Geral

Sinal de pobreza

(*) Marcos Cintra
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De janeiro a setembro deste ano, mais de 2,5 milhões de linhas telefônicas foram desligadas em todo o País por falta de pagamento. Somente no estado de São Paulo foram desligados 500 mil telefones.

Dados do IBGE de 1996 mostram que há até bem pouco tempo o telefone representava um bem de luxo no Brasil. Dos 11 milhões de aparelhos existentes no País naquela época 62% estavam concentrados em 5 milhões de famílias ricas e apenas 14% eram de propriedade de 27 milhões de famílias das classes C, D e E. O restante estava com as empresas. A privatização em meados de 1998 expandiu a rede de telefonia fixa no País de 20 milhões para 44 milhões, número ainda abaixo do potencial existente.

Depois de um crescimento de mais de 100% em apenas três anos, o sistema de telefonia esbarra na pobreza crescente da população para poder crescer. A inadimplência aumenta à medida em que a rede se expande nas regiões mais carentes das cidades brasileiras. Isto compromete os planos de expansão futuros das empresas telefônicas e frustra as pessoas de baixa renda, que tinham na linha telefônica seu objeto de desejo. Muitas pessoas não conseguem sequer pagar a primeira conta depois da linha instalada. A grande inadimplência registrada no setor de telefonia é mais um sintoma da pobreza crescente no País. O aumento do desemprego e a queda do nível de renda são um fato que atinge de modo mais intenso as camadas mais pobres da sociedade.

Esse aumento da pobreza no Brasil é o resultado de um política econômica recessiva que busca única e exclusivamente a geração de saldos positivos nas contas do governo para pagar os elevados juros de uma dívida pública que cresceu 900% nos últimos sete anos.

O País atingiu um estágio recessivo tão profundo que a pobreza cresceu e hoje se constitui num terrível gargalo para a implementação de investimentos produtivos. O setor de telecomunicações, um dos mais atrativos na captação de investimentos, é um caso típico. Além disso, a carência de terminais telefônicos consiste num fator que compromete o desemprenho de todo o setor produtivo, uma vez que limita o potencial de comunicação entre as empresas e seus consumidores. A atual política econômica do governo dá claros sinais de esgotamento. A crise social é visível em todos os cantos do País. O desemprego e suas conseqüências funestas precisam ser enfrentados com coragem pelos comandantes da política econômica brasileira.

O governo, que tanto se vangloriou do Plano Real, deveria ver que o encanto acabou. É hora de deixar o estado letárgico e ver que a pobreza crescente traz muitos riscos. O País pode e deve implementar uma política expansionista, geradora de emprego e renda.

(*) Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque é doutor em Economia pela Universidade de Harvard - EUA- e professor-titular e vice-presidente da Fundação Getúlio Vargas. É deputado federal pelo PFL/SP.

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