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O chato em pescaria

(*) Felisdeu Leão
| Tempo de leitura: 5 min

É aquele companheiro de última hora incorporado à caravana por injunção de algum de seus integrantes, para ocupar lugar e ajudar nas despesas. Não o conhecemos bem e nem sabemos de seu temperamento, se adequado ou não à convivência em lugares algumas vezes adversos. As referências elogiosas que seus amigos fizeram a seu respeito, na maioria das vezes decepcionam. É cheio de mesura e pouca utilidade. Já de saída ele atrasa, mesmo porque não está acostumado a levantar cedo e nem a cumprir horário. Quando chega a tralha já está acomodada nos carros e nas carretas. Além de chato é desligado.

É o primeiro a entrar no veículo para escolher o melhor lugar, geralmente os das janelas. Rodamos alguns quilômetros e ele começa a devorar seu lanche na expectativa de seus companheiros estar levando o suficiente para todos, durante o restante do percurso.

Além de chato é guloso.

O chato pode ser convidado várias vezes a participar de pescaria, sempre aceita, contanto que não seja no seu carro. Nunca está disposto a ceder alguma coisa em benefício do grupo. Basta insinuar que poderíamos usar seu veículo, ele simplesmente não vai, mesmo contrariando sua vontade de ir.

Além de chato é ciumento.

Ao chegar no destino, ele é o último a descer da condução, só para ajudar menos no descarregamento da bagagem. Ao levantar-se de manhã, o café e o lanche já estão preparados. Todos fizeram sua parte no serviço ele não. Terminado o desjejum, o chato sai sorrateiramente para escapar de alguma tarefa que por ventura lhe coubesse.

Além de chato é preguiçoso.

Por azar, fui obrigado a pescar com um chato no rio Araguaia. Ao acomodarmos a tralha na canoa, já meio implicado com ele, pergunto: seu cantil, onde está? O sol está de rachar. Ele, na maior cara de pau, responde: o senhor não está levando, então...

Além de chato é cretino.

Ele sempre com uma latinha de cerveja na mão. A bebida é comprada em conjunto, por isso ele levanta cedo para beber mais.

Poitamos. Poção fundo e corredeiras suaves, locais preferidos pelas pirararas. Aguardamos uns 30 minutos em completo silêncio. De repente uma das varas deu sinais de que algum peixe estava beliscando a isca. Tenso, acenei para meu companheiro não fazer barulho. A pirarara estava apenas mamano e dentro em breve arrancaria em desabalada e furiosa carreira. Essa seria a reação esperada das espécies por nós pretendidas.

Enxuguei as mãos suadas pelo nervosismo, procurando me acalmar para uma fisgada certeira.

Nesse exato momento de expectativa, o chato levanta-se de repente, fazendo o barco gingar barulhento e pede: oi, passe o alicate. Levei um baita susto e, parece, o peixe também, que fugiu sem mais tardança.

Vermelho de raiva, contei até dez para não soltar a cachorrada em cima dele. Sem a menor cerimônia, cambaleando, pega minha maleta de pesca e revira tudo, à procura do tal de alicate.

Além de chato é desastrado.

Aguardamos. Desta vez a vara treme com força e enverga violentamente rio a dentro. Respirei fundo e dei o tranco na hora certa. Peguei, gritei meio rouco, engasgado pela emoção que todos pescadores inveterados sentem nesses momentos de angústia. Tirei o dedo, graças a Deus. Retesei a vara para não afrouxar a linha. Seria uma pirarara das grandes? Esperava que sim. Custo a sustentar o peso de suas investidas em direções às galhadas na ânsia de escapar. Fui tenteando, com calma, braços doloridos pela estafa. Ainda assim consegui que ela prancheasse. Não era das maiores, uns 30 quilos ou mais. Sua coloração vermelha, amarela e marrom escuro brilhava intensa sob um sol escaldante do meio-dia.

E o chato, que fim levou? Bem, lá estava prestando atenção, esbanjando sorriso maroto cheio de malícia, parecendo torcer para o peixe escapar. Pura inveja. Mesmo assim, insiste em me ajudar. Invés de usar o bicheiro, não é que ele pega na linha e tenta puxar a pirarara na raça? Não deu outra escapou... Resmunguei meio bravo, lançando-lhe olhar tão raivoso, capaz de desajeitar qualquer cidadão com um mínimo de sensibilidade. Ele deu um muxoxo e nem se importou. Parecia feliz, isto sim.

Além de chato é azarado.

Tentamos novamente. As águas do Araguaia, meio encrespadas, provocavam um balançar sonolento que nos induz a ligeiros cochilos. Costas doloridas e meio entorpecidas pelo desconforto dos bancos rígidos, levaram-me à fadiga... Gritos estridentes de jacus cigano, aves características das barrancas do rio Araguaia, tiraram-me de uma letargia preguiçosa, mas confortante. Aprumei-me numa postura mais conveniente e aguardei.

Puxão violento arrancou a vara pegadeira do suporte de espera, jogando-a dentro das profundezas do Araguaia. Não fosse meu reflexo, então eficiente, e o caniço estar amarrado à canoa, eu o teria perdido para sempre.

Com dificuldade, consegui tirar a vara do rio e comecei a recolher a linha. Estava pesada que nem enrosco dos brabos. Quando o peixe aliviava a tensão da vara, eu recolhia rápido uns dez metros de linha, e ele enfurecido levava de volta a metade. Foi assim durante vários minutos.

Dado momento, ele brecou enfezado, dando tamanha guinada, quase me derrubando do barco. Poita de gancho não é apropriada em leito arenoso de rio, solta-se com facilidade. Ficamos à deriva arrastados em direção às galhadas, aonde a pirarara procurava refúgio. Suspendemos o motor, pegamos os remos e tentávamos nos desviar das tranqueiras que desciam nas águas ligeiras do Araguaia.

E o chato, que fim levou? Havia me esquecido dele. Virei-me e o vi lutando para tirar um surubim chicote, dos bons, que havia pego de rodada, enquanto o barco era levado à revelia. Ele era realmente azarado. Sua linhada embramou-se com a minha, criando uma confusão dos diabos. Perguntei se podia cortar a dele que era mais fina, com menos possibilidade de ser recolhida naquela situação. Sua reação contrária foi de imediato, como era de se esperar. Resolvemos então, puxar, nós ambos, ao mesmo tempo.

Inesperadamente, bufando que nem boi bravo em noite de rodeio e numa última tentativa de escapar daquele aço duro que dilacerava sua mandíbula, a pirarara enveredou-se sob o barco que adernou perigosamente. Bordas altas da embarcação dificultavam nossa tentativa de cravar naquele corpo a ponta aguçada de nosso bicheiro. Afinal conseguimos acertá-lo. Escorregadio e pesado, foi também tarefa cansativa.

Descansamos alguns minutos e rumamos, satisfeitos, para nosso rancho às margens do Araguaia. Esse majestoso rio é assim: cheio de vida e emoções.

(*)Felisdeu Leão é dentista, pescador e colaborador do Pesca & Lazer

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