Geral

Um adeus para Roberto Campos

(*) Márcio C. Coimbra
| Tempo de leitura: 3 min

O Brasil perdeu um homem raro. Não muito simpático, é verdade, até meio sisudo, como ele mesmo gostava de brincar. Dizia que lhe faltava o dom do sorriso. Mas quem realmente conheceu Roberto de Oliveira Campos sabia que ele tinha um raro e apurado senso de humor. As conversas descontraídas com outra mente brilhante, o diplomata José Guilherme Merquior, durante a estada de Campos na embaixada brasileira na capital inglesa foram antológicas, regadas a comentários e piadas inteligentes. Infelizmente, também perdemos Merquior cedo, aos 50 anos, em janeiro de 1991. Agora, Campos se foi. A certeza que fica é: o Brasil perdeu uma mente brilhante, um pensador que, apesar de combatido durante toda a vida, viu as idéias que defendia triunfarem, principalmente após a queda dos regimes comunistas. Em Lanterna na Popa, lembrou: Estive certo quando tive todos contra mim.

Polêmico ele era, ah, isto ele era com certeza. Um debate com a presença de Roberto Campos era, no mínimo, uma aula sobre liberdade. Mas a liberdade que Campos defendia era aquela em sua mais ampla forma, daí ser considerado um libertário, um homem que acreditava na democracia e na liberdade econômica como a sustentação de uma sociedade vitoriosa.

A sua história foi lembrada por muitos, mas vale aqui relembrar alguns pontos interessantes. Roberto Campos participou de praticamente todos os grandes momentos do século XX. Assim foi delineando seu pensamento. Nascido no Mato Grosso, em 1917, foi seminarista, onde se especializou em exorcismo. Ingressou no Itamaraty, em 1939. Em 1942, já servia a Embaixada em Washington e, em 1944, integrou a delegação brasileira à conferência de Bretton Woods. Participou do governo democrático de Getúlio, entre 1951 e 1954. Trabalhou na elaboração do Plano de Metas de JK e como ministro do Planejamento do governo Castello. Em 1982, é eleito senador pelo Mato Grosso. Em 1990, elege-se deputado federal pelo Rio de Janeiro, por onde é reeleito em 1994. Em 1998 perde a disputa por uma cadeira no Senado. Entretanto, em 1999 é eleito para a cadeira 21 da ABL, fundada por José do Patrocínio e até ser ocupada por Campos, assento de Dias Gomes.

Seu discurso na ABL não poderia ser de outra forma, a não ser polêmico e coerente, como Campos foi durante toda sua vida. Em seu discurso de despedida do Congresso Nacional, em 31 de janeiro de 1999, mostrou-se taciturno, pensativo: com o fracasso de toda uma geração - a minha geração - em lançar o Brasil numa trajetória de desenvolvimento sustentado. Infelizmente, Roberto viu suas idéias serem combatidas e deixadas para trás quando deixou o governo. O liberalismo de Campos consistia em abrir o Brasil para a competição, incentivar a entrada de capitais externos de qualidade, reduzir o tamanho do Estado, deixando-o atuar onde é necessário. Um Estado grande, ao contrário do que se pensa no Brasil, dizia ele, leva invariavelmente aos assistentes passarem melhor do que os assistidos. A conclusão é clara: o Estado deve ser mínimo.

Roberto Campos leu Hayek, discípulo de Mises, da escola austríaca liberal, e logo depois comentou: Arrependo-me de ter lido tantos economistas. Bastaria Hayek. Hoje estou convicto de que o papel do Estado deve ser ainda menor do que aquele que defendi por toda a vida. E completou: No Brasil, a empresa privada é aquela que o governo controla; a pública é aquela que ninguém controla.

(*) Márcio Chalegre Coimbra, é advogado

Comentários

Comentários