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As cartas do terror

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

A molecada do meu tempo tirava o antraz de letra. Era uma infecção comum entre os meninos que brincavam nas ruas sem pavimento das cidades do interior. Aparecia em forma de furúnculo que o médico da família curava com uma lancetada no local, espremia a ferida para expulsar o carnegão e depois receitava a aplicação de uma injeção antipiogênica, aplicada na bunda pelo farmacêutico da esquina. Não sei porque tanta celeuma em torno desse bacilo que afeta mais ao gado do que a nós, seres humanos, embora esteja sendo espalhado pelo mundo por quadrúpedes insensíveis.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Roosevelt repetiu muitas vezes que seu receio maior não era o inimigo conhecido, com sua bandeira e território a defender. Arrepiava-o a onda de temores que abatia o povo ao qual tinha a obrigação de liderar. Era o medo de ter medo, uma coisa paralisante, desmotivadora e que leva a um estado anestésico capaz, este sim, de levar à derrota. O filósofo Bacon escreveu sobre isso. A função do terror é aterrorizar. Portanto, não tem entranhas. Sua estratégia é espalhar o pavor. Quanto mais bárbara a sua ação, melhor.

Ossama Bin Laden parece saber disso. Merece o Top de Marketing. Em poucas semanas já foi mais citado pela mídia do que Hitler, Pelé e a Princesa Diana juntos, em todo o transcorrer de suas vidas. O escritor John LeCarré vê na figura desse saudita barbado uma espécie de homoerótico. Na CNN, um psicólogo, outro dia, fazia a análise comportamental de Ossama a partir do relógio que traz no pulso e aparece nas fotografias. Seu Citzen tem dois alarmes, o que leva o especialista a concluir tratar-se de um homem metódico. Porque fornece horas nas formas analógica e digital, ao mesmo tempo, percebe-se que o homem é volúvel, não sabe bem o que quer. Ao ouvir esse blá-blá-blá, pensei comigo mesmo: entre as suas cinco esposas deve haver a alta, a baixinha, a gordota, a magrinha e a mais escurinha. Um homem com cinco esposas em casa só poderia virar terrorista. De tanto levar bronca resolveu descontar na humanidade.

Outro biólogo muy amigo ensinava na televisão que Bin Laden cometia um erro ao escolher o antraz para aterrorizar. Trata-se de doença transmitida por bacilo, quando o bom mesmo são os vírus, microorganismos invisíveis nos microscópios ópticos, muitos deles resistentes aos antibióticos mais modernos. Mas o que parece importar para o terrorista competente é o estigma que carregam as pestes. Delas se têm notícias desde três mil anos antes de Cristo. Muitas inscrições decifradas pelos antropólogos relatavam o tratamento de feridas infectadas realizado pelos egípcios. Utilizavam excrementos animais e humanos para expulsar os demônios causadores da doença. Isso explica a existência das verdadeiras farmácias de sujeiras da Idade Média. A furunculose, o possível antraz da época, era curada com lodo de cerveja ou pão em estado de apodrecimento. Deve ter muito a ver com a penicilina descoberta por Fleming. Em 1928, por acaso, Fleming observou que o mofo verde-amarelo constituído por colônias de penicillium impedia o crescimento dos estafilococos. Apareceu assim o primeiro antibiótico. O Antigo Testamento relata no livro de Samuel de forma dramática, o surto de peste bubônica que dizimou a população da cidade filistéia de Asdod e matou mais de 50 mil em Bet-Chemech. O Papa Clemente VI isolou-se entre quatro paredões que mandou incendiar durante a peste que assolou Roma. Todo esse terror que atravessou os séculos deveria ter terminado com a descoberta da penicilina mas, pelo jeito, ainda continua.

O que me amedronta, mesmo, para dizer a verdade, é essa onda de cartas recheadas de pó espalhando o pânico da guerra biológica, somente para dar vazão à demência anônima dos trotes. Temo que isso sepulte, definitivamente, uma das formas mais românticas de comunicação. As cartas manuscritas, envelopadas, salivadas e seladas já estavam virando anacrônicas com os e-mail. Saudades do tempo em que se usava o verbo postar. E os beijos impressos a batom? Na adolescência a gente se correspondia com pessoas de outros Estados, graças aos endereços publicados nas revistas de fotonovelas. Era tudo na base do nunca-te-vi-sempre-te-amei. Um monólogo querendo ser diálogo que às vezes nos neurotizava. Dava vontade de gritar como Diderot na derradeira mensagem à amada: eu escrevo e tu não me escutas.

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