Para dois estudantes de Jornalismo da Unesp, faltam ações mais enérgicas e eficazes por parte dos universitários
O ensino público no Brasil, de um modo geral, não atravessa uma boa fase, principalmente nas universidades, nas quais os grandes problemas são salários defasados dos professores e servidores, falta de verbas e infra-estrutura básica. Quem sofre diretamente com isso são os estudantes, que têm a sua formação comprometida. Mas o que eles pensam e fazem sobre a atual situação do ensino público no País? Na entrevista a seguir, os estudantes Lucas Farinella Pretti e Alessio Iannone Esteves, alunos, respectivamente, do 1º e 2º ano do curso de Jornalismo da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac) da Unesp - Bauru, explicam como vêem a educação na atualidade e como os estudantes devem se mobilizar para mudar o quadro atual, apesar de nem todos estarem preocupados com o futuro da universidade pública.
Jornal da Cidade - O que vocês pensam sobre a declaração do ministro da Educação, Paulo Renato, sobre o fim da ensino gratuito nas universidades públicas no futuro?Alessio Iannone Esteves - Para mim ele só explicitou uma coisa que estava implícita, porque a política que ele vem implantando no MEC já está desmontando o ensino público. Isso são normas que o FMI ditou para o poder público no Brasil, que é preciso mais, que um país de terceiro mundo não pode arcar com isso.Lucas Farinella Pretti - É a tal da política neoliberal, que abriu a economia para o capital entrar, principalmente pelo FMI. Eu não acho isso bom porque uma grande parcela da sociedade não vai conseguir chegar à faculdade, é mais uma forma de exclusão. Se realmente acabar vai ser a formalização de um processo que já está ocorrendo.Esteves - É aquela história, eles acabam com o sintoma e não com a doença. Se o ensino público no nível universitário está sendo elitizado é porque o ensino fundamental e o médio não está sendo feito direito. O ideal seria melhorar o ensino fundamental, o médio e depois a faculdade.
JC - A educação não é uma prioridade do Governo? Esteves - A prioridade do Governo é pagar a dívida externa, o resto fica em segundo plano, como saúde, educação, segurança...
JC - Como é possível evitar que a universidade pública gratuita acabe efetivamente?Esteves - O problema está no fato de que não existe verba para se investir na escola pública porque essa verba está indo para fora. O ideal seria renegociar a dívida porque ela nunca termina, é uma dívida eterna. Seria preciso um perdão da dívida para que esse dinheiro pare de ir para fora e seja aplicado em educação.Pretti - Eu acho isso uma coisa meio utópica...
JC - Na prática, o que os estudantes universitários poderiam fazer?Pretti - Uma mobilização, como está acontecendo nas federais. É um pouco utópico também mas as pessoas deveriam se organizar para lutar contra isso.Esteves - Muita gente está marcando posições sobre isso mas só marcar posições não adianta muito. O ideal seriam manifestações, protestos...Pretti - ... para mobilizar a sociedade e não só a comunidade dos universitários de que é preciso fazer alguma coisa.Esteves - Além disso poderia existir uma pressão em cima dos políticos, em quem você vota, documentos, abaixo-assinados e a pressão popular para quem está no poder ver que realmente existe gente contra isso.
JC - Vocês acham que existe essa consciência entre os outros alunos com os quais vocês convivem?Esteves - Ao meu ver, a maioria dos alunos apoia algumas coisas mas não se mobiliza, acha legal mas não faz parte. Alguns estão lá só para pegar o diploma.Pretti - Mas tem outra coisa, até agora a privatização do ensino era implícita. A partir do momento em que disserem: agora você vai ter que pagar, é possível que as pessoas lutem contra, digam: eu não vou pagar.Esteves - Muitas pessoas ainda não estão sentindo isso
JC - Vocês estudaram em que tipo de escola?Pretti - Estudei em escolas particularesEsteves - Eu passei por escolas particulares e públicas
JC - Se a Unesp não fosse uma universidade pública vocês teriam condição de estar estudando aqui?Pretti - Eu não teria. Por uma coincidência minha família acabou se mudando para Bauru, então moro como os meus pais, mas se isso não tivesse acontecido eu não teria como ficar aqui.Esteves - Só para se ter uma idéia, na Casper Líbero, o curso de jornalismo tem uma parcela de R$ 470, Morando aqui em Bauru, com transporte, aluguel, alimentação e material, eu gasto R$ 300 e é possível gastar até menos. Por isso é que vale a pena fazer a universidade pública.
JC - Qual o principal problema da universidade pública atualmente?Esteves - O que eu sinto no nosso caso é um problema com a estrutura física, falta de laboratórios, por exemplo. Em relação aos professores o nível está bom.Pretti - É claro que nem todos são ótimos mas também não dá para exigir perfeição. O problema é mesmo a infra-estrutura, tudo o que está em volta do ensino.
JC - Essa falta de estrutura seria a principal diferença entre as universidades pública e privada?Esteves - Se a gente for opinar pelo o que a gente ouve corre o risco de cair nos esterótipos, não dá para generalizar. De repente existem alunos que podem ser o que a gente ouve por ai ou não podem ser. Da mesma maneira que algumas pessoas da elite na nossa sala estão lá só para pegar o diploma, existe na universidade particular alguém que está lá porque não conseguiu fazer um cursinho e entrar na pública.
JC - Vocês acham que a universidade pública está ficando cada vez mais elitizada?Pretti - Eu acho que não. Esteves - Ainda não está completamente elitizada, muita gente veio de escola pública e fez cursinho.Pretti - Não está tão elitizada quanto a faculdade particular. Tem muita gente ali que rala desde cedo para estar ali, para se manter
JC - Como vocês vêem a participação da Unesp na comunidade de Bauru?Esteves - A Unesp tem alguns trabalhos sendo desenvolvidos na comunidade, como um no Núcleo Gasparini. O problema da Unesp é que ela é muito longe da cidade em si. Muitas atividades que são abertas ao público como o cineclube, apresentações, festas, não contam com a presença de membros da comunidade por causa da distância, às vezes de falta de informação...
JC - Vocês têm alguma expectativa sobre o novo reitor da universidade?Esteves - Particularmente, eu ainda não vi muita diferença entre o que ele falou que ia fazer e o que está fazendo, nada que eu possa dizer que ele está fazendo... O novo diretor do câmpus, por exemplo, eu acho melhor do que o anterior, mas quanto ao reitor, toda vez que tivemos a oportunidade de conversar com ele, não senti nada de diferente do anterior, nada que possa destacar.
JC - A universidade para vocês é um espaço político?Esteves - Com certeza, todo o espaço público é um pouco um espaço político porque como é público você tem sempre que estar debatendo com todos para estar fazendo alguma coisa. Tudo isso é política.Pretti - Porque é público é preciso que haja uma discussão política porque tudo o que está acontecendo ali veio de decisões políticas.
JC - Todos os alunos têm essa percepção sobre o aspecto político da universidade?Esteves - O pessoal não é contra mas não dá a cara a tapa. A coisa é assim: se é um problema com a turma dele, ele participa, se for com outra turma, uma coisa mais generalizada, é preciso trabalhar mais.
JC - Não existe um preconceito interno contra as pessoas que se preocupam com política dentro da universidade. Os alunos não criticam os membros dos diretórios acadêmicos?Esteves - Criticam, eu sou membro do diretório e passo por isso. O que acontece é que como são poucas as pessoas que participam, são sempre as mesmas caras. Então quando você está lá reinvindicando alguma coisa, falando, sempre tem alguém que te taxa de radical, de chato. Você vai dar um recado e o pessoal já começa a reclamar. Mas é aquela coisa: alguém tem que fazer isso, então você acaba suportando.
JC - É preciso haver uma conscientização maior?Esteves - O ideal seria tentar conscientizar o maior número possível de alunos para o que acontece na faculdade, mesmo que alguns digam: eu sei e para mim não faz diferença que seja assimPretti - Eu acho que deveria haver um jeito de conscientizar as pessoas de modo que elas se sentissem importantes. Eu mesmo já fui a muitas reuniões, dei sugestões, falei, mas ninguém me ouviu. Acho que isso acontece muito com as pessoas e elas se decepcionam com o movimento estudantil.
JC - Como vocês classificam o movimento estudantil hoje?Esteves - O movimento estudantil já foi muito mais fechado do que é hoje só que como as pessoas se aproximam mas não vêem resultados rápidos, desanimam. Eu não posso falar que elas estejam erradas ou que o movimento está errado. Muita gente vai até lá e sai reclamando, eu fiquei, eu insisti. O que acontece também é que a pessoa precisa acompanhar o contexto todo e nem sempre esse contexto é explícito. Pretti - O partidarismo também atrapalha o movimento estudantil, existem algumas pessoas que fazem parte do PSTU na minha sala, a gente até concorda com o que eles dizem e admira o poder de oratória que eles têm mas eles são agressivos e isso não agrada a maioria das pessoas. Esteves - O problema é que o movimento não tem que se pautar pelo partido, tem que se pautar pelos estudantes. Você pode ser do partido que quiser, isso é até positivo, mas você não deve trazer a discussão do partido para os estudantes e sim o contrário. O partido não deve pautar o movimento estudantil, sou contra isso.
JC - A visão que fica é de radicalismo?Esteves - Os que são chamados de radicais, são aqueles que estão mais envolvidos. E quanto mais envolvido você está mais desesperadora é a situação porque existem mais problemas para resolver. Acaba sendo um estresse muito grande e até revoltante porque você está lutando por pessoas que não estão nem ai, você vai dar um recado e os estudantes riem na sua cara, viram as costas, zoam com você... É complicado saber que você está lutando pelas pessoas e elas não param nem para dizer: eu te apoio. Eu tento contornar isso porque como eu milito tento não levar as coisas a ferro e fogo, ou eu piro.
JC - O movimento estudantil já foi mais forte na época da ditadura, por exemplo. Além da mudança de governo, o que mudou?Esteves - Naquela época havia um inimigo comum. Eles sabiam contra o que lutar. Hoje em dia você não tem um inimigo visível para ir contra, a coisa está nas entrelinhas. Se você grita fora FHC, por exemplo, é preciso explicar um contexto do contrário as pessoas não entendem... Pretti - Acham que só porque não há mais inflação está tudo bem.Esteves - Quando se gritava fora a ditadura, todo mundo sabia porque. Pretti - Talvez essa questão do fim da universidade pública acabe funcionando como o inimigo de antes. Talvez as pessoas se unam, se organizem para lutar contra isso como no passado lutaram contra a ditadura.
JC - O estudante, no geral, precisa se politizar mais?Esteves - Precisa porque diante do quadro atual, quanto mais pessoas forem politizadas, quanto mais pessoas estiverem lutando, maior será a pressão e o resultado pode vir mais rápido. Eu acho que deveria, mas não posso obrigar ninguém a se politizar. O que eu prefiro é que as pessoas se manifestem, digam eu quero ou eu não quero, do que ficar em cima do muro. O que falta é o estudante assumir uma posição qualquer que ela seja. Se os estudantes se mobilizarem já vai ser um avanço. É preciso se mobilizar primeiro.
JC - O que vocês pensam sobre o provão?Esteves - Eu sou contra e a gente está brigando para que a Unesp saia do provão e faça uma avaliação própria. O provão é assim: o Governo não investe e depois avalia o que não fez dizendo que está uma porcaria.Pretti - Mesmo assim, eu acho que você aplicar uma prova para avaliar quatro anos de estudo não é o suficiente, não dá para avaliar. É a mesma coisa do vestibular, dois dias de prova não vão dizer se eu sou melhor do que outro.
JC - Seria avaliar o aluno desde o colegial, como nos Estados Unidos?Esteves - O que é complicado é esse sistema de notas. O aluno às vezes é bom, se interessa, mas na hora da prova, vai mal, fica nervoso. Não sei qual seria o sistema ideal, o vestibular está aí e não sei o que poderia substituí-lo.Pretti - Também não sei se o sistema dos Estados Unidos funcionaria aqui, seria preciso ter mais faculdades, mais vagas.