Benzedeiros tornam-se personalidades por atrair gente dos mais diversos lugares. Alguns chegam a atender 40 pessoas num único dia.
Outro tipo de trabalho que torna as pessoas famosas nos bairros - ou em toda a cidade - são as atividades de cunho social. Os serviços voluntários transformam moradores em "heróis". Neste sentido, uma das figuras mais lembradas em Bauru é Eva Pereira Francisco, fundadora do Centro de Valorização da Criança (Cevac), no Núcleo Presidente Geisel, 15 anos atrás.
A Eva fez um trabalho social muito bonito. Com muita dificuldade, ela recolheu crianças carentes do bairro numa casa de madeira e ofereceu estudo, cultura, esportes, comida para elas. Mas ela foi uma batalhadora, porque não contava com a elite, não tinha recursos, saía pedindo alimento na casa das pessoas, tudo com muita dificuldade. Ela foi uma pessoa do bairro e sempre agia com o coração, conta o ex-diretor social do Cevac, Alan Carlos Ursulino de Paula.
Ele lembra que Eva encontrou muitos problemas para adequar a entidade às exigências legais, pois não contava com ajuda nem da iniciativa privada, nem do poder público - ela havia apoiado o candidato de oposição nas eleições municipais anteriores. Eva morreu em outubro de 1999, vítima de câncer.
Outra personalidade que atua junto a crianças é Vera Pascoalino, fundadora dos Pequenos Obreiros de Curuçá (POC), na Vila Dutra. A iniciativa começou de uma preocupação dela com as crianças do bairro que ficavam muito tempo nas ruas, fora das escolas. De maneira muito amadora, ela resolveu criar uma horta comunitária, chamando as crianças para tomar conta.
Com o tempo, a brincadeira transformou-se numa entidade, com sede, estatuto e demais exigências legais. Atualmente, o POC oferece reforço escolar, horta comunitária, atividades esportivas e de marcenaria para crianças e adolescentes e mantém uma casa-abrigo para maiores de 18 anos. A reportagem não conseguiu contato com Pascoalino.
Doação
O destaque atribuído para a dona de casa Ódima Marques Alvarez, 57 anos, no Jardim Pagani, está na sua doação às obras sociais. Ela dedica um período por semana para prestar auxílio no Hospital de Base e dois dias na semana para a comunidade local.
Faço parte de uma equipe de 210 voluntários, que se revezam para ajudar pacientes do SUS (Sistema Único de Saúde). Ao contrário dos particulares, que têm acompanhantes, os internos do SUS são sozinhos e ficam distribuídos em 10 a 12 pessoas por quarto. Nossa função é conversar com eles, pegar água, fazer um telefonema para a família, dar comida, fazer lanche para as mães que levam os filhos. São muitos pacientes para poucos funcionários, então, nós vamos socorrer, salienta.
Em outros dois dias da semana, Alvarez dispõe de seu tempo para fazer trabalhos manuais na Igreja Nossa Senhora das Graças e no Centro Espírita São Vicente de Paula. Os trabalhos são vendidos e a renda é revertida para a aquisição de remédios às famílias carentes.
Há mais de dez anos eu faço isso, porque a gente vê que está muito difícil e acho gratificante ajudar as pessoas. Mas sou uma pessoa comum ocupando meu tempo em ajudar os outros. Quando dou alguma coisa para alguém com a mão direita, não deixo nem a mão esquerda ficar sabendo, conclui.
Uma vida pela praça
Quando me mudei para cá, para morar perto do meu irmão, isso aqui era um terreno com areia. Conversei com ele e resolvemos transformá-lo numa praça e cuidar dela. Aí, conversamos com os vizinhos, cada um plantou uma coisinha, a Prefeitura colocou bancos e mesas e ela se transformou nesta praça, conta o ferroviário aposentado, Celso Quijadas Haro, 71 anos.
Trata-se da Praça Carlos Cariani, no Parque União. Haro conta que já arrumou muita confusão por causa do local, do qual cuida há mais de 25 anos. Para ele, é uma afronta ver os jovens brincando de skate nos bancos e guias que ele mesmo pintou com sacrifício e recursos próprios. Estraga a tinta e quebra o concreto, lamenta.
O aposentado diz estar sempre em contato com a Prefeitura e outras instituições para solicitar reformas e manutenção para a praça, mas garante que quem rega, aduba e olha pelo local é ele. Agora, estou afastado, porque fiz cirurgia de catarata há alguns meses e não posso com poeira, nem posso baixar a cabeça. Então, o mato cresceu e estou cobrando manutenção da Prefeitura. Mas assim que eu puder, volto a cuidar dela, garante.