Geral

O estranhíssimo conflito

(*) Jorge Boaventura
| Tempo de leitura: 3 min

Começaram as hostilidades militares contra os que seriam os alvos das Forças Americanas mobilizadas contra eles, o sr. Ossama Bin Laden e a milícia Taleban, que domina a maior parte do território afegão, pontos focais do combate ao terrorismo para o estabelecimento de uma Paz Duradoura.

Tudo começou, o leitor sabe-o bem, com os atentados contra o World Trade Center, em NY, e o Pentágono, em Washington. A partir daí, falou-se abundantemente de agressão contra a humanidade, ação do Mal contra o Bem ou, já mais modestamente, contra a Nação americana; e praticamente nada se tem realçado a cerca das razões que teriam levado pessoas a matarem, ao mesmo tempo em que imolariam, necessariamente, as próprias vidas. A tal respeito, menciona-se o fanatismo como sendo a grande explicação, sem que se explique, de maneira compreensível, quais os motivos que levam a ele. Seria, realmente, algo assim como Satanás contra o Bem? Ou a inveja da riqueza do povo americano e das suas liberdades? Em semelhante hipótese, por que não se manifesta tanto ódio contra, por exemplo, a sociedade sueca, na qual as liberdades civis, a riqueza e o bem-estar dos cidadãos nada ficam a dever, antes pelo contrário, às existentes nos EUA? E se a agressão brutal praticada pelos terroristas foi contra a nação americana, por que teriam sido escolhidos os símbolos do capitalismo transnacional apátrida e do poder militar posto a seu serviço, e não o Capitólio, este sim, símbolo, para os americanos, da sua Nação?

Então, o que nos parece, e oferecemos à consideração da inteligência dos leitores, é que a humanidade, em suspense, assiste, desinformada, a uma luta entre dois contendores, num conflito em que a assimetria de forças formais, entre as dos terroristas e as dos que se preparam para combatê-los, obriga ambos os lados a se esconderem e camuflarem. O capitalismo transnacional apátrida, que tem praticado toda a sorte de injustiças, de violências e de brutalidades pelo mundo afora, inclusive, e talvez principalmente, na História contemporânea, não podendo, obviamente, lutar em seu próprio nome, o faz em nome do Bem, da Paz e da Justiça Duradouras, da Humanidade, da Nação americana. O terrorismo, não dispondo do total controle da mídia internacional, como ocorre ao seu antagonista, simplesmente esconde-se, jogando tudo, em termos de vantagens táticas, no fator surpresa; na dimensão estratégica, possivelmente na esperança de que os povos da Terra, a pouco e pouco se vão dando conta, e se disponham a modificá-la, de que a ordem internacional está hoje sob a égide da força bruta, do que faz prova a existência, da ONU, do grupo dos cinco que se auto-atribuíram o direito de veto, bastando o de um só deles, para invalidar qualquer decisão, ainda que adotada pela totalidade de todos os demais membros daquela Instituição. E levando-se em conta que, entre os cinco, o único denominado, comum é o poderio militar que possuem capaz, se deflagrado, de extinguir a vida em nosso Planeta, a conclusão escandalosamente óbvia, é que vivemos no mundo atual sob a lei do porrete, apenas agora tornado sofisticado e incomparavelmente mais mortífero do que o propriamente dito, usado por remotos antepassados nossos. Outra evidência contundente é que a sacrossanta prevalência da maioria, colocada na base como a própria alma da democracia, ou do que se tem classificado assim, só vale quando convém aos mais poderosos.

Como pode analisar o leitor, em sua consciência e com sua inteligência, de fato estamos diante de estranhíssimo conflito, em que ambos os contendores, ambos, não apenas um, atuam às ocultas. E como ambos estão dominados pela violência, ainda que sob motivações diferentes, parece-nos claro que está em ação o que chamamos de segundo plano da História, o Plano Providencial, quem sabe para, usando amarga pedagogia, reconduzir os homens ao caminho da Justiça e da Paz, de que aquela é condição indispensável.

(*) Jorge Boaventura. Home-page: www.jorgeboaventura.jorg.brE-mail: boaventura@ jorgeboaventura.jorg.br

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