Que motivo teria alguém em possuir um carro com folga no volante, freios não confiáveis, grande consumo de combustível e, às vezes, até com muita ferrugem ? Essas questões sempre vêm à mente do bauruense Angelo Pereto Sobrinho quando o assunto em questão são os automóveis antigos, pelos quais revela nutrir verdadeiro fascínio.
Ele considera que ser dono de um veículo de décadas passadas é fazer uma verdadeira viagem no tempo. Ter um carro antigo é a oportunidade de resgatar o passado e reviver de alguma forma o glamour da primeira metade do século XX, onde tudo era quase que artesanal e com grande dose de nostalgia. Serve também para tentar passar aos nossos filhos que o que realmente importa é sonhar, destaca Angelo.
Para ele, é impossível falar do passado, momento em que chega até a se emocionar, sem citar um dos maiores xodós de sua vida: um Ford Custom 1951. Angelo afirma sentir uma sensação indescritível ao guiá-lo. Fico imaginando o que o primeiro proprietário sentiu ao sair com ele da concessionária e sua esposa extremamente feliz ao vê-lo chegar em casa e os filhos dizendo: Este Ford é do meu pai !, conta, para depois acrescentar: Através do pára-brisas, este automóvel viu o mundo sofrer uma metamorfose. Várias crises políticas, ditadura, alegrias, tristezas e especialmente sonhos vividos pelos seus donos.
O bauruense enfatiza, ainda, que muitos desses automóveis nasceram no auge do cinema hollywoodiano e chegaram a ter seus projetos influenciados pelo mesmo. Alguns revelam em seu interior uma forte ligação com as mulheres. Quando da confecção de seus estofamentos, simplesmente eram inspirados nas cores, tecidos e botões de atrizes da época, diz Angelo.
Ele admite ser capaz de reconhecer um carro antigo até pelo cheiro. Se me colocarem vendas nos olhos, consigo diferenciar os modelos pelo cheiro, pois eles praticamente não perdem o odor característico de automóveis novos, frisa.
Na contramão de sua paixão e por ironia do destino, a profissão exercida pelo bauruense, a de técnico em informática, exige que domine uma das atividades cuja principal característica é a modernidade. Atuar nesse ramo foi uma conseqüência da vida. Não sou um fanático pela informática, pois tudo que se faz imbuído desse sentimento não é benéfico, frisa ele.
O Ford
O Custom 1951 é um autêntico V8 quatro portas. Praticamente impecável, possui todas as características originais, principalmente na parte mecânica. No requintado painel estão à disposição do condutor o velocímetro, marcador de temperatura do motor, relógio e acendedor de cigarro. Tudo funcionando. Externamente, chamam a atenção a pintura azul escura e os reluzentes pára-lamas de ferro cromado.
O veículo adquiriu uma importância tão grande para o bauruense que ele faz questão de limpá-lo diariamente para efetuar uma verdadeira higiene mental. Às vezes, chego bravo do serviço e é só começar a dar uma polida nele que o humor melhora, afirma.
O técnico em informática começou a cultivar o gosto por carros antigos desde a infância. Com isso, ele contabiliza entre os veículos que já foi dono um Citroën, um Lincoln e um Mercury 1946, este por 18 anos. Depois foi a vez do Custom, um sonho de consumo que alimentava desde pequeno, época em que seu pai possuía o mesmo modelo.
O carro permanece em plena atividade e é utilizado para executar tarefas do cotidiano, como ir a um supermercado, participar dos momentos de lazer e encontros de veículos do gênero e até para transportar noivas a igrejas. Usá-lo é puro prazer, destaca Angelo, que prefere deixar para um outro veículo seu, um Monza, a missão de transportá-lo ao seu local de trabalho.
Curiosamente, apesar de todo fascínio de Angelo por automóveis antigos, o Ford 1951 veio parar em suas mãos quase que por acaso. Ele conta a história. Pedi a um amigo que me avisasse caso soubesse de algum carro bom para estar nos casamentos. Então, ele foi a um leilão de veículos em Ribeirão Preto e, após muitas doses de bebida, acabou arrematando sem querer o Custom. Ele trouxe o automóvel até Bauru e me contou o que houve. Resolvemos então fazer um rolo. Em troca do meu Mercury 1946, ele me deu o Ford 1951 do leilão, relembra Angelo. Além disso, ainda cumpri à risca um pedido da minha esposa, que era de trocar o Mercury por um carro mais novo, brinca ele.
Vendê-lo é uma possibilidade inimaginável para o bauruense. Já recebi propostas, mas não cedo, garante Angelo.
Outras paixões
Angelo não é um admirador apenas de carros antigos. Ele também é apaixonado por tudo, desde objetos até utensílios e aparelhos eletrodomésticos, que lhe faça lembrar do passado.
Quem visita sua residência, localizada na Vila Independência, tem a impressão de que está dentro de um grande antiquário. Por onde se anda é possível visualizar uma grande variedade de objetos antigos, como miniaturas de carros, uma máquina fotográfica, um aparelho de som, um telefone e um ferro de passar roupa, além de geladeiras da década de 50.
Angelo revela que um dos seus maiores sonhos é poder montar um museu sem fins lucrativos. O que mais falta para o povo atualmente é o resgate da história, da cultura e dos valores de antigamente para podermos transmitir a nossos filhos, conclui ele.
Perfil
NomeAngelo Pereto Sobrinho
ProfissãoTécnico em informática
Idade46 anos
Estado civilCasado, dois filhos
Lugar para passearTrindade (RJ)
Time do coraçãoTenho uma queda especial pelo melhor: Corinthians.
O que mais lhe irrita no trânsito bauruense?Estou há quatro anos em Bauru e não me sinto a vontade ao andar nas ruas aqui. No geral, com exceções é claro, acho o motorista bauruense péssimo ao volante, pois a falta de consideração e de respeito são imensas, principalmente na avenida Getúlio Vargas. Já morei em São Paulo e nunca tive problemas por lá, principalmente nas marginais. Não sei porque aqui em Bauru é assim, se é falta de preparo, mas o fato é que considero ser muito mais fácil rodar na capital. Para melhorar a situação, creio haver necessidade de um trabalho amplo dos órgãos competentes a fim de se trabalhar a educação no trânsito.
Quem você não colocaria como passageiro do seu carro?Nenhum integrante de grupos de pagode e cantores de música sertaneja.
Quem você levaria como passageiro do seu carro?Minha sogra, que era uma pessoa espetacular, mas que, infelizmente, já faleceu.
Que nota você daria aos motoristas bauruenses?2,5.