Durante os dias em que centenas de soldados treinaram na zona rural de Cafelândia, nenhum incidente foi registrado.
Cafelândia - Se os disparos dos tanques do Exército brasileiro forem tão precisos em um confronto real como o foram no treinamento em Cafelândia, há motivos para comemorar. Alvos de aproximadamente dois quilômetros de distância foram atingidos de uma forma que beirava a perfeição, para a sorte dos pobres animais que andavam de um lado a outro do pasto, visivelmente assustados com as explosões.
Além do ataque com blindados, o treinamento explorou também a movimentação de carros de combate, simulando a tomada de terrenos. Nós dividimos em fase todos os tipos de operação, para facilitar a organização e o controle daquilo que nós estamos desenvolvendo, explicou o tenente-coronel.
Foram três as fases do treinamento em Cafelândia. A primeira delas envolveu a concentração dos meios, que consiste em um planejamento muito detalhado para deslocar os veículos e a tropa de uma localidade a outra utilizando vias ferroviárias, rodoviárias e aéreas, segundo definiu o tenente-coronel. Essa primeira fase foi cumprida assim que a tropa desembarcou em Cafelândia.
O exercício no terreno foi a segunda fase. Aí foi incluída toda a movimentação de tanques, homens, tiros e a hipotética conquista de posições, com o avanço da tropa.
Terminado o suposto combate, inicia-se a terceira e última fase do treinamento: a desmobilização. Todo o trabalho que nós fizemos inicialmente (preparação de equipamentos e acampamento) é desfeito, visando a volta para casa, esclareceu.
Todos os nossos treinamentos têm por objetivo deixar nossos homens (soldados e oficiais) em condições de serem empregados em um combate real, afirmou o tenente-coronel para, em seguida, fazer uma declaração no mínimo discutível.
Nós acreditamos que, ao estar bem treinados para o combate, nós evitamos que ele aconteça. Ao treinar, nós estamos nos preparando para manter a paz. Essa é a filosofia que nós procuramos seguir sempre. Se alguém tivesse a idéia de nos prejudicar, pensaria duas vezes, pois existe alguém em condições de defender o País.
Normalmente, treinamentos como o de Cafelândia ocorrem sempre entre novembro e dezembro. É nessa época, de acordo com o tenente-coronel, que os soldados encontram-se devidamente preparados para trabalhar coletivamente.
Chilenos
Oficiais da Escola de Comando do Chile também participaram dos treinamentos, em Cafelândia, ao lado dos brasileiros. Um dos objetivos dessa integração seria uma pretensa troca de informações. Segundo o tenente-coronel esse é um procedimento comum entre as Forças Armadas de nações amigas, não só na América Latina, mas em todos os continentes.
Com a tropa de Campinas, entretanto, essa é a primeira vez que esse tipo de integração acontece.
Os militares chilenos vieram ao Brasil sob o comando do general Alfredo Ewing Pinochet. Apesar do sobrenome idêntico, ele jura não ter parentesco com o ex-presidente de seu país, Augusto Pinochet, também general e acusado de ter mandado matar milhares de pessoas no Chile.
Além do oficial chileno, estiveram em Cafelândia, acompanhando os treinamentos, o general de brigada Mário de Oliveira Seixas, comandante do 11ª BIB; o comandante da Eceme, Paulo César de Castro; o comandante da 2ª Divisão do Exército Marco Antonio Tilscher Saraiva e o general Francisco Roberto de Albuquerque, comandante da região militar do Sudeste.
Armamentos
Entre os armamentos utilizados nas simulações de guerra estão os individuais e coletivos. Mas as pistolas e fuzis ficaram completamente ofuscadas pelos carros de combate, que tornaram-se a vedete dos treinamentos.
O Leopard foi o que mais chamou a atenção. Não só pelo tamanho, mas principalmente pelo poder de fogo. De fabricação alemã, é o tanque mais sofisticado que o Exército brasileiro possui atualmente.
Em segundo plano ficou o Obuseiro Autopropulsado M108, de fabricação americana. Ele tem um tiro mais longo, em comparação com o Leopard. Além disso, o tiro pode ser conduzido de forma curva, o que facilita transpor morros, como os da fazenda Irapuã. O Leopard é um carro de combate de tiro direto, porém com um poder de destruição bem maior.
Ao todo, a tropa chegou a Cafelândia em 100 viaturas sob rodas e outras 25 sob lagarta (carros de combate), segundo estimativa do tenente-coronel. Os tanques vieram de Pirassununga.
O treinamento não contou apenas com veículos terrestres; helicópteros também entraram em cena. Enquanto eles pousavam, homens iam desembarcando e tomando posição no terreno.
A maioria dos veículos que transportaram os soldados até o local de treinamento eram novos. Mas existia uma explicação lógica. Nós procuramos trazer para cá as melhores viaturas. Foi um deslocamento de aproximadamente 380 quilômetros. Então, não podíamos correr o risco de alguma pane no caminho, revelou o tenente-coronel da 11ª BIB.
Todos ficaram acampados em locais próximos ao campo de treinamento. Vieram para Cafelândia cerca de 600 homens, entre oficiais e soldados. Entre eles estavam quatro mulheres que exerciam funções relacionadas à área médica: uma dentista, uma médica e duas enfermeiras.
Além de auxiliar a tropa, elas também prestaram serviço à comunidade local, atendendo a pacientes carentes nos Postos de Saúde da cidade.