É fastidioso afirmar - como teimosamente o faz o Governo - que a sociedade precisa convencer-se mais de que é necessário um amplo entendimento para que o Brasil possa superar a atual fase de dubiedade democrática e atinja o tripé do desenvolvimento e da estabilidade econômica, bem como do aprimoramento da legislação pertinente às condições de trabalho. De há muito a comunidade se persuadiu disso, pois entende que a ampla esteira de problemas nacionais não poderá ser atendida sem a sua colaboração direta. Ela, a sociedade, está mais que ciente e consciente de tão premente imposição. Mas, está convencida, igualmente, de que somente o seu sacrifício não será suficiente para que o País seja instalado novamente nos trilhos sobre os quais descarrilou neste seu penoso desastre econômico-social, pois nunca como agora o povo chegou a experimentar o flagelo do encarecimento de tantos tipos de alimentos, uma quantidade enorme de remédios e muitos outros bens de consumo. Também o Governo precisa entrar com seu quinhão de sacrifício para o soerguimento da vida nacional, morigerando ele, também, no seu consumo e nos seus gastos, tal como impõe à comunidade, da qual exige constantes compressões de cintura acompanhadas de abruptos arrochos tributários. A nação sempre foi uma passiva colaboradora dos apelos governamentais, mas chegou à conclusão de que carregando sozinha o pesado fardo não chegará à concretização de seu ideal. Há que se lembrar de que Japão, Inglaterra, Alemanha, França e todos os demais países europeus impiedosamente vergastados, econômica e socialmente, pelos rigores da II Guerra Mundial, não se reconstruíram unicamente com a dor e o suor de suas sacrificadas populações, mas também com uma imprescindível austeridade financeira de seus governantes, que durante anos fecharam as mãos ao supérfluo e às viagens recreativas, assim como à gulodice de suas bocas, aos almoços e jantares de suas caríssimas recepções, numa economia de guerra que hoje tão bem se adaptaria ao nosso Governo, que, no entanto, teima em lançar arrotos de faisão enquanto nem franguinho desnutrido o povo consegue comprar.
Deixem os porta-vozes governamentais de repetir ao pé do rádio ou da televisão o clássico faça o que eu mando e não faça o que eu faço, disponha-se sinceramente a se integrar ao sacrifício da coletividade e esta mesma comunidade abrirá o coração para um grande pacto social, pois ninguém como ela aspira tanto a uma terra sem miséria, sem doenças, sem violência urbana, sem analfabetismo, sem inflação e sem outras convulsões sociais, entre elas esse pecaminoso desemprego. É a nossa opinião.
(*) O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.