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A crise do homem

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 7 min

Os homens carregam, desde os tempos mais remotos, uma série de estereótipos sobre o seu comportamento. Eles são vistos como seres seguros, fortes, decididos, corajosos, auto-suficientes, potentes, racionais, frios, agressivos, provedores, protetores. São os que não choram, os que não têm sentimentos. Até que ponto essa série de adjetivos e definições refletem a figura do homem nesse inicío de século? Embora ainda seja comum associar a imagem masculina à idéia de poder e autoridade, o aumento da presença dos homens nos divãs dos psicanalistas e o grande número de publicações e estudos focados no universo masculino - principalmente na sua deterioração psíquica - sugerem que a questão não é tão simples como pode parecer em princípio. A raiz do problema pode ser o fato de que os homens, há alguns anos, têm encontrado uma grande dificuldade em se encaixar nesse perfil heróico que lhes impuseram e isso tem sido uma fonte de dúvidas e angústias. Este domingo e na próxima semana, o Caderno Ser vai abordar o universo masculino e tentar esclarecer quem é, como age e o que sente o homem moderno em relação a si mesmo e ao mundo que o cerca.

De acordo com a psicóloga Luciana Biem Neuber, o homem moderno está vivendo uma crise de identidade devido às mudanças ocorridas nos últimos anos do papel da mulher na sociedade. Vivemos uma fase de transição, em que a mulher adquiriu voz ativa, espaço no mercado de trabalho, autonomia sexual, direitos políticos, enfim, o seu papel enquanto mulher foi e está sendo redefinido, construído novamente. Automaticamente, o papel do homem também sofre modificações. Se antes à ele era atribuída a responsabilidade pelo sustento da casa, hoje essa função é dividida entre os dois sexos; se antes era dado o direito apenas ao homem de sentir prazer sexual, hoje as mulheres também o tem; se antes exigia-se do homem uma conduta racional, hoje cobram seu lado sentimental, explica. Para a psicoterapeuta Marilene Krom, enquanto a mulher tornou-se mais competitiva e autônoma, a partir dos anos 60, no século passado, o homem resgatou sua sensibilidade e vulnerabilidade, num processo que gerou sentimentos contraditórios. Novos valores precisaram ser incorporados ou reorganizados e aí surgiram conflitos. O homem e a mulher estão, neste momento, histórico num processo lento de ajuste de suas expectativas e busca de modelos alternativos de convivência, estas dificuldades se refletem no relacionamento do par que atinge diretamente os homens e mulheres. Surgem conflitos que nos relatam freqüentemente os casais de luta pelo poder na relação, dificuldade de comunicação entre outros. O homem, ao assumir sua vulnerabilidade e sensibilidade, pode buscar ajuda com mais facilidade para a resolução de suas dificuldades e problemas, conclui.

Quem é o homem?

Isso significa que, na realidade, os homens não são nada do que se acreditou até hoje? Claro que não. Existem, obviamente, características naturais que são mais comuns em homens do que em mulheres, como aponta o americano John Gray em Homens São de Marte, Mulheres São de Vênus, editado no Brasil pela Rocco. Segundo a obra do americano, que pretende ser um guia para melhorar a comunicação entre os sexos, os homens tendem a ser mais concretos, oferecem soluções e não se importam tanto com sentimentos, enquanto as mulheres são mais abstratas e oferecem conselhos e orientações, por exemplo. Para o autor, eles ainda têm necessidade de se afastar quando estão com problemas e têm a necessidade de se mostrarem úteis. As mulheres gostam de conversar sobre o que as incomoda e precisam se sentir protegidas. Enfim, uma série de definições atribuídas ao universo masculino possuem algum fundamento.

Mas as coisas não param por aí, como afirma outro americano, o psicólogo Alon Gratch, autor de Se os homens falassem... - Como compreender as atitudes masculinas, publicado pela Editora Campus: Os homens são difíceis. Na superfície, eles muitas vezes parecem distantes e arredios. Ou vulgares e repulsivos. E quando tentamos conhecê-lo, muitas vezes ainda é pior - eles ficam na defensiva e tornam-se inacessíveis. Aliás, à diferença das mulheres que são geralmente abertas quanto a seus sentimentos, a maioria dos homens considera dificílimo abrir-se com os outros. Mas quando o fazem, eles sempre se revelam um admirável, impetuoso e extraordinariamente vulnerável eu interior, alerta, no início do seu livro. Ou seja, para Gratch, que atende mais homens do que mulheres em seu consultório em Nova York, os homens aparentam por fora o que não são por dentro. Dessa forma, toda a agressividade, egoísmo e aparente falta de sentimentos que eles demonstram, não seriam mais do que formas de se defender, de encobrir seus medos e carências. O psicólogo define em seu livro, quais são os sete atributos masculinos básicos e tenta explicar quem é esse ser misterioso chamado homem e porque ele tem tanta dificuldade em admitir suas fraquezas e sofre por isso.

Os sete elementos

Os dois primeiros atributos masculinos examinados por Gratch explicam por que é tão difícil para os homens falar de seus sentimentos. Esses atributos são as defesas psicológicas masculinas para protegê-los da dor emocional associada aos outros cinco elementos. O primeiro elemento masculino, de acordo com o psicólogo americano é a vergonha, a qual ele associa a frase: meninos não choram, como referência.

Para Gratch, esse é o motivo pelo qual os homens não se entregam a diálogos emotivos. A vergonha é dolorosa e pode ser destrutiva. Nos relacionamentos, por exemplo, os homens muitas vezes projetam a vergonha de seu próprio desempenho sobre sua parceria. Eles fazem isso criticando sua aparência, exigindo que ela vista determinadas roupas ou fazendo questão que ela penteie os cabelos dessa ou daquela forma quando vão sair. Nesse tipo de interação, o homem está tentando se livrar do sentimento de vergonha relativo a sua própria sensação de inferioridade ao fazer questão que sua parceira brilhe de tal forma que, refletindo-se nela, ele possa se sentir melhor a respeito de si mesmo, escreve o psicólogo. Nessa situação, a mulher sente-se controlada e avaliada e acaba sentindo-se envergolhada de suas próprias imperfeições físicas. O resultado é que ela o acusa de ser crítico e de controlá-la, e ele a acusa de ser sensível e defensiva.

Esse tipo de briga pode ser evitada se, no início, em vez de se concentrar no desempenho de sua parceira, o homem tenha o autoconhecimento e a facilidade de dizer algo que equivalha a estou me sentindo inferiorizado no trabalho hoje. Sem esse autoconhecimento, a briga pode ser evitada se a mulher, em seu próprio interesse, ajudar o homem.

Transpor a barreira da vergonha pode ajudar todos os homens a se abrir e é aí que eles esbarram no que Gratch considera o segundo atributo masculino, a distância emocional, que surge com a propensão masculina a viver no racional e a se distanciar de seus sentimentos. Um risco evidente em seus relacionamentos íntimos e também na sua vida profissional, já que quando não é capaz de sentir qualquer sombra de medo ou ansiedade ao tomar suas decisões, a pessoa também perde a noção dos riscos que corre.

A solução para esse atributo, é, segundo Gratch, procurar pelos sentimentos onde eles estão, e não onde eles não estão; ou seja, nutrir e cultivar quaisquer sentimentos, mesmo alguns desagradáveis, tais como raiva e depressão. Outra parte da solução é aprender a aceitar, e até mesmo a admirar, a aparência de força que acompanha a calma masculina e participar da experiência emocional masculina em seu próprio terreno. (Leia mais: "Desconstruindo o homem)

Homens procuram psicoterapia

O número de homens em busca da psicoterapia tem aumentado sensivelmente. O que antes parecia uma preocupação feminina hoje mostra-se presente também nos homens, afirma Marilene Krom. Segundo a psicoterapeuta uma das razões para esse aumento de procura é o status alcançado pela psicologia atualmente. Até há alguns anos existia o preconceito social, que as pessoas sofriam ao procurar este tipo de ajuda, vista como uma coisa para loucos. Hoje existe uma nova concepção, diz. Luciana Biem confirma: A psicologia conquistou o seu reconhecimento científico. Para a psicóloga, o homem moderno está vivendo um processo de mudanças e a medida em que o seu papel social está se redefinindo, os sentimentos que o afligem o está levando cada vez mais a procurar auxílio profissional.

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