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No olho da tormenta

J. N. Dixit
| Tempo de leitura: 3 min

A difícil situação vivida pelo presidente do Paquistão, general Pervez Musharraf, devido ao seu apoio à coalizão contra o Taleban encabeçada pelos Estados Unidos, está carregada de tensão e incertezas políticas que podem afetar essa aliança e a eficiência da campanha antiterrorista. Uma perspectiva com a qual as autoridades norte-americanas terão de se ver é a existência de uma séria ameaça à sobrevivência do governo de Musharraf, que enfrenta desafios por parte da área militar, dos partidos fundamentalistas e das populações de etnia pashtun nas províncias da fronteira noroeste e no Beluchistão. Musharraf inicialmente opôs-se à deposição do governo Taleban mas, diante da firmeza dos Estados Unidos, suavizou o tom e, por outro lado, insistiu em que o Paquistão deve ter um papel importante na formação de um novo governo em Cabul, tão logo termine a campanha.

Os EUA parecem ter aceito essa proposta, o que resulta evidente em duas de suas decisões político-militares. A primeira é que Washington disse à Aliança do Norte para retardar suas operações militares e não capturar Cabul. A segunda é que os EUA se abstiveram de realizar ataques aéreos contra as forças do Taleban que se encontram nas montanhas ao Norte de Cabul.

Setores importantes da opinião pública paquistanesa manifestaram abertamente sua oposição ao apoio de Musharraf às operações militares dirigidas pelos Estados Unidos. A criação de um novo governo no Afeganistão, em substituição ao regime Taleban, será uma operação complexa e difícil. Devido ao contexto de confrontação política entre pashtunis e não-pashtunis em anos recentes no Afeganistão, criar uma coalizão de representantes de todos os grupos étnicos que formam a sociedade civil seria um assunto delicado. O Paquistão apresentou várias demandas a Colin Powell durante sua visita ao Afeganistão.

Em primeiro lugar, reclamou o restabelecimento total das multifacetadas relações bilaterais em matéria de defesa, política e economia entre os Estados Unidos e o Paquistão. Em segundo lugar, pediu a retirada das pressões, bem como das sanções contra o programa paquistanês de armas nucleares e sua capacidade no que diz respeito a mísseis. E, por fim, pediu que seja feita uma pressão específica sobre a Índia para que chegue a um compromisso com o Paquistão nas questões em Jammu e na Caxemira. A resposta de Powell foi positiva nas duas primeiras demandas, mas não na terceira, enquanto em relação à quarta adotou uma postura ambígua para não afetar a sensibilidade da Índia. A Rússia reiniciou o fornecimento de equipamentos militares para a Aliança do Norte, que tirou vantagem dos ataques aéreos dos Estados Unidos contra o Taleban e se move para o Sul ao longo de toda a frente de batalha e em direção ao eixo Cabul-Gazni-Kandahar. O presidente George W. Bush havia dito que a campanha conduzida pelos Estados Unidos será longa e continuará até que todo o movimento Al-Qaeda seja destruído completamente.

Portanto, é possível antecipar que a região passará por uma situação política volátil e incerta, que poderia provocar um impacto nas relações dos Estados Unidos com Índia e Paquistão, bem como no ambiente estratégico e de segurança na região durante a próxima década, ou, inclusive, duas décadas.

(*) O autor, J. N. Dixit, é ex-ministro das Relações Exteriores da Índia e especialista em assuntos da Ásia do Sul

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