Além de aceitar os trabalhos com mais facilidade, eles costumam ter bom relacionamento com os presos jovens
O preso com mais de 60 anos é reabilitado com mais facilidade, segundo informações do sistema penitenciário. Os sexagenários aceitam melhor as tarefas do dia-a-dia e, sobretudo, querem ser úteis para o presídio como um todo. Para eles, trabalhar fora da cela é uma maneira de enfrentar a solidão numa idade em que as pessoas precisam de mais atenção e carinho.
A horta é o posto de trabalho mais requisitado pelos detentos que têm sua história de vida ligada à agricultura. Normalmente, saíram de propriedades rurais rumo aos grandes centros urbanos, mas, por ilusão, necessidade e até ignorância, acabaram se envolvendo com a marginalidade.
Muitos desses presos cometeram crimes depois dos 40 anos, faixa etária que, segundo as estatísticas, representa uma pequena minoria. A maioria se arrepende do crime ou crimes praticados e, invariavelmente, converte-se a uma religião antes de cumprir a pena.
Se as chances no mercado de trabalho já estão difíceis para quem nunca teve passagem pela polícia, imagine para ex-detentos com mais de 60 anos. A falta de perspectivas fora das grades, por sinal, não é bem digerida pelos presos idosos. Alguns esperam em Jesus. Outros, acham que a própria família vai dar um jeito na situação, arrumar um emprego com amigo, por exemplo. Há, ainda, aqueles que já caíram na real e encaram a situação como um obstáculo a enfrentar.
Neste quadro pouco favorável está Quintino Mendes Neves, 65 anos, da P II. Preso por tráfico de drogas quando tinha 50 anos, ele cumpre pena de 22 e não vê o futuro de forma muito otimista. Sei que não terei chance no mercado de trabalho. Bem que gostaria de dizer que vou trabalhar honestamente lá fora, mas sei que isso é ilusão. Talvez tenha que voltar ao tráfico para sobreviver, prevê. Além da visão pessimista, ele se diz velho e doente. Não vou mentir e nem criar ilusão. Quem vai me dar um emprego?, pergunta.
Fazendo a faxina da parte administrativa da P II, o preso Raimundo Ângelo Faria, 63 anos, se distrai enquanto aguarda a Justiça julgar seu pedido de livramento condicional. Ele se julga recuperado e quer ter uma chance para trabalhar. Fui condenado por tráfico e aprendi que a cadeia é o pior lugar do mundo. Não quero mais cometer esse erro, jura.
Saúde em primeiro lugar
O detento José Ferreira dos Santos, 72 anos, da PI, acha que um presídio especial poderia ajudá-lo a enfrentar o cumprimento da pena. Sofro da doença de chagas e tenho uma pena de quatro anos a cumprir. Moro numa cela com mais idosos e todos têm problemas de saúde. Quando passo mal, todos me socorrem, mas até ser levado ao atendimento médico, sofro muito, conta.
Na opinião dele, a assistência médica deveria ser reforçada nos presídios mesmo para os presos mais jovens. Os jovens também sofrem. Muitos são HIV positivos e precisam de assistência, revela. Ele ainda agrava que os presídios não têm ventilação e nem claridade suficientes para a boa saúde dos encarcerados, notadamente para os que têm idade avançada.
Da P II, Waldemar Rossi, 62 anos, também é favorável ao reforço na área de saúde para facilitar o cumprimento de penas pelos presos com mais de 60 anos. Os presos mais velhos ficam mais debilitados na prisão e necessitam mais de assistência médica. Acho que o governo deveria dar um reforço, embora não veja tanta necessidade de se construir uma penitenciária só para idosos, opina.