Em sua tese de mestrado, a jornalista Cristina Rodrigues Franciscato traduziu uma das tragédias de Eurípedes.
Não é exagero, mas com as bênçãos dos deuses do Olimpo, a jornalista bauruense Cristina Rodrigues Franciscato, 41 anos, acaba de defender com louvor sua tese de mestrado. Ela fez a tradução do grego para o português de uma obra que nunca havia sido traduzida, que é uma das tragédias de Eurípedes, um dos três trágicos do século V, antes de Cristo, chamada Héracles, com estudo introdutório e notas, muitas notas explicativas, para ser exata 312, nas quais depois de 12 anos de trabalho extrovertido na livraria Dafne, ficou três anos e meio dentro de seu escritório junto com muitos livros, orientada pelo professor da USP de São Paulo Antônio Rodrigues Medina, que entende tudo de literatura mundial, escrevendo e falando grego, para seguir uma paixão de infância e aprofundar-se na descoberta dos mistérios e mitos da alma humana.
Jornal da Cidade - Por que o grego? Por que mitologia?Cristina Rodrigues Franciscato O grego é uma paixão inexplicável que vem de infância. Eu acho que tinha no máximo 9 anos, quando eu li uma obra do Monteiro Lobato: Os 12 trabalhos de Hércules. E foi amor à primeira vista, desde então eu nunca parei de ler histórias sobre a mitologia grega, sobre os deuses, heróis. E, o que eu achei uma grande sincronicidade, em linguagem junguiana, é que no fim, eu acabei trabalhando com a tragédia de Eurípedes, chamada Héracles, que é o nome grego do Hércules, que é o nome latino do mesmo herói. O interessante é que pela porta que eu entrei, com 8 anos de idade, na mitologia grega acabou sendo o trabalho que eu me envolvi.
JC - Qual o seu interesse básico na vida? O que mais lhe importa e atrai?Cristina - Eu acabei fazendo jornalismo, mas nunca abandonei o universo grego. Antes do meu interesse com a mitologia grega, o meu interesse básico é o conhecimento da alma humana. Às vezes eu costumo dizer que desde o começo eu deveria ter feito psicologia. O meu ponto de entrada para qualquer coisa é esse meu interesse pela alma humana e onde entra o grego nisso? É que toda essa visão de mundo desenvolvida pelos gregos é um belíssimo filtro de compreensão para essa alma humana. O que é mitologia grega? São as histórias de deuses e heróis que estão contidas na literatura grega e na literatura grega nós temos primeiro a epopéia, a poesia lírica e depois no século V antes de Cristo que floresceu o gênero trágico de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes. Fora isso, nos temos a filosofia. A Grécia é o berço da filosofia, onde temos Sócrates, Platão, Aristóteles. Todo esse universo literário seja de poesia ou prosa existe uma compreensão muito profunda e muito sutil da natureza humana, que é isso que eu busco resgatar através deste estudo. Esta é a minha defesa, minha justificativa.
JC - Você passou três anos e meio debruçada em uma história de 2500 anos atrás. O que isso pode lhe dizer hoje?Cristina Eu posso te garantir, eu gostaria que todos pudessem ler mitologia grega porque é surpreendente. Atualidade das questões de alma, do ser humano que são abordadas na tragédia são as mesmas até hoje. Eu diria que o homem tecnologicamente evoluiu muitíssimo, mas em termos de alma é quase basicamente o mesmo. Então, as questões que já preocupavam ao grego são atuais e pertinentes para o homem de hoje em qualquer lugar, inclusive no Brasil.
JC - Em que momento a língua grega entrou na sua vida?Cristina Antes eu ouvia alguns professores dizerem que você só pode de fato compreender e mergulhar numa obra se você souber ler no original. Mas eu sempre achei isso bobagem, elitismo. Imagina, você tem traduções... Mas chega um momento que não dá para quantificar o que eu sofri para fazer essa tradução, foi um sofrimento, mas ao mesmo tempo uma grande alegria, porque cada verso é uma descoberta, um desbravamento. A língua de um povo não é algo morto, é algo que encerra um universo completo. Uma palavra só pode ter inúmeros significados e quando você vai trabalhar com tradução, com literatura, você, de repente fica inquieta de saber qual o significado das coisas. Quando se fala em moderação você quer saber o que esta palavra realmente significa. Platão fala tanto do justo meio, da justa medida, da moderação, o que é isso em grego? É sophrosyne, que não é só moderação, mas engloba uma série de coisas. A língua traz segredos que dizem respeito à sua visão mais profunda de mundo, que um tradutor não consegue abarcar. Então o que aconteceu. Foi a coisa mais difícil que eu passei até hoje foi o fechamento da livraria porque eu sempre amei. Sou agradecida aos deuses por ter podido realizar o trabalho que realizei, morro de saudade daquele monte de livros, das pessoas que iam, promovia muitos eventos, trazia muita gente de fora, mas chegou um momento em que você acho que a minha alma disse: Agora você tem que se aprofundar no que trabalhou e sempre gostou. Eu nunca tinha pensado em fazer mestrado, isso nunca esteve no meu campo de visão, mais fui falar com um professor da USP e expus a minha idéia e ele me sugeriu o mestrado em grego. Mas eu perguntei o que precisava e ele me respondeu Você vai precisar aprender o grego antigo. Sai de lá dando risada. Para aprender inglês é uma luta. Aí eu quase desisti, mas aquilo lançou uma semente que ficou me importunando e fui aprender a língua grega para fazer mestrado, e quando vi a complexidade que era a língua grega, foi como uma coisa claríssima que apareceu na minha frente. Seria impossível conciliar a Dafne e este projeto. Foi minha escolha de Sofia: ou uma coisa, ou outra. Mas naquele momento todo o meu ser pedia um aprofundamento daquilo que sempre foi minha paixão. Paguei um preço altíssimo, mas me apaixonei porque cada palavra descortina um mundo semântico, filosófico muito grande.
JC - Além dessa sincronicidade na tragédia de Héracles qual o outro motivo que te levou a escolher esta tragédia e não outra?Cris Eu trabalho com um conceito básico da literatura grega que é hýbris. Uma coisa que me fascina na visão de mundo grega é uma preocupação que eles têm na busca de uma justa medida, de um caminho do meio termo, que perpassa a todos. Isso é a sophrosyne e existe muito claro para o grego a idéia de que quando você ultrapassa essa medida você incorre na hýbris que é uma arrogância, uma desmedida é você ultrapassar aqueles limites que são próprios do humano. Os gregos acreditavam que existe o mundo dos homens e o mundo do deuses. Os homens são mortais, os deuses imortais, portanto é próprio dos deuses o ilimitado e próprio dos homens a finitude. Existe, estabelecido pelos deuses, um limite humano que deve ser respeitado para que haja equilíbrio no mundo. Toda vez que um ser humano, em nível individual, ultrapassa esses limites em nível coletivo, ou o indivíduo, ou a sociedade incorre nessa hýbris, nessa desmedida, nessa violência contra o divino. Como resposta, os gregos acreditavam na punição divina. Isto é o be-a-bá da visão de mundo grego.
JC - Esse conflito entre EUA e Afeganistão que a gente vive hoje é exemplo disto?Cristina Justamente. Nem vamos entrar muito nisto, mas os EUA se tornaram a maior potência, nunca demosntrara muita preocupação pelo mundo de um modo geral, principalmente pelo terceiro, a sua política protecionista, capitalista tomou conta do cenário mundial. Um grego falando, sem dúvida, diria que os EUA ultrapassaram todos os limites de uma atitude moderada. Nós nos desenvolvemos muito bem, mas vamos nos preocupar com as nações que estão passando fome. Isso seria uma atitude própria da sophrosyne, da moderação. Mas isso pode acontecer em qualquer área. Para o grego isso era lei com punição divina e os deuses poderiam se manifestar de várias formas levando à destruição. Da poesia a prosa é sempre assim, esse conceito transcende e permeia tudo. É uma questão muito atual. Tem gente que transita pelo mundo, faz sucesso, sucesso e extrapola e se acha quase divino, ou seja, se permite qualquer coisa e acha que o dinheiro pode comprar qualquer coisa. É interessante observar a vida de pessoas assim que tiveram os píncaros da fama e da riqueza e que tiveram finais trágicos. Sem sair do âmbito grego, veja a família Onassis marcada pela riqueza, glória e glamour e tragédia. Os Kennedy a mesma coisa. Até mesmo o Ayrton Senna que tinha a figura do herói, que não tinha limites, um dia teve a tragédia na contra-mão, que cruzou seu caminho de glória.
JC - É como se todos tivessem um tendão de Aquiles? Cristina - Por mais glorioso que foi Aquiles, o maior dos heróis gregos na Guerra de Tróia, ele acabou sendo vencido porque era inteiro imortal, mas tinha um calcanhar que só ali poderia ser pego. Isso serve para mostrar que o homem na sua condição de mortal deveria ser mais sensível às questões de riqueza demais, glória demais. Tudo isso causa o que os gregos chamariam de loucura divina, que faz com que ele se acredite tão poderoso, imbatível quanto os deuses e aí que ocorre a tragédia.
JC - Bin Laden e Bush estão brincando de deus? Cristina Os gregos diriam que jamais um humano pode ser comparado a um deus. Mas com muita reserva, numa leitura mítica desta situação, talvez pudéssemos dizer que os EUA como superpotência de liderança mundial teria ultrapassado limites sérios de ética com alguns países do mundo que passam fome, mas eles não diminuem a dívida externa, que são muito centrados na própria glória e poder. Existe uma certa arrogância na postura dos EUA diante do mundo. O Bin Laden também jamais poderia ser comparado a um deus em hipótese alguma, mas o que ele representa para os EUA poderia ser interpretado com instrumento de punição divina. Um grego poderia fazer assim uma leitura desta situação. Afinal, a coisa mais imprópria ao ser humano segundo eles é o orgulho. E hoje você pode ter tudo e amanhã nada como em qualquer tragédia grega. Não é porque hoje alguém momentaneamente desfrute de uma condição muito privilegiada de dinheiro, de poder ou de beleza, ou de glória, que está autorizado a ser orgulhoso disso. Isso é assim hoje, amanhã pode não ser. Tudo é reversível. Veja o 11 de setembro. Quem diria que o símbolo do poderio econômico iriam ao chão com aquela facilidade?
JC - E por que o Héracles de Eurípedes?Cristina - Porque esta tragédia conta a história do Héracles voltando vitorioso, glorioso após o término dos seus famosos 12 Trabalhos. Aí ele volta para Tebas onde está a sua família. Ele é casado com Megara e tem três filhos. Lá também vivem Anfitrião seu pai terreno que era o marido da Alcmena, que teve Héracles com Zeus. Então ele foi, saiu, para fazer os seus trabalhos, deixou a família em Tebas. Por que Tebas? Porque o rei de Tebas, Creonte, era sogro de Héracles, o pai de Mega. Só o que que acontece? Na ausência de Héracles, enquanto ele estava realizando seus doze trabalhos, um usurpador, um tirano, toma o poder em Tebas, chamado Lico. E Lico está ameaçando de morte a família do herói. Porque ele tem medo que os filhos de Héracles, quando adultos venham a matá-lo para vingar a morte do amor materno, o pai de Mega. E eles acreditam que Héracles está morto, porque o último dos trabalhos de Héracles foi a descida ao Hades, que é o mundo dos Híferos, para buscar o Cébero, o tricopório cão, o cão de três cabeças e de lá não voltou. Assim fala o coro no começo da tragédia: de lá ainda não voltou. Então eles acreditam que Héracles está morto e a família dele está para ser morta também, correndo risco de vida. É assim que começa a tragédia. Resumindo, porque a história é interessantíssima, mas resumindo: Héracles acaba voltando, consegue matar Lico e os seus cúmplices, seus aliados. Restaura aparentemente a ordem em Tebas e salva a família. E ele voltou glorioso após as suas famosas doze façanhas ou doze trabalhos, cantado em prosa e verso, até por Monteiro Lobato. Então é esse o momento que o poeta, que Eurípedes escolheu para escrever sua tragédia. Depois que ele consegue matar o tirano, restituir aparentemente a ordem, o que acontece? Está para realizar um ritual de purificação catártico, pela morte de Lico, no Palácio, quando Hera, a grande adversária do herói, é aquela que o persegue desde o berço, como ele mesmo fala na tragédia, enviando as duas serpentes para matá-lo e tal. E depois é ela que o obriga a fazer os doze trabalhos. E agora, mais uma vez, é ela que manda Lissa, que é a loucura personificada, para enlouquecer o herói. Aí ele é enlouquecido por Lissa, a mando de Hera e, tomado de loucura, ele vê nos filhos e na esposa, a esposa e filho do inimigo, Euristeu, que era o primo dele que deu os doze trabalhos para ele. E num ataque de loucura, ele acaba matando a esposa e os filhos, com as mesmas armas, olha que ironia trágica e interessante. Com mesmas armas, que fizeram de Héracles o maior dentre todos os heróis, foram aquelas que fizeram dele o ser mais hediondo entre os mortais, assassino dos próprios filhos e da esposa. Então o que isso mostra? A dinâmica de que grandeza demais é perigoso, de que ao matar todos os monstros que matou, algo desses montros ficou nele. Sabe, tem tanta, daí a gente precisava falar só sobre isso, entendeu? Mas é essa a dinâmica, é esse senso que eu acho que é o principal de tudo isso que a gente tem falado, é esse senso grego muito apurado de que grandeza, poder, riqueza demais não é próprio do humano, principalmente porque estes fatores causam uma certa cegueira da razão e fazem com que os homens se sintam poderosos tanto quanto os deuses e aí vem a punição divina, numa linguagem mítica.