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A provação de Arafat

(*) Márcio Chalegre Coimbra
| Tempo de leitura: 3 min

Israel defendeu seu território inúmeras vezes, desde a madrugada de 14 denovembro de 1947, quando, atacado, teve início sua guerra de independência. Mas o processo de reconhecimento do Estado judeu ocorreu lentamente e culminou com sua criação, logo após a 2.ª Guerra Mundial. Seu território seria aquele formado pelo deserto de Negev, pela planície de Tel Aviv e partes da Galiléia. No mesmo dia ocorreu a criação do Estado da Palestina, com a divisão de seu território, compreendendo a margem oeste do Rio Jordão, Gaza, Jafa e setores árabes da Galiléia. Jerusalém, uma terra santa para as três religiões monoteístas, ficou com status de cidade internacional. Durante a Guerra de Independência mencionada, Jordânia, Israel e Egito ocuparam o território da Palestina, inviabilizando a real formação deste Estado.

Assim, grande parte dos palestinos que viviam na região fugiu. A maioria se dirigiu para a Jordânia. Enquanto isto, Israel expandia sua área na medida em que respondia a ataques. Assim, passou a crescer territorialmente, visto que passava a ocupar áreas que originalmente não eram de seu domínio. O governo de Tel Aviv passou a receber judeus que estavam espalhados ao redor do mundo e a assentá-los nas terras de seu Estado, inclusive nos territórios ocupados durante as diversas guerras ocorridas na região. Yasser Arafat, presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), se tornou líder de seu povo através da importância da Organização para Libertação da Palestina, que apesar de não ter sido fundada por ele (foi criada pela Liga Árabe, em 1964), passou ao seu comando em 1969. De qualquer forma, Arafat se tornou o principal líder palestino e foi sob seu comando que as conversações de paz evoluíram, culminando com o acordo de Oslo, onde OLP e Israel foram reconhecidos mutuamente.

Em Oslo, ambos os lados eram controla dos por moderados. Na medida que Rabin cedia, Arafat conseguia popularidade e força su ficiente para controlar os extremistas. Entretanto, em razão de um radical judeu, o primei ro-ministro de Israel foi assassinado em 1995. Ali, o processo de paz começou a sair dos trilhos. Radicais de ambos os lados começaram a possuir maior força. Com o desgaste nas negociações de paz e a falta de um líder com popularidade suficiente para levar adiante novas negociações, em 2000, com apoio fundamental de inúmeros judeus, considerados não-moderados, assentados em Israel, Ariel Sharon foi eleito primeiro-ministro. Ele alega que não negociará antes do fim das ações terroristas palestinas patrocinadas principalmente pelo Hamas e Tanzin (braço armado do Fatah). Contudo, essa negativa em negociar, além de instigar novos atos de terror e aumentar a popularidade dos grupos extremistas palestinos, afeta a autoridade de Arafat perante seu povo.

Arafat, um dos únicos moderados remanescentes do acordo de Oslo, se mostra enfraquecido, vítima de seus próprios erros (como a negativa em avançar nas negociações com Barak), da pressão sofrida por seu povo e dos ataques ministrados por Israel em instalações da ANP, que colocaram sua vida em risco. Mas o líder palestino pode ser o único caminho no lado palestino que pode levar a um acordo de paz. Um futuro governante da ANP pode não ter a mesma disposição para a paz que Arafat.

O extremismo exacerbado está levando os radicais para o controle da situação. As negativas em negociar somente agravarão o conflito. Enquanto os radicais israelenses procuram acabar com o poder de Arafat e expulsar os palestinos da região, do outro, os radicais palestinos visam acabar com Israel. Será uma guerra sem fim. Atacar Arafat é um erro. Negociar e aumentar sua influência sobre os palestinos, um acerto. A história recente já mostrou isto. Hoje, o líder palestino vive uma situação difícil, espremido entre os radicais de seu povo, que crescem a cada dia e os ataques de Sharon. Como Arafat sairá desta encruzilhada, só o tempo dirá, pois muitas vezes, como lembrou a revista The Economist, ele já foi considerado uma carta fora do baralho, equivocadamente.

(*) Márcio Chalegre Coimbra é advogado habilitado em Direito Mercantil pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos e especialista em Direito Internacional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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