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Cantado em verso e prosa por artistas da terra e orgulho da cidade, mesmo com a visitação em baixa, o anfiteatro Vitória Régia poderá ser reformado.

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 4 min

Ele já foi cantado em prosa e verso por artistas da terra e transformou-se no principal símbolo da cidade, a ponto de ter sua imagem estilizada no logotipo que marcou as festividades do centenário de Bauru. E qual o bauruense - nato ou naturalizado - que já não ouviu falar ou pelo menos deu um passeiozinho pelo Parque Vitória Régia? Coisa rara de se achar. Mesmo aqueles que apenas passam por Bauru devem tê-lo visto à distância, ao menos uma vez, ao entrar ou deixar a cidade, pois sua presença na mais movimentada via de acesso é marcante.

O cartão-postal, porém, um dos marcos do progresso acelerado que Bauru experimentou nos anos 70, está sendo consumido pelo tempo, pela desatenção do poder público e descuido popular, enfim, pelo subaproveitamento geral de uma infra-estrutura sem precedentes. Em se tratando de Bauru, essa situação é praticamente inconcebível, pois a carência de praças e áreas verdes vem confirmando há anos a total falência do município na oferta de equipamentos para a integração social da população. Em síntese: ou o aparelhamento é inexistente ou é mal aproveitado.

No caso do Vitória Régia, o pecado foi o descuido do poder público ao longo dos anos. Com exceção de um ou outro reparo, como o incremento realizado na iluminação ano passado, o parque vem sem manutenções desde sua inauguração, há 23 anos. Por mais perfeita e forte, não há estrutura que agüente um período tão longo de desgaste contínuo. Hoje, a iluminação original que dava vida ao palco do anfiteatro mal dá sinais de que um dia funcionou, o calçamento está ruim de uma maneira em geral, o parquinho infantil mais oferece riscos do que diversão à criançada e o lago revela uma aparência nada saudável. A situação só não é pior porque o local é naturalmente belo e consegue se renovar mesmo sem a intervenção do homem.

Ainda assim, é preciso socorrer urgentemente o ícone de Bauru. Uma vez revitalizado, o lugar poderia ser o ponto de lazer de uma parcela grandiosa de pessoas que não têm o que fazer nas horas de folga e recreação. É claro que, vez ou outra, o parque fica apinhado de gente, mas essas são ocorrências muito esporádicas - Dia da Criança, véspera de Natal, aniversário da cidade e eventos do tipo. Seria bom que a estrutura fosse permanentemente aproveitada e que, com o tempo, se tornasse um ponto de encontro com tradição consolidada.

Nesse intuito, por sinal, já existem planos. Logo em breve a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma) deverá anunciar oficialmente um projeto de revitalização do Vitória Régia, o qual foi encomendado - a quem realmente de direito - ao arquiteto Jurandyr Bueno Filho, mentor de toda a estrutura, que se dispôs a elaborá-lo graciosamente. Bueno Filho, aliás, demonstra bastante empolgação ao falar sobre o projeto de revitalização. Seria um orgulho ver o Vitória Régia retomar o destaque e a importância que realmente merece, sintetiza.

E a recuperação do parque tem tudo para sair do campo das idéias. Obviamente, o plano que vem sendo articulado tem seu sucesso vinculado à iniciativa privada, uma vez que a Prefeitura já sacramentou a impossibilidade de tomar para si a responsabilidade de fazê-lo por conta própria. Definitivamente, não temos condições financeiras de restaurar os pontos públicos de lazer, sentenciou o titular da Semma, Luiz Pires.

O JC nos Bairros desta semana traz com detalhes o projeto em estudo e reporta a importância do Vitória Régia no contexto sócio-político-histórico da cidade. Em linhas gerais, a Administração Municipal dará todo o suporte jurídico e operacional para que o parque, bem como outras praças tradicionais, sejam revitalizados. O custeio ficará por conta dos eventuais empresários interessados na parceria, que oferece a eles a cessão dos espaços para a propaganda publicitária. Tudo se dará por meio de licitação pública, cuja abertura deve ocorrer ainda este ano.

Luiz Pires não tem dúvidas quanto ao sucesso da empreitada, mas reconhece que o momento não é o melhor para contar com investimentos da iniciativa privada. A crise mundial que se instalou em razão dos recentes acontecimentos (ataques terroristas aos EUA e a guerra em revide) retraiu o mercado e os empresários estão bem mais cautelosos em relação aos gastos. Talvez a resposta que desejamos não seja tão imediata, mas não tenho dúvidas sobre o interesse do empresariado. Queremos mostrar que o marketing local, vestido de responsabilidade social, é um bom negócio. A partir do momento que uma pessoa vê determinada empresa cuidando da cidade onde ela vive, sua visão em relação ao produto dessa empresa muda; para melhor, é claro. Temos bons exemplos desse tipo de iniciativa e apostamos nela como um caminho a ser perseguido daqui para frente, adiantou o secretário do Meio Ambiente.

Paralelamente à melhoria estrutural que as parcerias poderão trazer, um outro ponto merece destaque: a retomada da credibilidade da população. Coincidentemente ou não, a construção do Vitória Régia deu-se num momento de extrema pujança desenvolvimentista, sob olhares confiantes e otimistas no progresso bauruense. Muitos podem achar utopia, mas não custa sonhar que a pretendida restauração do cartão-postal pode acender nos bauruenses a confiança perdida em virtude do desleixo, exploração e desmando políticos.

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