Geral

Liberdade sem libertinagem

(*) N. Serra
| Tempo de leitura: 2 min

Por obra de dispositivos da Constituição, a censura às diversões e espetáculos públicos foi solenemente sepultada no País e as encenações na televisão, cinema, teatro e rádio passaram a ser apresentadas mediante classificação de faixas etárias.

Sabe-se que até muitos daqueles que, não trazendo do berço algum recato hereditário, torciam freneticamente pela queda da bastilha da censura por considerá-la instrumento contenedor de avanços culturais, agora, consumado o que defendiam, já tremem nas bases no fundado receio de que, se infiltrada abertamente, como está sendo, nos ambientes de seus lares, a liberdade de expressão cênica, legalizada pela nova Carta Magna, esteja concorrendo para que mais conspurcados que até então sejam os valores morais de crianças e adolescentes, principalmente. E a ameaça é sem dúvida assustadora, sabido que para conseguir vender melhor seu peixe, os pescadores de águas turvas não estão vacilando em rechear as suas produções de telenovelas e programas humorísticos (?) com o tempero da concupiscência e do erotismo, como o diabo gosta e a turma do quanto pior melhor aplaude com sádico entusiasmo...

Se nos primeiros tempos os espetáculos públicos, principalmente os apresentados por meios mecânicos e eletrônicos, descambavam vertiginosamente para sentidos escandalizantes, tanto por palavras como por gestos, pois que a tônica das novelas e filmes já eram cenas de cama e sexo, poder-se-ia esperar que a partir do término oficial das restrições os avanços do setor não fossem ainda mais agressivos e afrontosos que os até então praticados? Por isso, queira Deus que os produtores reprimam urgentemente os seus impulsos, porque se não puserem freios à fertilidade maldosa de sua imaginação poderão continuar atingindo às raias do inconcebível, levando cenas de sexo explícito aos vídeos, em horários nobres, ao indefeso recesso das casas, para a criançada ver, precocemente aprender e partir para inconfessáveis experiências sexuais entre irmãos...

Estamos atravessando os umbrais de tempos terrivelmente perigosos, com a moral e o pudor encostados nos paredões de fuzilamento, e se impõe sejam todos chamados à consciência de suas responsabilidades quanto à obrigação de preservar no possível a dignidade humana, antes que a vaca vá pro brejo. Daí, que essa detestável liberdade de expressão cênica, que já raiou no horizonte, não seja confundida com liberdade ou libertinagem. É a nossa opinião.

(*) O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.

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