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O tabu dos juros altos

David Torres
| Tempo de leitura: 2 min

No Brasil, a chamada elite dominante costuma criar tabus na área econômica mascarar garantia de privilégio a grupos privados e transferência de renda dos mais pobres para os mais ricos. Foi assim durante o prolongado período de inflação galopante, com a criação do confortável mecanismo da correção monetária oferecido aos donos do capital. Foi a época de outro da especulação financeira. Quem tinha capital ou renda alta não precisava se preocupar, nem correr riscos investindo no setor produtivo. Bastava colocar o dinheiro nas contas remuneradas diariamente e os lucros vinham fáceis. Já o assalariado de menor renda, aquele que não tinha conta em banco, vivia a tragédia de ver seu dinheiro evaporar-se do dia para a noite sem nada poder fazer para se proteger.

Foram quase 40 anos de inflação, um tipo de imposto invisível, que facilitava a transferência e concentração de renda. Os governantes e seus economistas, declaravam-se impotentes para combater o mal inflacionário e ainda justificavam sua continuada reprodução sob alegação de que era um fenômeno gerado pelas leis do mercado, portanto, uma fatalidade. O País teve que passar pelo trauma da aventura que foi a eleição de Collor para que as atuais elites entendessem o recado da sociedade, farta de enganação e mistificação, que poderia adotar outros tipos de ações para por fim aos desmandos da política de preços, salários e correção monetária que as autoridades praticavam, patrocinando a concentração da renda.

O plano de estabilização da moeda, o real, só foi adotado depois que um movimento exclusivamente civil demonstrou ter forças para depor um presidente. Foi a partir de então que as autoridades, assustadas, descobriram um meio de acabar com a inflação, estabilizar a moeda e os preços. Mas e os ganhos fáceis com os quais os grupos de especuladores estavam acostumados? Esses grupos sempre tiveram muito poder e sabem como fazer chantagem para não perder privilégios. E a chantagem, hoje, tem o nome de vulnerabilidade do País. Partindo dela esses grupos impõem taxas de juros absurdas para adquirirem papéis do governo ou rolarem a dívida pública. Essa é a nova modalidade de transferência e concentração de renda. As autoridades, como sempre, aceitam e continuam patrocinando o achaque da população mais pobre com uma política de juros tão altos que superam os que são praticados em qualquer outro país do mundo. Juros que são duas vezes maiores do que o governo de um país quebrado, no caso a Argentina, paga aos investidores para que fiquem com os seus papéis. Antes o tabu era a inflação, agora são os juros altos. É preciso romper esse círculo vicioso.

David TorresPresidente

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