Geral

A conta do racionamento

(*) Miguel Ignatios
| Tempo de leitura: 2 min

Ao apagar das luzes do racionamento, já se debate, entre os tecnocratas da Câmara de Gestão da Crise de Energia (CGCE), em Brasília, para quem será enviada, a partir do início de 2002, a conta. Como sempre ocorre em tais ocasiões, a CGCE deixou vazar para a mídia, com a finalidade de avaliar a reação da sociedade, que geradoras e distribuidoras de energia de todo o País não têm como bancar os prejuízos, causados pela escassez de energia, e agravados, recentemente, pela desvalorização do real em relação ao dólar.

Em razão disso, argumentam para a mídia porta-vozes da CGCE, mais conhecida como Comitê do Apagão, existiriam apenas duas medidas a serem tomadas: cortar os subsídios embutidos nas tarifas que são cobradas dos setores comercial e industrial ou elevar as que hoje são pagas, sem subsídios, pelos consumidores residenciais. Ou seja: ao final de tudo, o consumidor empresarial ou particular é que está escalado para pagar a conta. O capitalismo sem risco continua a ser prática usual do governo, pelo menos quando se trata de administrar empresas e tarifas públicas. Capitalizar lucros e socializar prejuízos é a regra oficial dos tecnocratas palacianos. Administrar assim é fácil!

Não é segredo para ninguém que tanto o setor produtivo como os consumidores pessoas físicas estão com suas planilhas de custos e orçamentos domésticos totalmente comprometidos, em boa parte, pelo apetite descomunal dos governos municipal, estadual e federal por impostos, taxas e quaisquer outros tipos de contribuições, todos eles compulsórios. As conseqüências de nova elevação das tarifas de energia elétrica - sempre é bom lembrar que já houve um reajuste em pleno racionamento - poderão ser catastróficas para a economia do País, agravando ainda mais a atual recessão controlada e condenando as famílias à inadimplência. Uma irresponsabilidade!

Esse alerta já foi dado por entidades representativas da indústria, dentre elas a CNI e a Fiesp. O recado foi claro: O setor não têm recursos para bancar a retirada dos subsídios. Além desse apoio financeiro, o governo deveria levar mais a sério a energia alternativa e não ficar apostando suas fichas apenas na construção de termelétricas. Afinal, o País tem, no Nordeste e no Sudeste, duas regiões duramente atingidas pela escassez de energia, o bagaço da cana, em sua maior parte, jogado no lixo. Temos, ainda inexplorados, enormes potenciais de energia eólica, solar e das marés. Tudo isso leva algum tempo para viabilizar-se em termos de mercado. Mas é necessário dar os primeiros passos.

(*) Miguel Ignatios é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB).

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