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Presídio para 3ª idade divide opiniões

Rita de C. Cornélio
| Tempo de leitura: 5 min

Detentos com mais de 60 anos acham que reforço na área da saúde é mais importante que presídio exclusivo

O idoso precisa ser lembrado pelo sistema penitenciário. Eu acho que o governo já protelou muito a construção de um presídio só para detentos com mais de 60 anos, pois o idoso encarcerado precisa de assistência médica e jurídica diferenciadas. A opinião de Palmeirinha, recluso da Penitenciária I de Bauru, que advoga pelos companheiros de presídio, vem ao encontro da proposta da Secretaria Estadual de Administração Penitenciária, que estuda seriamente a possibilidade de erguer um presídio exclusivo para os detentos sexagenários.

Formado pela faculdade da vida, Palmeirinha ou Euclides Ferreira de Campos, como consta na Certidão de Nascimento, é uma das pessoas dedicadas que, presumidamente, poderia ser um criminalista destacado. O curso de processo penal ele já fez, o que lhe rendeu conhecimento como poucos das entranhas da lei. Conhecedor das dificuldades dos moradores do presídio, ele acha que está mais do que na hora de o governo separar os idosos dos presos mais jovens. Os idosos têm direito diferenciado. No meu caso, por exemplo, tenho 58 anos e, quando completar 60, terei cumprido mais da metade da pena. Tendo bom comportamento nos 12 meses anteriores ao pedido de liberdade, terei atendido aos requisitos necessários para conseguir cumprir o restante da pena longe daqui, sustenta.

Palmeirinha sabe que muitos presos idosos não tiveram a mesma oportunidade de aprender as leis e, em razão disso, desconhecem os benefícios aos quais têm direito. No presídio dedicado aos idosos deveria ter um setor especial para dar assistência jurídica, porque os benefícios são diferentes, opina. A saúde do preso, especialmente a do idoso, por exemplo, deveria ser levada mais a sério. O homem tem que morrer com dignidade. Necessita de ter mais assistência na parte de saúde, tranqüilidade física e espiritual para cumprir a pena. Junto aos presos mais jovens, eles não têm o sossego necessário para refletir e repensar a vida, avalia.

Palmeirinha faz parte de uma pequena parcela da população carcerária que possui idade acima de 45 anos. A grande maioria encontra-se na faixa etária entre 20 e 35 anos. Na Penitenciária I de Bauru, os presos com mais de 60 anos não representam nem 1% da população total, hoje contabilizada em 970 detentos. Na Penitenciária II, dos cerca de 900 presos, só cinco já passaram dos 60 anos.

Tiozinho

O diretor da Penitenciária II, Wilson Elorza Júnior, acha desnecessária a criação de um presídio exclusivo para idosos. Ele pensa assim porque, na P II, os velhos convivem bem com a população mais jovem. Na opinião dele, uma penitenciária só com presos idosos seria uma tranqüilidade. Eles não dão trabalho. Exigem mais assistência médica, é claro, mas apresentam bom comportamento e são trabalhadores. Raramente discutem, brigam ou tentam fugir. Os mais velhos querem é cumprir a pena e ir embora o mais rápido possível, diz. Eles gostam de trabalhar, topam qualquer trabalho e querem fazer até serviços que não podem, como os pesados, acrescenta Plínio Martins Moreira, diretor do Centro de Reabilitação da Penitenciária I.

Os idosos presos não seriam discriminados pelos demais, muito pelo contrário. Os jovens, segundo Elorza Júnior, respeitam os cabelos brancos e não motivam problemas de ordem comportamental em virtude da diferença de idades. Os presos idosos são queridos e, na maioria dos casos, são chamados de Tiozinho pelos mais jovens, conta.

Na Penitenciária I, a questão do respeito não seria diferente. Se em todos os presídios eles vivessem como aqui, não haveria necessidade de um presídio exclusivo. Os idosos daqui têm o respeito, em todos os sentidos, dos mais jovens, reitera Moreira.

A experiência dos presos mais idosos, em todos os sentidos, seria o motivo de tanto respeito. Eles procuram os idosos para saber como funciona a cadeia. Como podem viver melhor, explica.

Visitas

Os presos com mais de 60 anos sofrem com o isolamento da família, constata Wilson Elorza Júnior. É uma idade em que as pessoas se tornam mais sensíveis. Aqueles que são visitados pela família se recuperam mais facilmente, mas temos detentos em cuja ficha constam apenas duas visitas, contrapõe.

O presidiário Olegário da Silva, 60 anos, encarcerado na Penitenciária II, enquadra-se na lista dos privilegiados, pois é visitado constantemente pela mulher e filhos. Dos 42 anos de condenação, ele já cumpriu pouco mais de 11 e pretende levar uma vida honesta quando deixar o presídio. Estou trabalhando e orando para isso. Minha família é religiosa, mas só depois que vim para cadeia fui conhecer Jesus, declara.

Convertido à igreja evangélica, Silva é hoje um conselheiro dos presos mais jovens. Eles me procuram para pedir orientação. Mesmo tendo cometido crimes, eu tenho o respeito deles, porque me arrependi e vou sair daqui de cabeça erguida, enfatiza, sublinhando que a presença constante da família na vida atrás das grades foi decisiva para a reflexão dos erros cometidos.

Sem dificuldades

A convivência com entre presos jovens e idosos é normal para José dos Santos Filho, 60 anos, da P II. Com 40 anos, por prática de roubo, fui para a Casa de Detenção. Me envolvi no crime levado por amigos, pois era serralheiro e não precisava ter feito isso. Convivi com todo tipo de gente e nunca enfrentei dificuldades dentro da cadeia, mas sou respeitado hoje por ter 60 anos, afirma.

Na opinião de Santos Filho, não haveria necessidade de ter um presídio especial só para idosos. Para mim, tanto faz. O pior é ficar preso e não ter o apoio da família. Meus parentes ficaram com vergonha do que fiz, porque todos levam uma vida honesta, pondera.

O preso Armando Rodrigues da Silva, 68 anos, cumpre 15 anos de reclusão por tráfico de entorpecentes e está na PI desde 1986. Na opinião dele, jovens e velhos têm convivência pacífica e harmônica dentro do presídio. Eu não tenho tido problemas. Fico na minha. A única coisa que eu acho que deveria ter é um reforço na parte de saúde, porque o idoso exige mais cuidados, argumenta.

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