O homem só criou Deus, uma ficção; ao passo que Deus criou o homem, uma realidade. Se eu nada mais houver deixado de relevante, quando me for disto que experiencio como vida, esta sacada terá sido minha mais relevante contribuição à humanidade, por irrelevante que tenha sido minha contribuição.
Há dez anos me impus voluntariamente o ostracismo do pensamento, mesmo à custa de resistir a mil demônios a cada compulsão de escrever. Com o recente ataque terrorista aos Estados Unidos, em meio a toda baboseira e alguma coisa pertinente que se ouviu, falou, pensou, escreveu e fez sobre o assunto eu vinha resistindo bravamente à compulsão de meter meu bedelho nesse angu com um mínimo de contribuição.
O mote, enfim, quem deu foi esse sempre lúcido jovem professor Rodolpho Pereira Lima, de quem não é raro eu discordar respeitando. Em sua carta de 28/10 nesta tribuna, ele cita o fator Deus e José Saramago, com quem também nem sempre concordo em gênero, número e grau, mas cuja obra eu me orgulho de haver levado ao conhecimento de uma maravilhada professora Celina de Lourdes Alves Neves, a saudosa, nos seus últimos meses de vida.
O gatilho que o jovem professor Rodolpho fez disparar em mim foi o do agnosticismo. Há muito tenho a convicção de que, exista Deus ou não (até porque a meu ver essa é uma questão totalmente irrelevante), a paz entre os homens e mulheres (nascituros, crianças, adolescentes, jovens e idosos) estará tão mais próxima quando mais distantes estivermos - cada um de nós e todos nós, todos nós e cada um de nós - das questões Deus e religião.
É pertinente imaginar que, nos primórdios de sua ainda enigmática consciência de existir, o animal-homem tenha enfrentado tanto problema de liderança (= sobrevivência) que - às margens do Tigre, do Eufrates, do Nilo ou até mesmo de outro caudal - tenha tido o estado de (representado no mais espertinho de um grupo em desespero) ameaçar, concreta e tenebrosamente, com devastadoras inundações, seus iguais às margens do rio mais abaixo, para isso valendo-se dos rudimentos da tecnologia de represagem. Claro que atribuindo a si mesmo a unigenitura ou a primogenitura ou o compadrio ou o assim com o hóme ou seja lá o que tenha sido, em relação ao poder absoluto de um Deus, bem provavelmente criado também na hora, no cagaço, para esse fim.
Ora, não é hora de, já neste primeiro século do Terceiro Milênio, sermos todos nós e cada um de nós, cada um de nós e todos nós, infinitamente mais humildes? Embora vinculado à terra, cada um de nós vive no céu ou espaço sideral à estonteante (e ao mesmo tempo insignificante) velocidade de 50,5 quilômetros por segundo ou 1 bilhão e 600 milhões de quilômetros por ano. Que desastre há em se admitir, por exemplo, que o deus (ou Deus, respeite-se o nível de percepção de cada um) que nos criou não conheça patavina sobre sua própria origem? Ou que a ida existente neste grão cósmico de poeira seja oriunda, por exemplo, da cutuba de Órion, mas que para o deus (ou Deus) dos da cutuba de Órion ela seja um enigma absoluto?
Que desastre há em admitir, cada um de nós e todos nós, todos nós e cada um de nós, perante si mesmo e perante os demais, que sabe o que sabe e que não sabe o que não sabe? Faça-se uma experiência. Um grupo de três pessoas, cada uma com um objetivo alcançável em, digamos, meia hora. A primeira passa meia hora orando. A segunda, meia hora querendo. A terceira, meia hora fazendo. Orar é poder. Querer é poder. Fazer é poder.
O resultado convincente, leve-se à prática permanente, pelos séculos dos séculos, a todo tipo de agrupamento humano. Isso será a prática de agnosia ou agnosticismo. Onde a guerra? E por que a guerra? Humildade, mano! Você sabe bem mesmo o que é isso? Melhor ainda, pratica bem mesmo o que é isso? (nilson.avante@ig.com.br)