Na fila do banco, 23 dias depois da tragédia que deixou milhares de vidas sepultadas sob 110 andares de escombros, alguém logo atrás bate no meu ombro e dispara: Errar é humano; acertar é muçulmano. Segurei o riso, mas o gajo não se deu por vencido: os edifícios mais altos, nos Estados Unidos, vão ser construídos com um vão livre no meio para dar passagem aos aviões. Em meio à dor de toda essa tragédia, até onde vão os limites e tolerância para o humor? Nem bem assentou a poeira dos escombros e o brasileiro já inventa mil piadas para gozar a desgraça alheia. A gente não perdoa nem a própria...
Theodor Adorno, um dos mais influentes pensadores do século XX, obviamente judeu, dizia que depois do Holocausto não se poderia escrever mais poesias. Entretanto, algumas das vítimas dos campos de concentração nazistas criaram obras literárias cuja força e intensidade não deixam de nos assombrar.
Hoje, nos Estados Unidos, todos os campos da cultura navegam em um mar de incertezas. Dramaturgos e novelistas estão reavaliando os temas de suas obras. Arquitetos e designers industriais estão repensando o papel da ironia, do luxo e da segurança. Filmes-catástrofes estão com suas exibições suspensas. Uma das superproduções de Hollywood, prontinha para ser lançada, trata da destruição de Washington e tem como herói um funcionário público desconhecido que resolve, já que quase todas as autoridades morreram, assumir o comando do país. O filme vai aguardar melhores dias. Temem ofender o público. Os anunciantes cancelaram o patrocínio de um famoso talk-show da ABC Television, onde o apresentador contestou o presidente Bush que chamou os terroristas de covardes. Terrorismo covarde, para o apresentador, seria lançar mísseis a milhares de milhas de distância sobre populações civis indefesas, como fizeram os Estados Unidos no Iraque. Teve que pedir desculpas no ar. A Globo proibiu a turma do Casseta & Planeta de fazer piadas sobre a tragédia. Para dizer a verdade, penso que ser engraçado nada tem a ver com desrespeito. Mesmo que o nosso País fosse o palco da tragédia. É difícil estabelecer os limites entre o tolerável e o mau-gosto. Mas vejo como uma ameaça pior ainda essa autocensura. Temo que isso dê lugar a uma cultura do morno, onde os pratos leves sejam os únicos que o estômago do público tolere. Daqui a pouco a Metro estará de volta com aqueles musicais adocicados. Vão resgatar a Doris Day, a loira que conseguia nadar e cantar ao mesmo tempo, sem borrar a maquiagem nem molhar o cabelo. Não posso concordar com o desaparecimento do sarcasmo. O fim da ironia. A morte do humor. Rindo é que se castiga os costumes - advertiam os romanos. É verdade que não fica bem rir nos funerais, mas uma piadinha para esperar a hora do enterro nada tem de desrespeito à memória do de cujus. Lá em Minas a garrafa de pinga corre nos velórios às horas tantas para ajudar o céu a clarear mais cedo. Se os norte-americanos, autoproclamados defensores do mundo, perderem o humor e a ironia, então os terroristas terão de fato vencido. Bush pode mandar recolher os porta-aviões.
A tragédia é um bom momento para que os caricaturistas se liberem, satirizando seus governantes. Em Havana, um jornalista cubano me disse que não perdia as novelas da Globo justamente pela capacidade dos brasileiros de rir das próprias mazelas. Estava em cartaz O Bem-Amado. No Iraque, Saddam Hussein não perdeu a oportunidade para ironizar: se tivessem convocado nossos bombeiros teríamos salvo muito mais pessoas dos escombros do World Trade Center. Ninguém mais entende desse tipo de serviço do que quem sobreviveu em Bagdá, onde os norte-americanos despejaram 200 mil toneladas de bombas durante a Guerra do Golfo. O jornal do Irã publicou uma charge onde Bush aparece protegendo-se com um escudo antimísseis enquanto aviões norte-americanos o atacam por trás. Os inimigos também têm direito a tirar o seu sarrinho.
Se as mortes nas Torres Gêmeas nada têm de engraçado, tampouco Hiroshima e o Vietnã. Também não podemos deixar de rir com a empáfia de Berlusconi, chefe de Estado italiano, quando proclamou a superioridade da civilização Ocidental. Um dia aprenderá que poder político e econômico, ou grandes exércitos, de nada mais valem diante da determinação de quem clama por justiça infinita, único caminho para a paz duradoura.