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Eu Estive lá: Salamanca, capital mundial da cultura

Thiago César Rapini Côncer
| Tempo de leitura: 6 min

Nos tempos de hoje, a grande competitividade no mercado de trabalho nos obriga a investir em preparação e aprimoramento para que possamos nos destacar no seletivo campo profissional. Diante dessa acirrada disputa, e sabendo que o diferencial é o que se destaca, pensei em como poderia conhecer novas realidades e, o mais importante, poder discutir com pessoas que tivessem outras bases de conhecimentos. Eu tinha 19 anos quando surgiu a oportunidade de poder cursar uma faculdade na Europa. Junto com o departamento de Relações Internacionais da Universidade do Sagrado Coração, entrei em contato com Universidade de Salamanca, Espanha, para lá poder estudar. Após me inteirar de todo o procedimento, acertei os papéis e meu curriculum foi aceito. Lá estava eu em uma das universidades mais importantes do mundo.

A Universidade de Salamanca foi fundada em 1218, considerada a segunda mais antiga do mundo, ficando atrás somente da Universidade de Bologna, Itália.

Respeitada por seus escritores famosos como Miguel de Unamuno e Cervantes, Salamanca é uma cidade universitária de 160 mil habitantes, capital da região de Castilla y Leon e tem como principal fonte econômica a própria universidade. Pelas estatísticas, a cidade de Salamanca tem uma qualidade de vida invejável. Lá nunca houve um registro de assalto à mão armada. As vias públicas são bem conservadas. A limpeza é feita diariamente à noite por veículos que varrem, aspiram e lavam.

É conhecida pela vida noturna agitada. 40 mil estudantes fazem de Salamanca uma das cidades mais festivas da Espanha e, com certeza, do mundo. De segunda a segunda, as festas rolam soltas. Os bares são a segunda fonte de renda e, como ela, recebem estudantes de todo mundo. Existem bares para todos os gostos. Normalmente os estudantes estrangeiros costumam sair em torno das 23 horas e se encontram debaixo do relógio da Plaza Mayor, isso porque quase todos os bares estão perto dessa praça, que fica no centro da cidade. Depois vão a um bar de litro, onde se vendem bebidas por litro, ou a uma chupeteria, onde se vendem chupitos. Chupitos são pequenas doses de bebidas alcoólicas de vários sabores que vão desde a tradicional tequila, passando pelo fortíssimo absinto, até a doses de licor de banana com chocolate. Os espanhóis têm um hábito um pouco diferente, saem mais cedo para fazerem o botellón, que consiste em cada pessoa levar um tipo de bebida e se reunirem para beber.

Acabada a chamada prévia, quase todos vão aos bares - discotecas ou como é chamado na Espanha bares de marcha que são bares com djs e pistas de dança. Ficam abertos até as 5 horas e, a partir desse horário, começam as discotecas normais como as daqui que vão até as 8 horas. Se, por acaso, você quiser curtir mais a noite Salmantina, fique tranqüilo. Existem mais 4 discotecas que começam a funcionar a partir das 8 horas e vão até o meio-dia. É isso mesmo. Dessas, a mais conhecida é o Barco. Como o próprio nome diz, é um pequeno barco que fica ancorado no Rio Tormes, o principal rio da cidade. Os vidros são vedados com um insufilm que não deixa a luz entrar. Vale a pena conhecer. E o melhor de tudo é que não se paga nada para entrar em nenhum dos bares ou discotecas de Salamanca.

Deixando as festas de lado, outro tópico importante dessa cidade é a perfeita divisão das estações do ano, como se fosse uma historinha: a primavera com suas árvores e folhas coloridas, o verão muito quente, chegando a 45 graus, o outono frio e com as árvores quase sem nenhuma flor, e o inverno muito frio, muito vento, com temperaturas à noite variando entre 3 e -10 graus. Para mim e para os brasileiros em geral, a pior de todas as estações era o inverno. Digo para mim porque tive a oportunidade de conseguir um trabalho, Relações Públicas - segurança de um bar. A minha função era controlar quem entrava ou não no bar, porque, não se paga para entrar. Por isso, passava quase todo o meu tempo do lado de fora. Eu trabalhava da meia-noite às 5 horas, uma atividade que exigia habilidade, pois quase sempre havia alguma discussão com alguém que eu não tinha deixado entrar, coisas do ofício.

Outro desafio no inverno era acordar de manhã para ir à faculdade e para o curso de espanhol, sair do quarto com calefação, bem quentinho, para caminhar uns 30 minutos num frio que variava, pela manhã, entre -3 e -5. Não era fácil, mas valeu muito a pena. Agradecia todos os dias por estar tendo aquela oportunidade.

Durante o ano letivo cursei a faculdade de Comunicação Audiovisual, que trata de cinema, rádio e televisão. Nela tive a oportunidade de gravar um curta-metragem e programas de rádio pela Rádio Universitária de Salamanca. Tive também contato com os aparelhos mais modernos usados em televisão, cinema e rádio. Durante esse período, também estive presente em vários cursos, dentre eles fotografia e aproveitamento do potencial humano.

Em março, tive a honra de fazer parte da comissão que recebeu o ministro da Educação do Brasil, Paulo Renato, que foi até Salamanca para a inauguração da Casa Brasil.

A Europa nos proporciona coisas incríveis, uma delas é a oportunidade de conhecer vários países, várias culturas. Conheci algumas expressivas cidades como Lisboa, Coimbra, Fátima, Porto, Madri, Leon, além dos famosos aeroportos de Paris, Frankfurt e Madrid. Na Espanha, aconteceram muitas coisas ótimas, mas minha adaptação não foi tão simples assim. Quando cheguei a Salamanca, em setembro, eu não tinha domínio muito grande da língua. Esse foi um dos primeiros problemas, mas com o tempo isso foi se resolvendo. A grande diferença que eu sentia era a frieza dos europeus. Como típico brasileiro, abraçava, beijava, tocava muito as pessoas e sempre tentava puxar conversa, mas dificilmente eu tinha a mesma reação por parte deles. Além disso, a falta de informações (e as poucas que eles tinham eram algumas vezes absurdas) sobre o Brasil me deixava entristecido. As positivas que chegam são para comentar outros assuntos somente de caráter esportivo. As de caráter social e político, eles somente passam os assaltos, as mortes e a corrupção. Compensava isso, navegando na Internet, acessando nosso JC de Bauru para comentar com amigos. Os meios de comunicação da Espanha são totalmente sensacionalistas, é por isso que a população não tem informação nenhuma sobre o Brasil, e as que têm são completamente negativas (a não ser, claro, Carnaval). Uma vez, eu estava mostrando fotos com amigos meus aqui do Brasil que eu havia tirado na Avenida Getúlio Vargas. Uma amiga espanhola ficou espantada e me perguntou se aqui nós podíamos andar pela rua sem guarda-costas. Um outro finlandês me perguntou se havia insetos gigantes na Amazônia. Eu disse que havia alguns de um palmo de comprimento e ele me disse:

- Não, eu estou perguntando de insetos de um metro e meio, dois.

Eu não agüentei e comecei a rir, era a única coisa que eu podia fazer. Mas, com calma, respirei e expliquei como as coisas funcionam no Brasil. Mas a vida é como aquele velho ditado: vivendo e aprendendo, na verdade, mais aprendendo que vivendo.

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