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Sorrir para a vida...

(*) N. Serra
| Tempo de leitura: 3 min

Cômputos estaduais, armazenados nos criteriosos arquivos do Ministério da Justiça, acusam que cerca de 25 mil suicídios - homens e mulheres - aconteceram no País, no ano passado. Como teria ocorrido tão grande número de desistências da vida? Muitos são, na linguagem clara dos registros, os estilos e as maneiras adotados, figurando entre eles tiros com armas de fogo, perfurações a facas ponteagudas e até arrojos sob rodas de locomotivas e de veículos rodoviários. E quais seriam o motivos - razões, não! - que poderiam ter sido invocados pelos desistentes? Bem, eles são muitos, os mais díspares sem dúvida, porque quando as pessoas se dispõem a despencar, trocando as belezas da vida pela penumbra das urnas mortuária, pensam e se decidem por justificativas para as quais não encontram contraditas capazes de mudar-lhes o rumos, o que não ocorre com os demais que almejam continuar enfrentando, a qualquer preço, os desafios da vida e para eles prosseguir sorrindo... Como esses há uma imensa maioria. Ainda bem! Muitos até desprendidos. Outros até homéricos. Outros mais até fora de série, passando então para a história, como aconteceu ao nosso colega de profissão, jornalista norte-americano James Brady, autêntico campeão de amor à existência. Lembra-se dele e do seu caso?

Conta-se que, naquele dia, Brady chegara à Casa Branca, como de costume, em seu automóvel preto. Bem-humorado, como sempre, trocou frases alegres com seus auxiliares no Departamento de Imprensa, comentou espirituosamente algumas notícias imaginosas publicadas pelos jornais da manhã e foi, incontinenti, ao gabinete de Ronald Reagan, com quem iria sair pouco depois para um contato externo. A vida sorria ao experimentado e famoso articulista, dotado de um manancial de saúde e disposição física e, de contrapeso, um status invejável como o de secretário do presidente da maior potência do mundo. Tudo caminhava muito bem. Por isso, jamais chegara a pensar que viesse a ser atingido por uma tragédia que viria a mudar diametralmente o seu estilo de vida e funcionalidade. No entanto, a odisséia aconteceu: - uma das balas endereçadas a Reagan, no lembrado atentado, o atingiu certeiramente na cabeça. Possibilidade de sobreviver quase nenhuma lhe restava, pois o projétil lesionara setores vitais de seu cérebro. Mas o homem bom, saudável, que humoristicamente andava saudando os seus dias, conseguiu sobreviver ao desafio da morte. Teimosamente, negou-se a morrer... E, na primeira segunda-feira, voltou à Casa Branca. Não o fez, entretanto, da forma como costumeiramente o fazia... Desta feita, ao invés de subir a escadaria a pé, subiu-a em uma cadeira de rodas, porque o tiro traiçoeiro lhe roubara as principais funções motoras. Ele sabia que talvez jamais pudesse voltar a andar pelas próprias pernas, mas a dolorosa perspectiva não conseguiu subtrair-lhe a verve característica e a sua indomável vontade de viver. Por isso, quando voltou ao seu gabinete de trabalho e fez, com o polegar para cima, como no gesto audaz dos que aceitam as provações com valor e desprendimento, a emoção tomou conta dos que o cercavam e ninguém conseguiu evitar as lágrimas. Parecia ter surgido um novo Roosevelt, estóico e valente, mesmo castigado por sua paralisia desgraçante.

Aí está um episódio frisante, extraordinário, merecedor de ser seguido, por que dono de um testemunho de coragem que se ajusta como luva a milhões que, abjurando a vida não obstante suas vivificantes contemplações, descambam pusilanimemente para as veredas da morte, seja através da violência urbana, seja através dos desatinos bélicos, seja ainda através dos caminhos misteriosos e sutis dos tóxicos que desequilibram e matam! É a nossa opinião.

(*) O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.

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