A insistência em manter a paridade entre o peso e o dólar está arruinando a economia argentina. Após dez anos de regime de currency board, introduzido como uma grande novidade pelo ministro Cavallo, o país tem uma dívida externa que não pode honrar, tem uma receita fiscal insuficiente para atender às despesas públicas e praticamente perdeu o acesso ao crédito. Há 40 meses a economia entrou em recessão e hoje os argentinos são obrigados a conviver com índices de desemprego quase inacreditáveis: de sua população economicamente ativa, 17% estão em desemprego aberto e mais 15% sobrevivem no subemprego. Significa que um em cada três argentinos não encontra colocação no mercado formal de trabalho.
Fora da Argentina existe uma grande perplexidade diante do empenho do governo argentino (ou pelo menos de parte dele) em dar sustentação a um regime da paridade que só existe na aparência. Já há algum tempo o governo federal e os governos das províncias vêm emitindo moedas alternativas, numa evidente violação do sistema de currency board. O governo de Buenos Aires emite uma espécie de moeda a que chamam de patacones, com a qual paga os salários dos funcionários e que serve para movimentar o comércio. O próprio governo federal está emitindo uma outra moeda, a LECOP, que pode ser usada no pagamento de impostos. São expedientes que permitem a continuidade dos negócios, mas cuja conseqüência é a destruição do sistema que o ministro Cavallo garante que vai sustentar até o dia do Apocalipse...
Para qualquer observador externo, está claro que o problema argentino só pode ser solucionado com a mudança do regime cambial. Tem toda a razão o economista Paul Krugman quando disse em recente artigo que a resposta natural (para o caso argentino) é remover a camisa-de-força: deixar o peso flutuar e fazer o que for preciso para salvar a economia. Foi o que fez o Reino Unido, em 1931 e novamente em 1992, tirando proveito de ambas as desvalorizações; mesmo o Brasil, obrigado a abandonar sua âncora cambial, em 1999, concluiu que a flutuação de sua moeda melhorou enormemente sua posição econômica.
Quase três anos depois que o Brasil se libertou da armadilha cambial, a Argentina encontra a sua hora da verdade. O suporte externo lhe foi retirado. O FMI, que antes exaltava a excelência dos regimes de câmbio fixo (inclusive o do Brasil) virou as costas. O tratamento que o mercado internacional está dando aos argentinos é muito duro. O ministro Cavallo voltou de mãos vazias de sua viagem ao Canadá, onde foi procurar ajuda do Tesouro dos Estados Unidos e do FMI. A atitude do Fundo, negando a antecipação de apenas um mês dos recursos prometidos para dezembro, é um fato inédito, mas reflete a descrença na capacidade da administração argentina de corrigir a política. Com essas respostas, só restou ao presidente De la Rua comunicar melancolicamente ao seu povo que no hay plata e ao ministro Cavallo reconhecer que não existe mais crédito para seu país, no exterior.
(*) Antonio Delfim Netto é deputado federal pelo PPB-SP, professor emérito da USPE-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br