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Meninas-moças

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 9 min

Até há alguns anos era possível identificar rapidamente pelo visual uma menina de uma adolescente. Hoje, já aos 12 anos os vestidos longos comportados e as presilhas nos cabelos dão lugar às calças justas, sandálias coloridas, tops curtos e a muita maquiagem, tornando essa identificação cada vez mais difícil, a ponto de não ser raro observar nos points da juventude marmanjos com mais de 20 anos paquerando garotas de 13. É difícil identificar sem conversar com elas antes, confessa o estudante universitário Eduardo Sanches, de 21 anos, que já paquerou e até já ficou com meninas de 14 anos. Entre as causas desse fenômeno, que é confuso para as jovens e para seus pais, estão as condições de vida, que melhoraram nas últimos décadas, e o maior acesso à informação dos jovens.

A precocidade da puberdade feminina é marcada pela presença de uma mentalidade recém-saída da infância, que ainda não se desvencilhou de alguns hábitos infantis, num corpo de mulher em formação, que já desperta a atenção masculina. Fisicamente falando, a aceleração da puberdade no último século foi um dos resultados das melhoras de condições de habitação, de saúde e alimentação no País, que contribuíram para uma vida mais saudável. Assim como a expectativa de vida aumentou e as crianças passaram a crescer mais (estão de 10 a 12 centímetros mais altas do que suas gerações passadas), a puberdade, masculina e feminina, que ocorre paralela ao crescimento, também começou a chegar mais cedo. Segundo dados da década passada, em 97% dos casos, a puberdade feminina, aquela fase na qual a menina passa por um conjunto de transformações biológicas (leia no quadro) acontece entre os 9 e 13 anos de idade. Em 1830, só como comparação, a idade média da primeira menstruação era de 17 anos.

E esses números vêm diminuindo ano a ano a ponto de existirem casos de garotas super precoces que começam a sofrer as modificações hormonais típicas da puberdade aos 7 ou 8 anos. Desde que acompanhada por um médico, que pode indicar um tratamento para evitar possíveis tumores e complicações no sistema nervoso central, a entrada mais cedo na adolescência não traz problemas físicos para a menina.

Outro fator que tem colaborado com essa entrada mais rápida na adolescência é a quantidade de informação que os jovens obtém hoje em dia, principalmente através da televisão, que é muito maior do que antigamente. As crianças hoje sofrem mais influências externas e da mídia do que antes... parece que são mais realistas, têm menos sonhos, atesta a veterinária Ana Cristina Daré Menocci, mãe de duas meninas: Giovana, de 12 anos, e Daiana, de 14, a mais velha uma adolescente precoce.

Segundo a psicóloga Cláudia Manaia, em matéria já publicada no Caderno Ser, alguns pesquisadores sobre infância e adolescência, acreditam que a superexposição das crianças à sexualidade ou à sensualidade, pode levar a uma diminuição do período da infância, acelerando a passagem para a adolescência. E a televisão não seria o único fator dessa passagem, mas sim o que mais contribui para isso. Ainda de acordo com a psicóloga, o período crítico seria quando começam as transformações corporais e hormonais nas crianças e os apelos eróticos da mídia a pegam em cheio.

Com a banalização e o sexo sendo desnivelado de qualquer contexto emocional, e que, sem os pais por perto para poder ajudar a interpretar ou orientar o que se passa na TV, a criança pode ver conceitos, atitudes, que nem sempre estão prontas para entender, afirmou a psicóloga. É a discrepância entre corpo e cabeça. Se fisicamente não existem problemas em entrar mais cedo na adolescência para as meninas, psicologicamente a questão não é tão simples assim, nem para a elas, nem para os pais.

Confusão

Não existe uma linha que marque a passagem da infância para a adolescência se não se considerar os aspectos físicos. Isso faz com que ao mesmo tempo em que queira sair com as amigas e comprar as roupas da moda, a menina de 13 anos ainda goste de cultivar sua coleção de bichinhos de pelúcia e não admita que a irmã mais nova brinque com suas bonecas. Segundo as americanas Alison Bell e Lisa Rooney, autoras do livro Meu Corpo Cresce Comigo, editado pela Angra, essa fase pode ser marcada por insegurança e depressão para algumas jovens porque em nenhuma época da sua vida as mudanças no seu corpo e à sua volta são tão grandes. Esses sentimentos, porém, logo cedem espaço para a curiosidade, já que o seu corpo começa a mudar de formas. Nessa fase é comum se sentir um pouco diferente das outras. Como a puberdade chega em momentos diferentes para cada garota, é comum que no grupinho de amigas da escola exista uma menina mais alta que todas as outras ou mais forte que os meninos, também é comum que algumas já usem sutiã enquanto outras nem tenham desenvolvido as mamas ainda.

Alegria e vergonha

De acordo com Alison Bell e Lisa Rooney, a menina nessa fase sofre com emoções contraditórias também porque ao mesmo tempo em que está animada com as mudanças que está vivendo, se sente extremamente deprimida com as novas responsabilidades e pressões que sofre por estar ficando mocinha. Apesar de estarmos no século XXI, ainda existe uma visão machista sobre a transformação da menina em mulher como se fosse uma ameaça. Mesmo os pais mais esclarecidos e bem-intencionados muitas vezes pressionam as filhas sem querer por temor que elas venham a iniciar a sua vida sexual cedo demais e engravidar, agora que o seu corpo permite. As meninas muitas vezes não conseguem entender o porquê dessas preocupações excessivas porque sua cabeça ainda não deixou completamente a infância. É uma fase delicada que exige atenção, principalmente quando se trata de falar em sexualidade. Se torna fundamental para os pais mostrarem que as filhas estão sendo levadas a sério, através de um diálogo franco e honesto, e também deixarem claro que elas não possuem nada de anormal pelo fato de estar se tornando moças mais cedo. É preciso tomar cuidado com o que se diz para as meninas nessa fase, pois elas estão bastante sensíveis e qualquer piadinha ou brincadeira sobre as mudanças que está sofrendo podem deixá-la muito insegura e envergonhada.

Socialização

As adolescentes precoces podem ter maior dificuldade de conviver com as amigas nessa fase, por isso é importante que os pais as estimulem a buscar atividades em grupo e ajude-os na socialização sem forçar a barra. Segundo a psicóloga Maria Regina Vanin, é importante que a jovem se dedique às atividades com as quais tem afinidade e desenvolva vários papéis onde possa trabalhar todas as suas potencialidades. Ele precisa sair um pouco da frente da televisão apenas e das atividades intelectuais e ter mais chances de desenvolver atividades criativas para ter um amadurecimento mais rico, diz.

É importante, de acordo com a psicóloga, que essa socialização se dê dentro de grupos onde as jovens pensem de maneira semelhante e estejam passando pelas mesmas experiências. Uma jovem que mora em uma cidade grande, por exemplo, não teria essa proximidade com uma que mora numa cidade pequena ou na zona rural. É necessário haver uma afinidade e principalmente que elas tenham a mesma postura e os mesmos valores passados pela família, explica Maria Regina Vanin.

Limites com afeto

Para a psicóloga, os pais que se sentem perdidos na hora de lidar com as filhas nessa fase de transição, devem, antes de qualquer coisa, pararem para refletir sobre seus valores e que posição vão tomar na hora de impor limites para as filhas. Ela lembra que, atualmente, muitos pais acabam tendo uma postura liberal demais com os filhos porque tiveram uma criação muito reprimida e nem sempre essa é a melhor opção. Maria Regina Vanin diz que é preciso saber impor limites mas isso deve ser feito de forma bastante afetiva. Quando os filhos são amados de verdade e sentem isso, eles aceitam os limites, afirma.

Qualquer orientação dos pais nesse início de adolescência deve ser acompanhada de muito diálogo e reflexão, não importa qual seja o assunto: sexo, drogas ou dinheiro. A questão, segundo a psicóloga, está além de proibir ou liberar qualquer coisa. O papel dos pais é conversar e orientar, mostrando o que pode acontecer se o (a) adolescente tomar uma decisão e perguntar se ele (ela) está a fim de encarar as conseqüências. Isso é criar de uma forma responsável, ensina.

Mães e filhas

Na opinião da dona de casa Ângela Maria Bianchi Passos não foi (ou melhor, não está sendo) difícil lidar com a adolescência das três filhas, mesmo admitindo que todas elas saíram rápido demais da infância. Mãe de Karen, de 20 anos; Kamila, de 15 anos; e Kelly de 12 anos, ela acredita que, no seu caso, as filhas aprenderam a ter responsabilidade mais cedo por uma questão de criação. Além disso, ela acredita que o meio no qual as crianças vivem hoje fornece mais informações e estimula um crescimento precoce. Ângela conta que todas as filhas deixaram de brincar de boneca cedo e começaram a se preocupar com o visual. Atualmente, Kelly, a mais nova é quem passa pela transição. Ela já não brinca mais de boneca mais ainda não está falando de namorar, revela a mãe.

A veterinária Ana Cristina Daré Menocci, mãe de Giovana, de 12 anos e Daiana, de 14 anos, também sentiu a fase de transição da filha mais velha. A menor ainda não saiu da infância. Hoje ela se preocupa em se vestir para parecer mais moça, diz. Para Ana Cristina, a influência da mídia é muito grande nas crianças hoje em dia, o que estimula o crescimento precoce. A Daiana desde pequena já se interessava por moda, por usar um salto, passar batom, coisas que são muito mostradas na televisão. A Giovana ainda não entrou nessa fase, acredita.

A presença de outras jovens na mesma casa em princípio pode sugerir uma influência das mais velhas em relação às mais novas mas nem sempre isso acontece. A Tatiane amadureceu rápido, diferente da Tainá, que ainda é uma criança embora já tenha um corpo de adulta, diz a arquiteta Heloísa Jacon Gebara sobre as filhas Tatiane, hoje com 17 anos e Ariane Tainá, de 12 anos. As garotas confirmam: Sempre fiz de tudo para parecer mais velha, confessa Tatiane. Ariane, mais tranqüila, ainda não pegou o gosto por sair para badalar com as amigas e nem se importa tanto em se maquiar - ao contrário da irmã. Heloísa conta que, por outro lado, a filha mais nova (que já superou a mãe em altura) já mostra interesses intelectuais condizentes com a adolescência. Ele está na fase de querer mudar.

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