Geral

Um novo espaço cultural da cidade

Hélcio Pupo Ribeiro (*)
| Tempo de leitura: 4 min

O que admiramos em Pablo Picasso (1881-1973) ou, simplesmente, Picasso, o que lhe é característico mesmo é o seu incontido e apaixonado desejo, quase obsessão, de buscar a criação nova, isto é, a mais pura realidade. Nesse afã, o artista não se limita ao desenho, à pintura ou a escultura em cerâmica ou metal, procura novos efeitos plásticos, harmonizando linhas e cores, inventando idéias até mesmo aparentemente malucas.

Esta breve introdução se deve ao fato de estarem expostas no Espaço Cultural da Vila Inglesa obras de nossos artistas mais conhecidos e considerados, o que valoriza, ainda mais, o acolhedor recinto.

Logo à entrada do Shop Point está belo trabalho de Walter Mortari, a figura de São Francisco de Assis, esculpido em madeira, em estilo expressionista, mostrando na técnica da fatura o atualmente adotado pelo escultor. É sugestiva a postura do religioso, o povero amico degli uccelli. Olha para o alto como se estivesse recebendo mensagem divina, sempre confortando em suas palavras de amor e caridade. A expressão facial singela, parece nos convidar, pelo menos, à meditação. Parece murmurar as primeiras palavras da piedosa oração: Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz... Pormenores como o rústico cordão de sua esguia cintura, sugere-nos o discreto balanço de um pêndulo mudo mas impregnado de fé cristã. Outras obras de menor porte nos rodeiam. Todas exibem o carinho amoroso do artista verdadeiro que é Mortari. Não importa o material usado, o que vale é a idéia, queremos dizer, o impulso criador que vem do âmago da alma. Mário de Andrade escreveu que estilo é a marca da personalidade impressa no ato de fazer. Pura verdade! É a culminância do criador fazendo nascer a criatura.

O mesmo se pode dizer das obras de Maria Antonia Camolesi. Ela se manifesta na escultura e em outro campo da estética, o abstracionismo. Sempre lírico e rico de soluções delicadas, envolvidas de excelsa leveza, para não dizer oníricas. Repare-se na Moça Sentada, envolta por cordão cobreado, que a circunda sem tocá-la, enlaçando-a pelo carinho e simpatia do visitante curioso e emocionado. Deliciosas miniaturas de variadas formas, cativam pela sensibilidade artística, pela sutileza harmônica e delicadeza grácil, suas qualidades primordiais.

Ainda no campo da arte abstrata, na trilha do geometrismo, retornemos a Mortari, na seqüência de grandes trabalhos elaborados à óleo/tela. Duas delas, com mesmo tema (o violão), mostram desenvolvimento na área do expressionismo-abstrato, dando ênfase à geometria: Serenata I e II.

Sem qualquer espírito de comparação, somos levados a rever Braque e, por que não, Picasso. O primeiro, Braque, praticava o cubismo-prático, isto é, com moderada dissolução das formas. Já o segundo, estraçalhava as formas, não deixando, sequer, o mínimo detalhe o original. O artista de Bauru se situa entre os dois, conseguido resultados menos exasperados, mais compreensíveis. O Picasso é agressivo, deforma e dissolve as formas à sua maneira. Mortari está mais para Braque, por isso é mais acessível que o catalão. Notem na sua tela à óleo de grandes proporções. É uma cena praieira onde predominam os azuis e tonalidades variadas. Céu e mar definem, de imediato, o estilo impressionista chegado a Monet. O branco das nuvens contrasta com o azul do navio, falando mais que a natureza. A harmonia cromática é senhora do ambiente pelo equilíbrio e impressão (Monet? ou Visconti?).

O terceiro nome da mostra é Mara Mazeto, jovem de qualidades anteriormente demonstradas. É uma colorista exacerbada com bastante experiência no ofício. Mara gosta de brincar com cores e linhas, dando, no entanto, ao plicromatismo fovista. Seus quadros são esplendidamente decorativos, alegres, comunicativos. Tem mérito artístico. Varia com oportunismo na escolha do suporte: tela, óleo, guache, aquarela, nanquins e ecoline. Seu colorismo canta, dança, grita e brinca. São formas sem forma, sensíveis na sua missão de comunicar arte e bom gosto.

Toda e qualquer mostra de cultura, privilegia o mundo social da cidade e dá oportunidade para que o povo, freqüentando-os, compreenda porque, como diz E. Rothstein, ... uma obra-prima é uma criação tão bem elaborada que parece ir além da capacidade de realização humana. É um feito humano que representa o coroamento de um artista. É uma pedra de toque pela qual todas as obras semelhantes são avaliadas.

Já no fim da noite, demos uma olhada na mostra retrospectiva do inolvidável João Ponce Paz, no Centro Cultural de Bauru. Por instantes, revivemos nossos contatos proveitosos, pois ele era e é o patrono da nossa arte de pintar. E pensamos: Se você estivesse aqui, caro amigo Ponce, eu lhe daria dois abraços: um pela saudade infinda que nos toca; outro, pela sua magnífica arte de jogar com as cores.

Soubemos que Maria Antonia Camolesi exporá suas obras no Sesi e que Mara Mazeto tem seus quadros no saguão do Shopping Bauru. Aconselhamos vê-los. Vale a pena!

(*) Especial para o JC Cultura

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