Geral

Alta do dólar aquece procura por produtos feitos no Brasil

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 4 min

Atentados terroristas, alta do dólar, medo de viajar para o exterior. O cenário de terror desenhado para a economia mundial poderá ter um reflexo de menor impacto no Brasil. Aos poucos, o brasileiro vai se ajeitando à situação e junto com ele o bolso, principal componente da economia doméstica.

Como viajar para o exterior é um lazer que está ficando cada vez mais distante para a classe média - devido a alta do dólar e mais recentemente pelo temor de atos terroristas -, o jeito é se arranjar por aqui mesmo. A cena de malas abarrotadas de produtos adquiridos no exterior começa a compor o passado.

E com a alta da moeda norte-americana - principal âncora para o preço de milhares de marcas -, o brasileiro começa a procurar por produtos nacionais similares, em termos de qualidade e eficiência. Mas as opiniões sobre o assunto se dividem e cada um procura analisar a tendência do mercado de acordo com o ramo de seus negócios.

No segmento de perfumaria, por exemplo, o quadro é de excitação para os comerciantes que trabalham com produtos nacionais de qualidade. Wânia de Almeida Cosso, de uma loja especializada em perfumes, diz que a situação atual não poderia ser melhor. Segundo ela, a alta do dólar faz com que os aficcionados por perfumes importados pensem duas vezes antes de pagar caro por um produto que pode ser substituído por um similar no Brasil.

Só no mês de setembro deste ano, a loja dela registrou 25% de aumento nas vendas comparado com o mesmo período do ano passado. Wânia garante que algumas boas marcas de perfumes brasileiros não devem nada aos importados. O aumento no percentual de fixação na pele do produto com o qual trabalha (hoje chega a 10%) desmitificou a idéia de que no Brasil só se usa água de colônia.

Ela diz que o perfume H2O 4XY, de origem nacional e que custa R$ 34,40, tem semelhança olfativa com o CK One, da Calvin Klein, cujo preço varia de R$ 120,00 (100 ml) a R$ 195,00 (200 ml). A comerciante cita outros dois exemplos: o Myzar (perfume nacional) sai por R$ 30,60 e tem a mesma semelhança olfativa do Loulou, da Cacharel, que custa R$ 105,00 (30 ml). O Vezzo, carro-chefe da LAcqua di Fiori, é vendido por R$ 39,60 e não deve nada ao Zino Davidoff, de Davidoff, que tem o preço nas alturas: R$ 214,00.

Cliente fiel

As opiniões sobre o aquecimento nas vendas de perfumes nacionais e retração na aquisição dos importados são divergentes. Cláudia Meschini, de uma loja especializada em perfumes importados, não concorda que a clientela acostumada às fragâncias do exterior está se deslocando em direção aos produtos nacionais.

Para a ela, embora as vendas estejam estabilizadas, o cliente de perfume importado é fiel e dificilmente troca sua marca por outra, de origem nacional. Estamos fazendo o possível para não acompanhar a alta do dólar. Estamos mantendo os valores dos produtos. Preferimos sacrificar a margem de lucro e manter a clientela satisfeita, diz.

Cláudia avalia que a redução das viagens ao exterior acabou favorecendo o mercado de perfume importados no Brasil. Os produtos que anteriormente eram adquiridos lá fora agora são comprados aqui mesmo, com a vantagem de se poder pagar de maneira parcelada. Constantemente somos elogiados pelos nossos preços. E o cliente não troca a qualidade da fragância, da fixação dos importados, por produtos similares nacionais.

Já Rogério Dinis, de outra loja especializada em perfumes importados, acredita que a crise interna é a grande responsável pela paradeira no ramo de importados. Hoje não se vende e nem se compra. Acho que vamos ter o pior final de ano dos últimos dez anos. Dinis, no entanto, analisa que a clientela começa a procurar por perfumes nacionais de boa qualidade, que possam substituir os importados, cujos valores estão pesando no bolso. São poucos, hoje, que podem pagar R$ 260,00 num Angel ou num Chanel, que custa acima desse valor.

Boa chance

No ramo de bebidas e comestíveis importados, a situação também não é diferente. César Prando, de uma loja que trabalha com gêneros nacionais e importados -, diz que o comerciante está absorvendo a alta do dólar para não repassar para os produtos. A maioria está comprometendo um pouco mais a margem de lucro, conta.

Ele acha que a alta da moeda norte-americana e a consequente procura por produtos nacionais de boa qualidade está fazendo com que os empresários do País corram atrás dos prejuízos para se igualar ao gêneros importados.

Prando afirma com segurança que o preço de um bom vinho nacional, por exemplo, ainda está caro em relação aos importados, cujos preços absorvem 110% de Imposto de Produtos Importados (IPI). Na média, os vinhos nacionais custam 20% a menos em relação aos importados. Tinha que ser a metade do preço, calcula.

Comentários

Comentários