A vitória da oposição nas eleições argentinas não causou nenhuma surpresa, com algum erro de previsão apenas no que se refere à dimensão da derrota do governo do presidente De la Rua. A conquista da maioria de cadeiras no Congresso pelo Partido Justicialista (peronista) já tinha sido prevista nas pesquisas eleitorais e, numa larga medida, antecipada pelos agentes econômicos, de tal sorte que não produziu nenhum efeito importante nos mercados financeiros.
A manifestação do povo argentino veio confirmar a teoria de que existe, realmente, um jogo dialético entre o mercado e as urnas: a urna corrige o mercado e o mercado corrige a urna. Quando um governo se entrega ao mercadismo exacerbado, quando imagina que o mercado pode fazer aquilo que o governo deveria fazer em matéria de políticas públicas, quando, enfim, acredita mais no mercado do que em si mesmo, o resultado só pode ser o aprofundamento das desigualdades sociais. E isso vem acontecendo na Argentina de maneira trágica, desde que o governo se entregou a um mercadismo desabrido, iniciado quando o ministro Cavallo impôs à nação na década de 90, um regime cambial apresentado como moderno mas que, na realidade, é a cópia de um sistema cambial que vigorou nas colônias inglesas no século XIX !
A insistência nesse regime, já no governo De la Rua (e com o mesmo ministro Cavallo), produziu alguns resultados fantásticos: a recessão econômica entrou no 38º mês, a curva do desemprego atingiu níveis nunca antes suportados e o país tornou-se absolutamente dependente do mercado financeiro internacional e, simultaneamente, no maior risco para os investidores externos. Na província de Buenos Aires, onde se concentra praticamente a metade da população argentina, o desemprego atingiu 17% da população economicamente ativa neste último mês de setembro.
Num quadro social dessa natureza, o que acontece quando chega o dia das eleições? Os cidadãos excluídos do mercado de trabalho, aqueles que se sentem vítimas numa sociedade em que as desigualdades são crescentes, reagem nas urnas. É a reação contra o excesso de mercadismo. No mercado, cada cidadão se exprime com sua renda: quem tem mais renda, fala mais alto. Na urna, todos falam iguais: o voto do excluído vale tanto quanto o voto do privilegiado. A mensagem que os cidadãos argentinos deixaram na urna para o presidente de La Rua é muito clara: estamos cansados dessa política e gostaríamos de dispensá-lo e mandar os seus ministros para casa.
Da mesma forma que a urna corrige o mercado, o mercado também corrige a urna. Um governo voluntarista, que promete o que não pode fazer, que se excede nas políticas públicas e não obedece às restrições fiscais, está destinado a ser punido pelo mercado. Mas quando o governo deixa o mercado agir livremente, sem peias, sem rédeas, desprezando a necessidade de políticas públicas de proteção social, fechando os olhos ao desemprego e transigindo com a recessão, então ele é punido pela urna. Não foi nenhuma surpresa, portanto, o duro recado que as urnas argentinas revelaram nessa eleição de outubro.
(*) Antonio Delfim Netto - é deputado federal pelo PPB-SP, professor emérito da USP - E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br