Doença já é encarada como um dos mais graves problemas de saúde pública a ser enfrentado no século 21
Ela é sutil e silenciosa. Na maioria das vezes, apresenta-se de forma assintomática, só sendo identificada quando evolui para um quadro clínico de cirrose ou câncer. Bem mais comum do que se pode imaginar e atingindo algo em torno de 200 milhões de pessoas em todo o mundo, a hepatite C crônica (VHC) faz muito mais vítimas do que a aids.
Apenas entre os anos de 1997 e 1999, segundo dados oficiais, 813 brasileiros morreram em decorrência da doença. Essa estatística é rebatida pelos hepatologistas que acreditam em um número pelo menos três vezes maior. A situação é tão grave que a Organização Mundial de Saúde (OMS) considera o mal um dos principais problemas de saúde pública a ser enfrentado ao longo do século XXI. Projeções apontam para um aumento de 600% no número de transplantes de fígado nos próximos cinco anos em função da evolução da doença. Com vetores de transmissão parecidos com os da aids, ou seja, sangue contaminado, relações sexuais de risco e uso compartilhado de agulhas, entre outros, a hepatite C possui um período de incubação em torno de 20 anos e em 90% dos casos torna-se crônica. Por ser assintomática em 80% dos pacientes, a identificação do vírus só ocorre quando o fígado já está seriamente comprometido. Quadros de cirrose e cânceres são extremamente comuns entre os portadores do VHC. Quando diagnosticada no princípio e tratada com medicamentos a base de interferona associado à ribavirina, a doença alcança índices de cura de até 72% dos casos.
Pessoas que passaram por transfusões de sangue antes de 1991 (ano em que os hemocentros brasileiros iniciaram a realização de exames para detecção da doença), usuários de drogas injetáveis e a classe médica constituem grupo de risco em potencial. Existem ainda a contaminação por compartilhamento de objetos não esterelizados, como lâminas de barbear e alicates de unha. No entanto, 10% dos casos ainda possuem formas de contágio desconhecidas, alerta o professor de gastroenterologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Flair Carrilho.
O hepatologista Marcelo Maia revela que a hepatite C é responsável por 90% de todos os transplantes de fígado realizados no Brasil. Um dos primeiros pacientes a se submeter a um transplante de fígado, o aposentado José Adenilson Queiroz, afirma que hoje possui uma vida absolutamente normal. Contaminado através de uma transfusão de sangue em 1967, ele só identificou a doença em 1992. Após apresentar reações colaterais ao medicamento, o que tornou o tratamento inviável, ele submeteu-se ao transplante e hoje está organizando uma associação voltada a prestar assistência aos pacientes que estão na lista de espera. Hoje como de tudo e estou liberado até para o consumo de bebidas alcóolicas de forma moderada, comentou.
Hepatite C
O termo hepatite significa inflamação no fígado. A hepatite pode ser causada por infecções, intoxicações (principalmente pelo álcool), medicamentos, distúrbios do metabolismo e doenças da imunidade. A causa mais conhecida e freqüente é a hepatite viral.
A principal via de transmissão do vírus C é a transfusão de sangue total ou de seus derivados (plasma, concentrado de hemácias, plaquetas, etc). O uso de agulhas e seringas compartilhadas em grupo por usuários de drogas injetáveis ilícitas causa a prevalência de infecção de até 90% nestes indivíduos.
A realização de tatuagens e a colocação de piercing tem contribuído com muitos casos de infecção, pois geralmente são realizados por pessoas não habilitadas.
Por terem contato diário e direto com todo o tipo de doentes, expostos a se espetarem com agulhas e instrumentos cortantes e pelo manuseio de secreções e dejetos contaminantes, os médicos, dentistas, enfermeiros, técnicos de laboratório e outros profissionais de saúde constituem um grupo de risco para a infecção pelo vírus C.
Os tratamentos de acupuntura devem ser feitos com material de uso exclusivo do paciente, assim como o instrumental odontológico deve ser corretamente esterilizado para evitar contaminações. Instrumentos cortantes de uso pessoal, como lâminas de barbear ou de depilação e escovas de dente, devem ser de uso exclusivo. Os profissionais como pedicuros, manicures e barbeiros devem saber esterilizar seus instrumentos (alicates, navalhas, tesouras, pinças e outros) para não transmitirem a doença de um cliente para outro.
Aproximadamente 15% das pessoas infectadas pelo vírus C podem se curar naturalmente, como em qualquer outra infecção, porém, o restante evoluirá para forma crônica de hepatite, mais ou menos grave. Dos que evoluem para a cronicidade, aproximadamente 20 % atingirão formas mais graves de doença hepática, como a cirrose, após 15 a 20 anos de doença e o risco aumentado de tumor maligno.