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Quem vai com quem?

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 7 min

O último Natal de Camila*, 11 anos, Diego*, 9 anos, e Bianca*, 5 anos, filhos da funcionária pública Eliana*, não foi dos mais tranqüilos. No meio do ano, os pais, casados há 13 anos, se separam de forma não tão amigável e nos feriados de Natal e do Ano-Novo as crianças tiveram que enfrentar o dilema de ter de escolher com quem passar as festas.

Foi uma confusão, confessa Eliana, que brigou com o ex-marido para que os filhos passassem o Natal com ela, na casa dos avós. No final acabou dando certo, porque ele ficou com as crianças no réveillon, mas foi difícil entrar num acordo. Todo ano os filhos de pais separados têm que decidir com quem passar as festas. Quando já não são mais crianças, a escolha não é tão difícil. O diálogo antecipado entre os pais pode resolver o problema sem estragar o clima festivo.

É o que faz o comerciante Márcio Cabanne, pai de Márcio Cabanne Jr., de 8 anos. Antes dos feriados de dezembro, ele entra em contato com a ex-esposa para determinar o que filho vai fazer no Natal e no réveillon. Segundo Cabanne, a cada ano a decisão é diferente. Então, nem sempre o filho passa o Natal ao seu lado, por exemplo. O que acontece é que de repente ou eu ou ela queremos viajar na passagem do ano e levá-lo, então acabamos decidindo de uma forma diferente todo ano, a gente sempre entra em acordo mais ou menos uma semana antes do feriado, explica. De acordo com o comerciante, Márcio Jr. não reclama e até gosta. Ele é bastante tranqüilo, define.

Mas nem todos os filhos são assim. Alguns não gostam do vaivém dessa época do ano. Acho que eu deveria ter o direito de decidir o que fazer. E se eu quiser passar o fim do ano com os amigos e não com o meu pai ou a minha mãe?, questiona a estudante Lívia Teixeira, de 15 anos, cujos pais se separaram há quatro anos.

Na opinião da psicóloga Jane Cristine da Silva, os pais devem deixar que os filhos expressem a sua opinião sobre como planejam passar o final de ano. Ele também têm o direito de dizer o que querem, lembra. A psicóloga recomenda que os pais conversem com os filhos antes de tomar qualquer decisão para não haver problemas mais tarde. Mas isso vale para os filhos com 11, 12 anos ou mais, que possuem uma capacidade maior de entender a situação. Quando os filhos ainda são pequenos, os pais devem entrar em um consenso antes do feriado para estabelecer as regras.

Sem inversão de papéis

E quando o filho não quer passar o feriado com o pai (ou a mãe) como havia sido combinado? De acordo com Jane Cristine da Silva, o diálogo dos pais com os filhos deve ser aberto, franco e direto o suficiente para que mais tarde a criança não bata o pé, reclamando que não quer fazer o que havia sido estabelecido. Não pode haver uma inversão de valores e o filho passar a mandar no pai, afirma a psicóloga. Se isso acontece os pais devem intervir e falar mais alto para os filhos cumpram o que eles estipularam. Eles precisam dialogar e não permitir que os filhos os comandem, explica.

Foi o que aconteceu com Eliane*. Na hora de passar o Ano-Novo com o pai, como havíamos combinado, meus filhos brigaram e foi uma guerra, conta. A sensibilidade do ex-marido e o seu pulso firme colocaram um ponto final na guerra. A gente fez tudo com muita calma, sem brigas, até fazê-los entender que era melhor para todo mundo desse jeito. No final, eles gostaram, revela. Para esse final de ano, Eliane* ainda não conversou com o ex-marido, mas, segundo ela, os filhos já estão querendo saber com quem eles vão passar o dia 25 de dezembro.

Para a professora Maria Lúcia M. Coelho, mãe de Lívia Teixeira, o segredo para na hora de dividir o filho com o ex é sempre conversar muito. Os pais não podem se esquecer que o problema que os levou à separação não tem nada a ver com os filhos, ensina. A dificuldade que a professora enfrenta com a filha, na realidade, não está relacionada a ela ou ao ex-marido mas sim com o fato dela não querer passar as festas com nenhum dos dois. Ela está na idade de querer sair com as amigas, ir a festas, essas coisas. Normalmente eu sou bastante liberal mas não permito isso no fim de ano porque essa época, esse tipo de comemoração é uma coisa de família. Quem passa com os amigos geralmente é porque não tem família. Ela chia, mas obedece, relata.

Filhos não querem magoar os pais

Não queria ir passar o Ano-Novo com o meu pai porque lá com ele não tem nenhuma criança, ninguém que eu conheço. Por isso briguei, conta Camila*, filha de Eliane*. Ela diz que só foi para a casa do pai com os irmãos porque achou que ele iria ficar triste se ela não fosse. Fui para ele não ficar chateado comigo, confessa, dizendo que a passagem do ano com ele foi melhor do que imaginava. Foi mais legal do que eu achava, esse ano acho que vai ser igual, avalia.

Assim como Camila, muitos filhos de pais separados acabam aceitando se dividirem entre os pais para nenhum deles fique sem filhos. Eu vou porque gosto da minha mãe igual eu gosto do meu pai, mas nem sempre eu estou com vontade de ir, de fazer o que eu faço, entrega Sandra Mathias, de 12 anos, cujos pais são separados há oito anos. Desde pequena, estou acostumada a passar os fins de semana com o meu pai ou a viajar com ele, mas às vezes eu preferia ficar em casa ou fazendo alguma outra coisa. Mas não brigo mais por causa disso, diz. Seu irmão mais novo, Júlio, de 9 anos, vai de carona na opinião. É gostoso ficar com o meu pai também, mas tem vezes que eu não queria. Mas eu fico por causa dele.

Guerra entre pais

Definir com quem os filhos vão passar o Natal e o Ano-Novo não deveria ser um problema tão grande para o ex-casal. Infelizmente, nem todos conseguem ter uma vida amigável após a separação e os filhos é que acabam sofrendo com isso. Geralmente, o que acontece é uma grande disputa entre o pai e a mãe que, muitas vezes, inclui até golpes baixos, como chantagem material - com os pais brigando para ver quem vai dar o maior presente e emocional - quando um dos dois, ou os dois, forçam o sentimento da criança para fazer com que ela escolha. Longe de ser um comportamento positivo. Brigas nesses moldes fazem com que a criança sofra ainda mais.

De acordo com a psicóloga Mariana S. A. Oliveira, a criança em alguns casos, demora a entender que os pais se separaram mas não perderam os pais. Ou seja, que eles deixaram de ser marido e mulher mas não deixaram de amar os filhos. Essa confusão pode causar a sensação de que o filho está perdendo os pais e isso pode piorar se os pais colocarem a criança diante de uma escolha como: Com quem você quer ficar?. Principalmente se ela for muito nova. Por isso a criança nunca deve ser colocada na parede ao mesmo tempo em que os pais também não podem se sentir rejeitados se o filho escolhe passar o feriado com um e não com o outro. Isso não quer dizer que ele goste mais de um do que do outro, assim como os pais também não deixam de gostar dos filhos quando se separaram. É preciso muita conversa para se evitar essas interpretações errôneas e não se criar uma guerra, afirma a psicóloga.

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