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Scliar: garimpeiro do cotidiano

Fabiano Alcântara
| Tempo de leitura: 2 min

Com uma história de vida pouco comum, o escritor Moacyr Scliar transfere o inusitado para os seus livros, crônicas e artigos

Em Porto Alegre, talvez a cidade mais existencialista do Brasil, vive um escritor com uma história de vida nada comum. Descendente de russos, torcedor do extinto Cruzeiro de Porto Alegre, médico que virou escritor, Moacyr Scliar leva o inusitado do cotidiano para seus livros, crônicas e artigos.

Situações estranhas estão sempre nas suas histórias, nas quais funde um humor ácido e uma fabulosa capacidade criativa. Resultado disso foi o Prêmio Jabuti, o mais prestigioso da literatura brasileira, concedido ao livro A Mulher que Escreveu a Bíblia, publicado no ano passado.

Escolhido para ser a última personalidade a falar na Feira do Livro de Bauru, no domingo, Scliar substituiu o também escritor Ignácio de Loyola Brandão, que cancelou sua palestra por motivos particulares, segundo a assessoria de imprensa da feira.

Muito à vontade e demonstrando boa vontade com o assédio de fãs e jornalistas, o gaúcho contrariou a fama de que os escritores são pessoas cheias de manias e com pouca paciência. Leia trechos da entrevista concedida à parceria entre o Jornal da Cidade e a TV USC.

Pergunta - Por que você gosta tanto de aspectos inusitados na sua literatura?Scliar - Eu faço parte de uma geração que foi muito marcada pelo realismo fantástico, realismo mágico. Que exatamente buscava isso, o inusitado. Só que a gente buscava isso, em parte como uma linguagem política. Porque nós começamos a publicar, e eu estou falando de pessoas assim como Inácio de Loyola Brandão, Antônio Torres, João Antônio, já falecido, escritores que começaram a publicar no final dos anos 60 e começo dos 70, e nosso recado era um recado político, contra a repressão, contra a censura. O realismo mágico era uma forma de dar esse recado político de uma maneira que a imaginação predominasse. Inclusive como uma forma de driblar a censura. Então, a gente privilegiava muito essa imaginação levando às raias do fantástico.

Pergunta - Hoje em dia os países estrangeiros têm se interessado pela literatura brasileira?Scliar - Acho que não. Houve uma época, exatamente nos anos 60, 70, falava-se na explosão da literatura latino-americana. Nessa época havia muito interesse pelo (Gabriel) García Márquez, (Mario) Vargas Llosa, (Julio) Cortázar e de alguns brasileiros, entre eles o Jorge Amado. Mas era também porque a América Latina chamava atenção nessa época.

Pergunta - O Jorge Amado pode ser considerado realismo fantástico?

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