotermia!

Depois de um longo tempo tentando nos aquecer do horroroso banho, comemos um delicioso jantar, conversamos um pouco e o sono falou mais alto. Fomos dormir exaustos e sob um frio intenso. O terceiro dia amanheceu gelado. Quando nossos amigos carregadores nos despertaram e nos entregaram uma xícara de chá, a vontade era de se enrolar no sleep e dormir de novo. Mas era preciso levantar, era o penúltimo dia da trilha, no dia seguinte chegaríamos a Machu Picchu! Após o café, arrumamos todas as mochilas e iniciamos a caminhada. As dores musculares incomodavam muito mas seguimos em frente.

Primeira parada: as ruínas de Runkuraqay a 3.990m, possivelmente um posto de vigilância ou um alojamento, uma construção forte, mas pequena, posicionada estrategicamente em um ponto de onde se avistava todo o vale. Impossível não ser visto de qualquer ponto. Seguimos em frente subindo. O visual era incrivelmente bonito, com as brumas da manhã recobrindo parte do vale.

Mais ou menos duas horas de caminhada, chegamos a próxima ruína Sayacmarca, uma cidadela a 3.665m formada por um conjunto pré-hispânico, em que as construções ficavam dispostas em planos diferentes, inclusive os pátios e as fontes ligadas a canais que conduziam água sagrada. Um muro protegia a periferia. Esse centro sacro foi batizado pelo descobridor Hiram Bingham de Cedrobamba, devido a grande quantidade de cedros nas cercanias. O visual da cidadela era magnífico.

Continuamos o caminho por vales e montanhas verdes, florestas... Era um filme atrás do outro. Íamos conversando, parando freqüentemente para fotografar e filmar. Acabamos sendo os últimos a chegar ao ponto de parada para o almoço. Mal comemos e tivemos que seguir em frente. O tempo fechou e começou a cair uma chuvinha fina e muito fria.

Logo abaixo do ponto onde almoçamos estavam as ruínas de Puyupatamarca, a 3.540m. Eram as mais bem conservadas de todo o caminho. Não se conhece a função exata desses prédios. Sabe-se apenas que havia quatro setores, o agrícola, o religioso, o das águas, e o de habitação.

A partir desse ponto iniciamos a descida dos três mil cento e cinqüenta degraus até o acampamento de Winaywayna (mulher jovem). Após três dias de intenso estresse físico, descer esses degraus foi uma tortura para todos. Como não tínhamos pressa, íamos bem devagar, apreciando cada momento.

Em um certo ponto sentamos os quatro nos degraus, e convidamos Nelly e Alexandra para ouvir o silêncio daquele lugar. Beto ligou seu walkman e o som baixinho se misturou aos sons da natureza, os pingos da chuva, o som do vento nas folhas das árvores... Foi um momento mágico para todos nós, que com certeza vai ficar gravado para sempre na nossa memória.

Nelly me confessou mais tarde que nunca tinha feito aquilo, e que achou maravilhoso. Só mismo los brasileños para hacierem isto! (sic), disse ela rindo. Chegamos em winaywayna já anoitecendo. O último acampamento do caminho tinha uma estrutura um pouco melhor.

Uma bela construção para abrigar todos os grupos que se encontrariam nessa noite, com mesas para a última refeição e pasmem! Chuveiros quentes, pagos é claro!

Não pensamos duas vezes, lá fomos nós para o banho quente depois de dias, dessa vez com total aprovação da Nelly! Banho tomado e todos arrumados fomos para o jantar de confraternização com todos os grupos que estavam na trilha. O salão estava cheio e nos sentimos numa torre de Babel tamanha era a quantidade de idiomas que se ouvia.

Após o jantar, todos os grupos prestam uma homenagem a sua equipe de carregadores. Eles são chamados à mesa e recebem uma salva de palmas vigorosas de todo o grupo. Logo em seguida é entregue uma sacola com dinheiro arrecadado de todo mundo, além de roupas, comidas e outros presentes. Eles ficam muitos felizes com a atenção que recebem e agradecem na língua quíchua de seus ancestrais. Um momento muito bonito e especial.

Quando as homenagens se encerram, o som rola solto e o salão vira uma boate em pleno Andes. A paquera rola solta até umas onze da noite, quando todos começam a se recolher, pois no dia seguinte teríamos que acordar às quatro da manhã para enfrentar os últimos quilômetros até Machu Picchu. No horário previsto, lá estavam nossos amigos nos acordando com o chazinho.

Ainda meio dopados de sono, tomamos o nosso café, e no escuro a luz de lanternas iniciamos a caminhada final. A ansiedade era grande, caminhamos em silêncio e muito rápido, logo os portões de Intipunko surgiram a nossa frente. Escalamos uma escadaria muito íngreme e de repente ficamos mudos!

Lá embaixo surge esplendorosa nas primeiras luzes da manhã, a cidade sagrada de Machu Picchu. Aos poucos todos vão chegando, sentando e por alguns momentos encaram em silêncio aquela maravilha arquitetônica. É um momento mágico para todos, como um rito de passagem ganhamos a permissão, a custa de muito esforço e sofrimento, para adentrar nas ruínas. Descemos o desfiladeiro saboreando o visual que se tornava cada vez mais bonito.

Chegamos no momento em que os primeiros raios de sol iluminavam Huayna Picchu, ou jovem pico, na língua quíchua. É incrível a sensação de vitória que se apodera de todos nós. Um filme passa pela cabeça relembrando cada pedaço desse maravilhoso caminho.

Mais incrível imaginar como ela seria em seu apogeu, habitada por esse povo fantástico que criou maravilhas na engenharia, matemática e astronomia, mas não deixou qualquer palavra escrita, um mistério que vai se perpetuar por muito tempo ou talvez para sempre.

Desde aquele 24 de julho de 1911, quando Hiram Bingham encontrou a cidade perdida dos incas, ela tem sido visitada por milhares de pessoas. Algumas buscando aventura, outras um contato mais íntimo com a natureza, outras ainda um encontro com si mesmas.

Acho que nós encontramos tudo isso e um pouco mais, encontramos um tesouro - o conhecimento de um povo fabuloso - os grandes Incas!

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