Passados 61 anos da instituição do voto feminino, as mulheres oscilam na conquista de seu espaço na política
A participação da mulher na política partidária caminha a passos lentos desde a instituição do voto feminino, uma conquista que veio à tona durante a ditadura do ex-presidente Getúlio Vargas. E de lá para cá, a mulher avançou em muitos setores; ganhou o mercado de trabalho, reivindica seus direitos.
Mas no campo político, a ala feminina ensaiou progressos durante a década de 80, estabilizados nos últimos anos. Nem mesmo a cota de 30% das candidaturas legislativas reservadas à mulher tem animado as feministas a encarar o desafio de ampliar a participação na vida pública.
No Poder Executivo, por exemplo, os nomes mais expressivos se resumem a três: Roseana Sarney, governadora do Estado do Maranhão, virtual pré-candidata à Presidência da República; Angela Amin, governadora de Santa Catarina, e Marta Suplicy, prefeita de São Paulo. Coincidentemente, as três tem ligações políticas familiares.
A atual participação feminina no Poder Legislativo mostra que ainda há um caminho vasto a ser conquistado. Dos 81 senadores, apenas cinco são mulheres, ou seja, do total de vagas existentes, a ala feminina ocupa 6,17%.
Na Câmara Federal, a situação é próxima. Dos 603 deputados, 562 são homens e 41 são mulheres, o que representa 6,8% das cadeiras. A proporção na Assembléia Legislativa de São Paulo não é diferente. São 94 deputados, dos quais 87 representam a ala masculina e sete, a feminina (7,45% das vagas).
Câmara Municipal
Em nível local, a participação da mulher na política partidária regrediu enquanto representação na Câmara Municipal. Na legislatura 1997/2000, dos 21 vereadores eleitos, duas eram mulheres: Majô Jandreice (PC do B) e Catarina Carvalho (PFL).
Na eleição passada (2001/2004), apenas Majô foi reconduzida ao Poder Legislativo. Na avaliação da parlamentar, os 61 anos da emancipação política da mulher é um tempo curto para a história. Foi significativo. Para o movimento feminino, a instituição do voto demarcou uma época.
Ela diz que a reserva de legendas para as candidaturas femininas não é uma unanimidade entre os movimentos que aglutinam as mulheres. Mas isso não é um privilégio, é uma necessidade histórica. E não só no Brasil. Em outros países a reserva também foi necessária para que se pudesse dar um salto.
A parlamentar concorda que o momento político atual não é dos melhores para as mulheres. Majô lembra que nas eleições municipais de 1992, as candidatas que disputaram a Câmara somaram, juntas, cerca de cinco mil votos. Quatro anos depois, em 96, esse número saltou para 15 mil, um crescimento vertiginoso que não se repetiu nas eleições do ano passado.
Juntas, as candidatas à Câmara Municipal somaram cerca de 17 mil votos. Nota-se, portanto, que o voto feminino estagnou em relação à penúltima eleição. E ainda com a eleição de apenas uma candidata.
Passos lentos
A consolidação da participação da mulher no cenário político do País avança a passos lentos. A opinião é da presidente da executiva municipal do PT, Estela Almagro. Nós não vamos ter mulheres livres de verdade enquanto elas continuarem se curvando para maridos, famílias e igrejas, critica.
Estela é contra a cota de 30% reservada às candidaturas femininas. Na verdade isso é um limitador de participação. Ela analisa que a grande maioria dos partidos não discute a questão e apenas procura cumprir o que determina a legislação eleitoral.
Grande parte dos partidos apenas reserva essa cota e nem mesmo indica as candidatas. E ainda acham que essa reserva é um complicador no momento da formação das chapas. A maioria dos dirigentes de partidos vê a cota como um problema. Essa situação é um tipo de política compensatória paliativa.
A petista acredita que o crescimento da participação da mulher na política está diretamente ligado à questão educacional. Enquanto nós não mudarmos a formulação da política educacional no País, será difícil mudar como a mãe pensa a educação de sua filha, como o marido pensa a liberdade da mulher, como que a mãe educará seus filhos para não formar homens preconceituosos.
Sem vontade própria
A influência do marido sobre a mulher na escolha de candidatos é um dos fatores que emperra o avanço feminino no mundo político. A avaliação é da coordenadora do Movimento Feminino do PMDB, Haydée das Dores de Souza. Apesar de terem o direito ao voto, as mulheres não têm vontade própria.
A peemedebista diz que é preciso fazer um trabalho de conscientização junto às mulheres para valorizar o voto feminino, que deve ser independente daquele do marido e da família. Ela tem que avaliar as propostas que lhe são favoráveis enquanto mulher.
Haydée acredita que a atual geração não poderá esperar muito. Mas é preciso preparar o campo para uma melhor situação no futuro. A peemedebista se posicionou contra a cota de 30% reservada às mulheres para o lançamento de candidaturas.
Sou contra. Essa cota não deveria ser obrigatória. Isso é uma conseqüência da falta de politização das mulheres. É uma forma de forçar a mulher a entrar na política, o que deveria ocorrer de maneira espontânea.
A coordenadora do Movimento Feminino do PMDB acha que o distanciamento da mulher da política é um fenômeno que merece ser estudado. Por quê mulher não vota em mulher? Nós tivemos candidatas competentes, politizadas nas últimas eleições que obtiveram um número irrisório de votos.