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"Se eu sei, todo mundo sabe"

(*) Rubens Marchioni
| Tempo de leitura: 3 min

Com muita facilidade pensamos e sentimos desta maneira. Nenhuma acusação quanto a isso. Nenhuma culpa. Nós somos naturalmente assim. Todo mundo é. Fazemos parte de uma só natureza, a humana. E como tal, vivemos sujeitos a certas armadilhas. Como esta é curioso observar como acreditamos ter determinados conhecimentos. E o fazemos pela crença de que o contato, durante anos, com determinado objeto, nos torna capazes de absorvê-lo por inteiro do ponto de vista do seu conceito. Que saboreamos pêras, maçãs etc. durante anos, isto é um fato. Mas nos surpreendemos quando alguém, no papel de marciano, nos pede uma descrição exata destas frutas. Porque então nos descobrimos incapazes de encontrar as palavras para desenhá-las quanto ao sabor, à textura, ao aroma etc. da maneira mais precisa. Encontramos, sim, palavras aproximadas. Podemos dizer que a maçã é redonda. Mas isto não a define. Pelo simples fato de que uma bola de futebol é redonda sem que isso a torne uma maçã.

Para mostrar como isto é freqüente, costumo pedir aos meus treinandos que definam uma cadeira. Inicialmente, o desafio parece dos mais simples. Claro, há tantos anos convivemos com os mais diferentes modelos deste móvel. E aí vem a surpresa: as definições apresentadas não a retratam tal como ela é na sua essência. As palavras usadas, geralmente, dão margem para pensarmos que um sofá, um cavalo ou uma bicicleta, tudo isso equivale a uma cadeira, já que se presta para sentarmos.

O fenômeno se eu sei, todo mundo sabe acontece todos os dias posso inclusive estar reproduzindo-o com o meu leitor, agora que escrevo este artigo. Acontece na propaganda, quando o redator, munido de todas as informações sobre um produto ou serviço inédito, escreve como se falasse consigo mesmo e ignora o desconhecimento do distinto público sobre o que pretende vender.

Afinal, o que é uma cadeira, então? Perguntemos a duas fontes respeitáveis. Para a Grande Enciclopédia Larousse Cultural, trata-se de Assento ou banco para uma só pessoa, com encosto e algumas vezes com braços. Sorry, não satisfaz. Porque uma poltrona individual ou uma carteira escolar enquadram-se nesta definição e nem por isso podem ser chamados de cadeira. A explicação dada pelo Dicionário Houaiss da língua portuguesa é mais completa: Peça de mobília que é um assento apoiado sobre pés (partes para apoiar), quase sempre em número de quatro, com um encosto e, muitas vezes, braços (partes fixas para apoiar ou descansar os antebraços), com lugar para acomodar, com algum conforto, uma pessoa. Assim, voltamos desta viagem com uma certeza: a convivência, ainda que prolongada, com um objeto, não significa domínio natural sobre sua essência, nem a capacidade automática de transformá-lo em palavras. O que reforça ainda mais a tese segundo a qual nosso cuidado com o uso delas merece a maior atenção.

Em nossa comunicação diária, isso pode gerar conflitos e comprometer relacionamentos. Na comunicação com o consumidor, o risco de superestimar nossa capacidade de nos fazer compreender é o primeiro passo para a perda de mercado, coisas que a gente faz sem se dar conta. Tudo com base no princípio do se eu sei, todo mundo sabe. Até o dia em que todo mundo fica sabendo que não deseja manter a fidelidade à nossa marca ou produto. O que fazer, se neste caso geralmente somos os últimos a saber? Muito pouco ou quase nada.

(*) Rubens Marchioni é especialista em Propaganda pela ESPM, consultor editorial e profissional de treinamento. FoneFax: 0..11 4368 4060 - rumarchioni@uol.com.br

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