Professor de Genética e Evolução da Unesp, Jehud Bortolozzi, defende rigor ético, mas é favorável às pesquisas.
Os cientistas que trabalham com pesquisas genéticas, em especial as que envolvem transgênicos e clones, têm enfrentado grande resistência de diversos setores da sociedade a cada trabalho publicado. O fenômeno, mundial, reflete, além do medo de que o homem esteja querendo tomar o lugar de Deus na criação de novos seres vivos, um profundo desconhecimento sobre o que exatamente a Ciência busca quando procura melhorar um ser geneticamente.
O biólogo e professor de Genética e Evolução da Faculdade de Ciências da Unesp de Bauru, Jehud Bortolozzi, é pioneiro no País no trabalho de tipagem de grupos sangüíneos em bovinos e está intimamente ligado a essas questões. Na sua opinião, as experiências com clones e com o genoma são de extrema importância para a humanidade que, em alguns anos, pode ver-se livre da maioria das doenças e ter o sua expectativa de vida aumentada em muitos anos.
O elixir da longa vida está mais próximo do que imaginamos, diz. O mesmo vale para os transgênicos, que ele acredita que vão dominar o mercado em pouco tempo. Na entrevista a seguir ele fala sobre os usos da biotecnologia e sobre como, apesar da polêmica, técnicas como a clonagem devem tornarem-se comuns no futuro.
Jornal da Cidade - O que é biotecnologia?Jehud Bortolozzi - As pessoas costumam chamar de engenharia genética. O que é isso? É a possibilidade de usar técnicas parecidas com as que se usam em engenharia para conseguir algum resultado. Na realidade, o termo correto seria biotecnologia, que é qualquer tecnologia usada no processo biológico. Existe biotecnologia simples e complexa.
JC - O que é uma biotecnologia simples?Bortolozzi - É colocar um anti-A e um anti-B; colocar uma gota de sangue e ver se deu positivo ou negativo por causa da aglutinação dos glóbulos e concluir qual o tipo sangüíneo do indivíduo. Uma biotecnologia complexa é tentar descobrir qual a seqüência das bases nitrogenadas que constituem o DNA, que é o projeto Genoma. Isso requer uma tecnologia mais sofisticada. Dentro dessas biotecnologias existem os transgênicos, que surgiram como uma novidade diante da possibilidade de melhorar os alimentos, mas é uma questão muito discutida sobretudo por aspectos econômicos; a clonagem, que é uma biotecnologia de recursos fantásticos com a qual se pode conseguir resultados incríveis, e também o genoma. Essas são as biotecnologias complexas que têm se desenvolvido mais ultimamente, são também as que a mídia tem explorado mais.
JC - Por que essas três técnicas são tão polêmicas?Bortolozzi - Elas são polêmicas por uma questão muito simples. Enquanto as experiências são conduzidas com animais, tudo funciona bem. Quando se coloca a possibilidade delas serem usadas com seres humanos, a coisa complica. São questões de ética, embora exista uma ética bastante desenvolvida quando se trabalha com animais. A ética para se mexer com os humanos ainda é maior. JC - O senhor acha que a Ciência não pode parar por essas questões?Bortolozzi - No fundo, o homem desde que pensou em trabalhar, tinha dois objetivos principais. Um deles era transformar tudo em ouro e o outro era obter o elixir da longa vida. Existe um grupo que está estudando as possibilidades, com questões de Física, Química, etc, de transformar algo em ouro. Agora, o elixir da longa vida está mais próximo do que imaginamos. A impressão que eu tenho é que daqui a alguns anos ninguém mais vai morrer de doenças; as mortes vão ser acidentais. Vamos ter recursos para corrigir os erros genéticos e corrigir algumas doenças. A Ciência não acontece de uma hora para outra; acontece numa seqüência, uma coisa após a outra. Quando Darwin começou a estudar a evolução até chegar a um postulado sobre o que é evolução, ele já tinha um antecessor, que foi Lamarque, que chegou mais ou menos onde ele tinha chegado, mas não tinha explicações. O próprio Darwin teve dificuldade de explicar porque acontecia a evolução. Mas nessa mesma época surgiu Mendell, que descobriu as leis da Genética. Daí as explicações para Darwin ficaram possíveis. As coisas caminham assim. Sempre que alguém descobre alguma coisa, surgem pesquisas para provar que essa pessoa está errada. A Ciência cresce assim. Quando um cientista publica alguma coisa, é difícil que outro da mesma área vá tentar provar que ele está certo; ele vai tentar provar o contrário. A Ciência cresce porque enquanto não se prova que é errado, todos consideram que é certo e seguem essa direção.
JC - Muitas pessoas não sabem ao certo o que são os transgênicos. De maneira fácil, como pode se explicar o que são?Bortolozzi - A natureza faz esse processo há muito tempo. Toda vez que você pega, por exemplo, um animal que tem excelente resistência à doença e outro que tem excelente gene para a produção, você cruza os dois para ver se consegue ter um animal com as duas qualidades. O que acontece é que, agora, ficou muito mais fácil porque quando se faz um cruzamento natural você usa os genes desejados e também os outros que não se sabe até que ponto são importantes. Com a técnica de hoje são usados só os genes que se quer. Existem três ou quatro técnicas para fazer isso, mas o resultado é que você pega um gene estrangeiro e coloca em outro indivíduo. Isso é o transgênico, um animal, uma planta ou ser humano que tenha genes de outro indivíduo.
JC - A clonagem é uma seqüência desse processo?Bortolozzi - A partir do momento que você transferiu um gene para outro indivíduo a fim de melhorá-lo, tem que passá-lo para frente. É aí que entra a clonagem. Mas a clonagem também é feita há muito tempo. O tatu faz a clonagem naturalmente. De um embriãozinho ele se divide em oito ou dez e nascem os tatuzinhos idênticos. A clonagem é um método de reprodução assexuada, no qual só é preciso um sexo. O tatu cruza, mas na hora da divisão embrionária, acontece a mesma coisa que na espécie humana quando há um caso de gêmeo monozigótico. A formação de um dependeu do macho e da fêmea, mas aquele que se dividiu no útero não precisou dos dois; só de um. Ou seja, os gêmeos monozigóticos são clones, assim como a poliembrionia do tatu gera clones.
JC - Se é um processo que, às vezes, acontece naturalmente, porque a clonagem gera tanta polêmica quando relacionada ao ser humano? Bortolozzi - Quando as pesquisas deram certo com a Dolly e começaram a falar de possíveis experiências com humanos já falaram na possibilidade de se clonar um Hitler, por exemplo, já levaram a coisa para o lado ruim. Outros falaram em clonar o Pelé, Ronaldinho. Enfim, a discussão ficou enorme. Agora imagine um homem de 40 anos que quer ser clonado. A sua constituição é a ação dos genes mais o meio ambiente, desde a fase intra-uterina. Se um clone for feito, dificilmente ele vai ter a mesma influência do meio ambiente que este homem teve. Ou seja, a possibilidade de uma clone ficar igual à pessoa da qual foi originado é muito pequena, praticamente impossível. Além disso, para fazer um clone humano quantas células vão ser necessárias? Para fazer uma ovelha perfeita (a Dolly), os cientistas gastaram 277 óvulos, sendo que grande parte deles não nasceu; outros nasceram com defeitos grandes; outros com defeitos pequenos... Imagine que tudo dê certo e, ao invés de 277, se use 50 e um deles saia perfeito. E se 40 não vingarem e nove tiverem defeitos? O que fazer com esses nove defeituosos? Jogar fora? Manter? Esse é o grande problema de quem faz reprodução assistida hoje.
JC - O que é a reprodução assistida?Bortolozzi - É tirar o óvulo, tirar o espermatozóide e fazer a fecundação fora, examinar e depois colocar na mulher, seja ela a mãe biológica ou não. Hoje existe no mundo uma quantidade enorme de embriõezinhos que não foram colocados para desenvolver e que estão guardados em nitrogênio líquido sem que ninguém saiba o que fazer com eles. Não existe legislação para isso no mundo.
JC - É aí que entra a questão da origem da pessoa, que envolve também aspectos religiosos. Afinal, quando é que se pode considerar que o ser humano se formou. Assim que ocorre a fecundação?Bortolozzi - No Brasil, passa a ser considerado gente no momento da fecundação do óvulo. Por isso é proibido o aborto. Na hora que o espermatozóide entra no óvulo já está formado o indivíduo. Por isso abortar é matar o indivíduo. Nos Estados Unidos, não. Eles consideram o indivíduo apenas depois da formação do tubo nervoso central e isso demora quatro, cinco, dez semanas. Isso já dá um espaço para trabalhar. Na Alemanha é de um jeito, na Inglaterra é de outro. Cada país tem a sua legislação. A nossa é uma legislação muito difícil porque a maioria dos nossos legisladores não tem idéia do processo biológico que está envolvido. Infelizmente, no Brasil a maioria das coisas funciona assim: se não existe uma lei que é contra, então tudo bem; se a lei não proíbe, ela permite. Agora, por exemplo, eles estão pensando em reduzir a quantidade de óvulos que podem ser usados na reprodução assistida. Antes não havia limite, depois foram quatro, agora são três e querem que sejam dois. A diferença é que hoje se usam três óvulos fecundados que foram bastante examinados antes, que foram escolhidos por serem os melhores, os mais perfeitos, que não vão ter tais e tais doenças. Daí eles são colocados no útero da mulher. A nova lei quer reduzir para apenas dois óvulos fecundados e também que eles não sejam nem examinados para saber se são perfeitos ou não. Devem ser transplantados e só. Isso faz toda a coisa perder o sentido porque a grande vantagem é produzir vários e escolher os melhores. É claro que daí fica o problema: o que fazer com o que sobrou?
JC - O senhor é favor da clonagem?Bortolozzi - Como método reprodutivo não porque ele é ruim já que há o risco do clone não ser perfeito. Também prefiro o método tradicional, pelo qual são necessárias duas pessoas para se fazer outra. Desse jeito está bom. Agora existe a possibilidade de se fazer uma clonagem terapêutica e eu sou a favor disso.
JC - O que é clonagem terapêutica? Bortolozzi - É produzir alguns órgãos, alguns tecidos, que possam ser colocados na pessoa depois. Por exemplo: A gente pega um indivíduo, tira uma célula dele e forma com ela uma célula-tronco, que é aquela primeira célula que tem toda a informação para fazer o novo indivíduo. Se ele precisar de um transplante de coração, é possível desenvolver só o coração para fazer o transplante sem riscos, nem rejeição. Isso a gente ainda não faz porque é preciso muito estudo, mas o objetivo é atingir isso um dia.
JC - As primeiras inseminações artificiais em humanos também geraram polêmica e hoje são muito comuns. O senhor não acha que o mesmo pode acontecer com a clonagem?Bortolozzi - Um dia a clonagem vai ser bastante comum também. Os Estados Unidos já deram o primeiro passo nesse sentido. O presidente Bush recentemente liberou, para fim de pesquisa, o uso daqueles embriões que sobraram de inseminações artificiais. Eles proíbem que se faça um embrião só para o estudo, mas permitem que se use os que sobraram. Nós não temos nenhuma legislação. Agora veja como a coisa começa a complicar: há uma família nos Estados Unidos que tem uma filha com leucemia. Como não existem doadores possíveis, eles decidiram produzir embriõezinhos e estão testando qual embrião vai ser compatível com a filha para que ele seja colocado no útero da mãe e, mais tarde, possa doar um pedaço de medula para a irmã. Isso é ético? Quantos embriões vão morrer para que aquele nasça? Então a questão é complicada eticamente porque as possibilidades hoje são muito grandes. Hoje, um homem estéril, que produza apenas um espermatozóide, é capaz de ser pai. A tecnologia melhorou muito, mas existem essas questões que não sabemos como resolver.
JC - O senhor é religioso? Bortolozzi - Sou.
JC - Como religioso, o senhor não vê nenhum problema nesse tipo de trabalho?Bortolozzi - É preciso saber fazer essa separação senão não se consegue trabalhar. Imagine que eu posso pegar um embriãozinho de um boi e cortá-lo em um, dois ou quatro. Uso um para desenvolver em uma vaca e guardo os três no nitrogênio líqüido. Nasce. Depois de anos, pego o que sobrou, divido de novo, uso mais um e guardo o resto de novo. Será que posso considerar esse embrião como um ser? Se eu consigo cortar, congelar ou descongelar? Para mim não é. É apenas um monte de células que um dia podem gerar uma vida. Agora se a lei brasileira diz que um embrião humano já é uma pessoa... Acho que há um motivo para isso, talvez seja por causa da religião. Existem aquelas pessoas que colocam a alma na história, ficam questionando quando é que ela aparece, etc. Isso não mexe com a minha moral cristã. Agora quando deixa de ser um zigoto para se tornar um feto aí já é complicado. O feto está com o coração batendo, então é uma vida. Isso é complicado. Mas então porque a lei brasileira permite o aborto em caso de estupro ou de risco para a mãe? É tudo uma questão de conceito.
JC - Como está a situação dos transgênicos no mundo hoje?Bortolozzi - Hoje a situação está assim: o produto transgênico cresce em todo mundo. O lucro que ele dá é muito maior e por isso existem divergências no mercado. Há uma briga entre os fazendeiros brasileiros e os fazendeiros da Argentina e do Uruguai porque eles usam a soja transgênica e isso deixa o produto deles mais barato. Atualmente, dizem que os nossos produtos são os melhores do mundo porque são naturais, não contêm conservantes, etc. Só que vai haver um momento em que os nossos produtos vão ficar inviáveis economicamente porque os outros vão ser muito mais baratos. O transgênico é a solução, é inevitável. Mais cedo ou mais tarde ele vai acabar dominando, a não ser que descubram alguma coisa que ele é ruim. Até agora não há nada que prove isso, só existe especulação, possibilidades.
JC - Com todas essas controvérsias, o Brasil está atrasado em relação aos outros países nas questões que envolvem a genética?Bortolozzi - Não. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), por exemplo, está muito avançada em pesquisas com animais e vegetais. Eles fazem clonagens de bovinos, pesquisam mamão, feijão, etc. As pesquisas com vegetais são mais rápidas do que as com animais porque a quantidade de sementes que eles possuem é bem maior. O que falta no Brasil, de um modo geral, é uma maior participação das empresas nas pesquisas porque quem pesquisa no País é a Embrapa e as universidades.