Antes de iniciar esta pequena narrativa, gostaria de lembrá-los de que o ocorrido, é de extrema verdade, não tendo sido incluído neste texto qualquer inverdade tão pouco, nenhuma mentira para que a história se tornasse engraçada ou algo parecido, como as coisas que meus nobres amigos pescadores, estão ao longo dos tempos contando nesta página, denominada carinhosamente de Histórias de Pescador. Vamos a ela!
Há algum tempo não tenho pescado, coisas que foram ocorrendo no meu dia-a-dia, que de certa forma foram deixando para segundo plano as pescarias. Tá certo que a última foi em meados de setembro deste ano, sim senhor! Mas deixa pra lá, já faz tanto tempo...
Quinta-feira, por volta das 9 horas da manhã, me telefona o Alvarez, se dizendo cansado, e que precisa dar uma escapadinha. Melhor dizendo: Sair para uma pescaria! Ninguém é de ferro, concordei com ele e pergunto: Quem vai e para onde vamos? De imediato, obtive a resposta, em alto e bom som:
- Lá em Salto Grande tá pegando de tudo, dourado, pacu, piapara, piauçu, piava, etc., etc., etc... Da forma como falou, já imaginei onde iria guardar tanto peixe, com esse tal de apagão, meu freezer desligado, ficou aquela interrogação: Onde vou guardar tamanha quantidade de peixes?
Como não tinha como dizer não, juntou a fome com a vontade de comer. Concordei, porém com algumas considerações: Horário? Quem leva o quê? Quem compra isso? Quem compra aquilo? Mas tudo bem, as coisas ficaram divididas, dentre as quais as iscas (tuviras, caramujos, tripa de frango com groselha, e por aí vai) a cargo do nosso amigo Alvarez.
Não me recordo direito, mas ele me ligou por volta das dez da noite, todo contente, e logo que atendi o telefonema, fui logo lhe dizendo:
- Alvarez, não vou mais. Estou achando que não vai ser legal.
Pronto, a guerra estava armada. Foi só tiro de metralhadora pra cima de mim, que o melhor que tinha a fazer, foi feito: Desliguei o telefone e o deixei pra lá, bravo feito uma onça. Mas fiquei firme, mantive que não mais iria pescar.
No dia seguinte, me liga ele novamente, logo cedo, com aquele jeito de quem nem dormiu a noite inteira, só pensando nos peixes que ele deixaria de pescar se não fosse no sábado, lá para o tal do Salto Grande. Para sua surpresa, desmenti tudo, dizendo que tudo bem, eu iria! Fiz isso só para sacanear! Pois sozinho é que ele não iria mesmo!
Tudo pronto, tudo arrumado, no sábado às 4h30 da madrugada me liga ele:
- Tá tudo pronto? Já estou passando aí para ajudar a carregar a caminhonete. Vou só pegar o Rick e, no máximo, daqui a cinco minutos estou por aí!
Você acredita? Muito menos eu.
Levantei e, como ele sempre atrasa, já fui logo carregando motor, varas, carretilhas, no maior silêncio, pois neste horário, sabe como é, não é bom muito barulho, pois praga de mulher azeda a pescaria. Enfim, já estava terminando de carregar a tralha, quando tudo que não podia acontecer, aconteceu: olho para a porta da sala e vejo minha esposa Nádia vindo em minha direção com o telefone na mão, com aquele ar de quem acordou e não gostou, dizendo: é o Alvarez!
Me entregou o telefone e nem olhou na minha cara. Imaginem a cena. Atendi e era ele mesmo, só para me dizer:
- É só para avisar que já estou saindo.
Não precisa nem dizer o que ele ouviu.
Bom, nessa altura do campeonato, todo mundo acordado, esposa, filho, filha, gato, cachorro, papagaio. Era embarcar na caminhonete e sumir dali o mais rápido possível.
Fui os 140 km, que separam Bauru de Salto Grande, dando dura no Alvarez, dizendo a ele que não tinha nada que ligar de novo, pois já tinha me acordado. Ele sabia eu que estaria na garagem carregando a tralha e que não estaria na sala para atender o telefone, que deve ter ficado vermelho de tanto tocar.
Mas alguma coisa me chamou a atenção, o Alvarez não era o mesmo de dois dias atrás, estava meio emburrado, cabeça baixa, não estava com aquela animação toda, que lhe é peculiar em dia de pescaria. Mas tudo bem não fui fundo para saber o que estava acontecendo.
Chegamos em Salto Grande, um lugar muito bonito, diga-se de passagem, carregamos o barco e saímos para a pescaria. Primeiro arremesso meu e já tinha uma piapara fisgada. Dez minutos de briga só para cansar a baita. Pesou 4,800 Kg... limpa!!!
O Rick, no centro do barco, fazendo a sua parte, tentando conseguir um arremesso com a nova carretilha que tinha acabado de comprar. Era arremessar e uma hora e meia para se desfazer da cabeleira. Mas tudo bem, é assim que se aprende!
E o Alvarez, nada. Nada de peixe. Nada de conversa. Nada de nada. E ainda cuidando de baixar e levantar a poita. O que será que tinha acontecido com o rapaz?
O Rick, já cansado de desfazer tanta cabeleira, entrou na brincadeira, começou a desvendar toda a verdade. Foi ele que tinha acompanhado o Alvarez na sua residência. Também percebeu que algo não estava a contento.
Como se uma fada nos contasse, tocamos no assunto da esposa, que talvez não tivesse gostado desta pescaria. Foi batata. Foi só tocar no assunto e ele entregou que a Sinara (sua esposa) não tinha gostado que ele tivesse ido pescar aquele dia. Pois tinha passado recentemente por um probleminha de saúde. E, com toda certeza, não deveria estar fritando naquele sol de 40 graus o dia todo.
Engraçado, passamos o dia pescando, eu e o Rick, já preocupados com tamanha quantidade de piaparas, dourados e pacus para armazenar no freezer, e o Alvarez nada de pescar um lambari sequer, como se diz: - Voltou dedão tolado.
Para terminar, já na volta, passando por Santa Cruz do Rio Pardo, toca o celular dele:
Alô! Atende, chateado por não ter pego nada, em seguida já foi respondendo: ...tudo bem não devia ter vindo mesmo, não peguei nada e, o pior, ainda estou aqui tendo que agüentar tamanha gozação. Não terminou nem de falar e já estava desligando, dizendo meio que imburrecido:
- Era a Sinara.
E pronto, não disse mais nada na viagem inteira. Ficou quieto no seu canto, nem o som da viola que tocava na boléia ele acompanhou, como sempre faz. Antes tivesse dormido na viagem. Que nada, pensando bem, antes não tivesse nem ido, pois essa vai entrar para a história. Vai ter que agüentar muita gozação, até que alguém o autorize a pescar novamente. Quem sabe assim ele pega algum peixe! É isso... e que praga de mulher não pega... sei não! São assim esses bons momentos de pesca! Que bom!!!
(*) Antonio Carlos Pavanato é pescador e corretor de seguros nas horas vagas.