Logo após uma missa de domingo, um jovem aproximou-se de mim com o seguinte questionamento: Como pode Deus exigir que eu ame o meu próximo, se nem todas as pessoas são para mim simpáticas?
O seu problema, na verdade, não era a incapacidade de praticar o mandamento bíblico, mas sim a discordância que existe entre este e o significado moderno da palavra amor. Para que a expressão bíblica amor ao próximo seja compreendida é necessário dissociá-la da moderna concepção de amor e traduzi-la com a palavra solidariedade. O fato de que cada ser humano é meu próximo em potencial, e ao mesmo tempo, o fato de que eu posso ser o próximo de cada ser humano, está relacionado muito mais com solidariedade do que com amor propriamente dito. Para entendermos esta tradução é necessário analisarmos as diferenças entre amor e solidariedade.
Em uma relação de solidariedade as pessoas reconhecem-se como iguais ou com direitos iguais. A base da solidariedade é a simples aceitação da dignidade do outro como pessoa humana, ou seja, quem solidariza-se declara o outro como seu semelhante.
O relacionamento de amor, porém, exige mais do que o simples fato do outro ser pessoa. O amor constitui-se na aceitação do outro em sua individualidade e particularidade. Para ajudar a matar a fome de uma criança eu não preciso simpatizar-me com ela, basta que eu a veja como pessoa. Para amá-la é necessário que eu a conheça com mais profundidade.
Qualquer forma de amor nasce do encontro com características individuais da pessoa amada. Além do mais, o amor necessita de momentos de afetividade que surgem da atração pela singularidade da pessoa amada. Justamente por ser o amor orientado para a individualidade do outro, é necessário que no relacionamento de amor exista uma esfera de intimidade, ou seja, ele é por natureza exclusivo.
A exclusividade é parte integrante do amor não pelo simples fato dele acontecer entre duas pessoas, ou entre um grupo pequeno (família, amigos...), mas pelo fato do amor possuir códigos exclusivos de relacionamento. Ninguém ama de forma igual a todos e cada relacionamento de amor possui suas características próprias não podendo ser totalmente partilhado com outros. Solidariedade, ao contrário, não tolera forma alguma de exclusividade, pois ela é essencialmente universal.
Sua base é o ser pessoa do outro, portanto ninguém pode ser excluído da solidariedade. É graças à sua universalidade que é possível o ato solidário entre dois inimigos tradicionais, como na parábola do Bom Samaritano (Lc 10, 29-37).
Outra diferença importante é que solidariedade procura sempre atingir objetivos concretos. Ela busca a transformação de uma situação ruim ou a permanência de uma situação favorável. Sendo os objetivos alcançados ou a ameaça afastada a solidariedade torna-se supérflua, e é substituída por outras formas de relacionamento (cordialidade, amizade...). Portanto, a solidariedade possui sempre uma duração limitada.
O amor, por sua vez, não está orientado para atingir objetivos concretos, seu único interesse está na pessoa amada. Desta forma o amor deve possuir uma duração maior que a solidariedade. A solidariedade é expressada através de diversas formas de doação, obrigação e compromisso que podem ser institucionalizadas.
Ela pode ser manifestada através de organizações como movimentos sociais, igrejas, sindicatos, etc. e procura fazer com que seus objetivos sejam perpetuados através de normas e leis. A solidariedade movimenta-se nas trilhas da justiça. Já o amor, por ser uma doação completa ao outro, não pode ser exigido e muito menos cobrado. Não existe nenhuma exigência moral ou de direito em relação ao amor.
Isso significa que é inútil tentar institucionalizá-lo. Eu posso esforçar-me para amar alguém, mas é totalmente incerto se, dos meus esforços, surgirá um verdadeiro amor. Amor é sempre um presente livre e gratuito. A solidariedade torna-se elemento obrigatório de minha praxis à medida que vejo os outros como meus semelhantes. Sua falta pode trazer-me culpa de consciência.
O fato de não amar alguém não é motivo moral para sentir-me culpado. Por fim, o amor é doação gratuita, ele não procura seu próprio interesse (1 Cor.13, 5).
Caso o amor seja correspondido é sinal que existe reciprocidade. Esta, porém, deve ser espontânea e natural. Já na solidariedade reciprocidade torna-se algo obrigatório. Quem é solidário possui o direito de contar com a solidariedade do outro. A falta de reciprocidade constitui-se aqui em um ato moralmente condenável.
Estas diferenças mostram que, na modernidade, a solidariedade pode ser mandamento, o amor não. Infelizmente costumamos utilizar a palavra amor sem atermo-nos a seu significado atual correndo o risco de banalizá-lo. Da mesma forma, a expressão bíblica amor ao próximo perde sua eficácia e cai no vazio se a mantemos associada à expressão moderna do amor.
O perigo aqui é cairmos em um discurso de amar a humanidade que não nos leva, na verdade, à ação concreta. O bem geral é a justificativa do imoral, do hipócrita e do falso. (William Blake) .
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