Estamos entrando em uma era de conflito entre civilizações? O mundo islâmico, em seu despertar, está enviando uma mensagem de guerra ao Ocidente liberal? Trata-se de um antagonismo entre duas diferentes culturas, religiões e sistemas de valores? Mas, atenção: uma interpretação dos atentados nos Estados Unidos segundo a teoria de Samuel Huntington sobre um conflito entre civilizações parece tão natural e simples que, talvez, não devêssemos aceitá-la tão precipitadamente. Afirma-se que estamos assistindo a um conflito emergente entre o liberalismo ocidental e o Islã fundamentalista que pode descontrolar-se e converte-se em um confronto em grande escala entre as democracias ocidentais e as nações islâmicas. Porém, nem mesmo isso é, de modo algum, seguro.
É porque nossas civilizações são diferentes? Lembro os escritos do antropólogo sino-norte-americano Francis Hsu, para quem cristãos, judeus e muçulmanos pertencem a um grupo de culturas estreitamente relacionadas e que vivem na mesma área. Tais culturas podem ser caracterizadas como centrífugas e com a tendência a dividir-se em diferentes grupos religiosos, étnicos e políticos, bem como em seitas. A identidade desses grupos está quase sempre baseada na diferença e no conflito e é mais excludente do que includente: NÓS somos o que somos porque somos DIFERENTES deles. No mundo ocidental, como no mundo islâmico, a diferença tem sido, freqüentemente, mais importante do que a semelhança. Os teólogos, os ulamas, os inquisidores e os políticos partidários gastam muito tempo e energia para buscar tais diferenças, que servem como fundamento para teorias, ações e atitudes.
O sectarismo e, naturalmente, lutar contra ele, é uma das características básicas mais importantes da grande cultura ocidental. As guerras travadas no mundo ocidental comumente foram guerras de religião ou ideológicas, e a última da série foi a Guerra Fria. É normal que um ocidental tenda a crer que as outras culturas sejam tão propensas aos conflitos sectários quanto o Ocidente. Mas isso não é necessariamente verdade. Nem a Índia nem a China haviam tido guerras religiosas até a chegada dos conquistadores muçulmanos e cristãos, e suas diferenças culturais internas parecem importar menos do que no Ocidente.
Os intelectuais chineses conhecedores do budismo estavam todos bem conscientes das diferenças entre o budismo e o taoísmo, mas para eles essas diferenças eram menos importantes do que as semelhanças. Daí, que adaptaram livremente termos do taoísmo para o pensamento budista e vice-versa. No pensamento religioso hindu, a tendência predominante é ressaltar as semelhanças, ver todas as religiões como uma única, minimizar as diferenças entre budismo e hinduísmo ou, inclusive, entre o Islã e o hinduísmo.
A ascensão do Islã militante e suas ações sangrentas nos Estados Unidos talvez não sejam o resultado de um conflito entre civilizações, mas, uma vez mais, uma guerra de aniquilação mútua em pequena escala, como as que o grande Ocidente conheceu durante muitos séculos. Acaso não serão os ataques terroristas apenas uma tentativa desesperada de gente que tem medo de perder sua identidade, suas diferenças específicas, e deseja preservar ou reconstruir sua identidade de um modo tão sanguinário?
(*) O autor, Jaan Kaplinski, é escritor, poeta e ex-deputado no Parlamento da Estônia