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Quanto vale uma vida?

(*) José Dias da Silva
| Tempo de leitura: 3 min

Nestes tempos de terrorismo de massa e de retaliações não muito bem explicadas, quanto vale uma vida? O valor de mercado não mudou muito com os últimos acontecimentos. A vida de Ossama Bin Laden é blue-chips disparado, vale US$ 25 milhões. Já a mulher afegã que precisa de uma cesariana, proibida pelos homens do clã, não vale nada. As crianças da guerra da Libéria e os argelinos que são assassinados todos os dias também têm a mesma cotação, zero. O discurso político, filosófico ou médico geralmente vai no sentido de que a vida não tem preço. Mas a sociedade tolera certos tipos de comportamento que vão contra este princípio. Decisões e despesas para formar ou salvar vidas humanas revelam preferências implícitas e escolhas características. O valor da vida humana (VVH) difere segundo o nível de desenvolvimento e do tipo de organização dos países. Nos Estados Unidos, um ano de sobrevida para um doente de aids custa US$ 10 mil, financiado pela coletividade. Na África do Sul, vale US$ 300. O valor varia também devido à emoção provocada pela morte. A morte coletiva tem um custo psicológico mais alto do que a morte individual e anônima. Os seis mil mortos do World Trade Center fizeram o Congresso norte-americano liberar US$ 45 bilhões. Os 8.500 mortos, por ano, em acidentes nas estradas francesas, e os 12.638 homicídios dolosos, ocorridos em São Paulo, no ano passado deixam indiferente a população. Um ataque terrorista, um desastre de avião, uma explosão ou um incêndio se mostram mais angustiantes do que uma chacina, ou do que a lista de mortos nas estradas do final de semana. Foram os economistas que inventaram o VVH, como o valor estatístico de uma vida em idade determinada numa sociedade ou numa nação. O conceito chocou os meios médicos e políticos que continuam ignorando o VVH. Baseados em vários dados como educação, saúde, transportes, esperança de vida, risco de morte em lugares e em tempos diferentes, pesquisadores suíços, suecos e ingleses estabeleceram um valor cerca de 120 vezes o PIB, por habitante, nos países da comunidade européia. Uma soma entre um e três milhões de euros. Mas nem lá o valor da vida é levado a sério. Ele sempre está exposto às oscilações do mercado. Nos países pobres e nos emergentes fica difícil imaginar um número mais ou menos linear para avaliar uma vida. As diferenças são muitas. E depois da guerra no Afeganistão pode haver pressão para que alguns tipos de vida sejam superavaliadas e outras depreciadas de acordo com o decorrer do pregão. E tudo, é claro, dependendo do vencedor. Na guerra, outros parâmetros são utilizados. No confronto paralelo que se desenvolve e cuja discussão central é a justeza das iniciativas se é que podem ser classificados desta maneira atos de absoluta sandice surgem duas linhas de raciocínio. A primeira tenta justificar o ataque terrorista em Nova York e Washington como conseqüência da postura imperial norte-americana que privilegia os seus sócios mais chegados e deixa à míngua aqueles que não interessam, os pobres famélicos, que não merecem um olhar solidário dos senhores do mundo. A segunda linha de raciocínio vai pelo caminho da resposta no mesmo nível, que na guerra não cabe o conceito de culpado ou inocente. Todos os atos são justificados inclusive o extermínio em massa de civis, uma casualidade. Onde não há lugar para hesitações humanitárias. Os responsáveis têm que ser cassados e dizimados a qualquer preço.Do mesmo modo que é forçoso admitir que o povo afegão não é culpado, é vítima inocente do que está acontecendo. Por isto os simplismos são perigosos. Podem agravar mais ainda uma situação que já é insuportável. Diante de todo o quadro, a pergunta não pode ser desqualificada: quanto vale uma vida?

(*) José Dias da Silva é articulista da Agência Estado

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