De repente do riso fez-se pranto...De repente da calma fez-se o vento...De repente, não mais que de repenteFez-se do amigo próximo o distanteFez-se da vida uma aventura erranteDe repente, não mais que de repente.(Vinícius de Moraes)
Será que foi tudo assim tão de repente, que não nos demos conta?
Puxa vida, quando penso, sobre tudo o que nos tem acontecido, sobre todas as incertezas que nos afligem a alma, começo a ter saudades de mim mesma, e de um lugar no passado, onde todos se entendiam e onde a vida era leve, e o balançar da cadeira de balanço era uma música aos nossos ouvidos e um aconchego ao nosso coração!
Não me pergunte o porquê, desta afirmação, acho que simboliza um desejo íntimo de sossego e confiança absoluta, gerando uma tranqüilidade há muito perdida por todos nós!
Estou continuamente me lembrando com saudades, de tempos passados onde, ainda menina, tinha uma cadeirinha de balanço em vime, e balançando cantava horas a fio, cantigas que as meninas da minha infância, ou quem sabe de minha família, aprendiam a cantar.
Nada de pagode, nem reggae, nem punk, apenas cantigas ingênuas e alegres!
Depois meu pai, comigo no colo, balançava, até que eu dormisse, e me carregava pra cama com carinho.
Anos mais tarde, eu fazia o mesmo com meus filhotes... e cantava músicas gostosas, até que eles dormissem.
Digam-me, havia casas sem cadeira de balanço?
Hoje as coisas estão tão mudadas, ninguém mais tem tempo pra se balançar em cadeiras, e muito menos de cantar para que os filhos durmam...
O mesmo homem que se emociona com uma sinfonia, que se enternece com a lua e as estrelas, mata seu semelhante, sem pestanejar.
Lutamos pela preservação do mico-leão-dourado, e assistimos, sem ao menos nos descompassar o coração, a morte de crianças com fome, párias em sua própria pátria, sem ter um lugar que seja seu pra ocupar neste vasto mundo, neste lindo mundo, neste feio mundo!
Estamos nos tornando não só descuidados, mas também insensíveis a tudo e a todos, e quando abrirmos nossos olhos, ...era uma vez...
Você, certamente, me dirá: ...mas que posso eu fazer? Não tenho poder pra mudar nada!
Eu lhe direi pra exercitar o dom do amor. Ame a Deus, ame a você próprio e ame seu próximo mais próximo. Mas exerça o amor com verdade, sem medo ou dissimulação!
Comece mudando pela sua casa, à placidez de uma vida bem vivida, onde o ser tenha prioridade sobre o ter.
Quer um conselho?
Corra comprar uma cadeira de balanço e embale seus sonhos adormecidos, de paz, de justiça, de amor e esperança!!
Deixe-se embalar pela cadeira de balanço, cadeira de balanço, cadeira de balanço...
Todos merecemos esse embalo!!
(*) Ercília Ferraz de Arruda Pollice é escritora, poeta, membro da Academia de Letras de Bauru e colaboradora de Ju Machado, Escritório de Artes.