Vinhos, whisky e vinagre ou álcool de cana-de-açúcar? A questão está sendo respondida pelo Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu, cujo laboratório desenvolveu um método que permite detectar a quantidade de álcool de cana-de-açúcar que é adicionada a produtos fraudados.
O método, tecnicamente conhecido como uso de isótopos estáveis do carbono (carbono 13/ carbono 12) na detecção de fraudes em vinhos e fermentados com álcool de cana-de-açúcar, foi criado pelo Centro de Isótopos Estáveis do Instituto de Biociências da Unesp e está sendo adotado pelo Ministério da Agricultura desde 1994.
A técnica está sendo usada na avaliação de vinhos, bebidas mistas, vinhos compostos, whisky, champanhe, vinagres, fermentados de maçã, laranja ou arroz e outros produtos. No entanto, tem uma gama de atuação de pesquisa mais ampla, de acordo com o professor Carlos Ducatti, da Unesp de Botucatu. Estamos atendendo o que é de interesse público.
O professor esclarece que a adulteração favorece financeiramente o produtor já que, nas produções sem fraude, um quilo de uva resulta em um litro de vinho. Com as fraudes, um quilo de uva faz cinco litros de vinho.
Segundo Ducatti, o Ministério da Agricultura está autorizando o Centro de Isótopos Estáveis da Unesp de Botucatu a ser o único laboratório do Brasil a proceder esse tipo de análise. A pesquisa nasceu aqui dentro; o método foi publicado em diário oficial e tivemos que alterar a lei dos vinhos, reforça.
Resultados
As pesquisas realizadas pelo Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu mostraram que 80% da safra de 1999 estava adulterada. Foram feitas blitzes no Estado de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. São representantes de mais ou menos 300 milhões de litros, frisa o professor.
Ducatti faz uma ressalva importante: Estamos falando do vinho comum. O vinho fino, graças a Deus, ainda não foi atingido, observa.
Em 2000, o resultado foi diferente e favorável ao consumidor: 80% da safra não estava adulterada. Ducatti acredita que os resultados positivos são frutos do trabalho de conscientização desenvolvido pelo Ministério da Agricultura.
No entanto, de acordo com o pesquisador, ainda há produtores que adicionam o álcool de cana-de-açúcar ao vinho e outras bebidas durante o enchimento das garrafas. Você compra coelho e eles te vendem gato, ilustra o professor.
As empresas em cujos produtos foram detectadas fraudes não foram divulgadas pelo professor por uma orientação do Ministério da Agricultura.
O órgão, em vez de aplicar penas e multas aos infratores, tem realizado um trabalho de conscientização junto a eles. De acordo com o professor Ducatti, se fossem adotadas medidas mais rígidas, toda a cadeia envolvida na produção do vinho seria prejudicada. Ou seja, fabricantes de rolhas, rótulos, vidro e tanques, além de transportadores e trabalhadores rurais.
Desde 1994, está sendo feito um trabalho de conscientização para que eles façam vinho a partir do vinho, e não vinho falsificado, disse.
O professor acrescenta que os bons produtores de vinho estão elogiando e incentivando a técnica porque a má qualidade do produto teria aberto espaço grande para que vinhos importados ganhassem o mercado brasileiro. Conseqüentemente os bons vinhos, principalmente na região Sul do País, estão sendo relegados a segundo plano.
Além disso, a receita do Estado cai pela entrada dos vinhos importados no mercado. Durante este ano, foi observada uma melhora na qualidade dos vinhos produzidos no Brasil, em relação à safra de 1999.
As pesquisas também estão auxiliando as indústrias vinagreiras do Estado de São Paulo para que tenham matéria-prima de boa qualidade. O problema de adulteração é semelhante no vinagre porque sua matéria-prima é o vinho. Como você vai fazer um vinagre bom se ele já está adulterado?, questiona Ducatti.
Sobre a técnica
O carbono 13 e o carbono 12 são isótopos do carbono. Eles apresentam um número que difere do carbono 13/12 do vinho para o carbono 13/12 do álcool de cana-de-açúcar. A gente faz uso de átomos para detectar adulteração de álcool de cana-de-açúcar no vinho, esclarece o professor Carlos Ducatti.
Ou seja, um vinho puro resulta num valor carbono 13/12 diferente do valor carbono 13/12 do álcool de cana-de-açúcar. A mensuração quantitativa é feita nos vinhos que apresentam valores intermediários. Quantitativamente, a gente pode detectar a adulteração do álcool de cana-de-açúcar no vinho, no fermentado de maçã, no fermentado de laranja, expôs o professor.