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Dedicação ao trabalho gera notoriedade

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 6 min

Farmacêuticos, encanadores, manicures, comerciantes, mecânicos - boa parte dos famosos ganha destaque pela profissão que exerce, seja pela competência ou por peculiaridades.

Comerciantes e outros profissionais de destaque estão entre as personalidades mais citadas pelos moradores, quando questionados a respeito dos famosos do bairro. No caso do comércio, ganham notoriedade aqueles que, de alguma forma, atraem e mantêm seus fregueses. Muitas vezes, a relação acaba transformando-se em amizade.

É o caso de Mateus Campos de Assis, 59 anos. Proprietário de um mini-mercado no Jardim América, ele tornou-se conhecido por colocar música clássica para tocar em seu estabelecimento. Instalado no local há cerca de oito anos, ele diz que seu gosto musical foi muito bem recebido e até elogiado pelos fregueses.

Eu costumo ouvir peças de coral, sertanejo, erudito - o que eu considero música boa. O pessoal gosta. Eles vêm comprar e acabam ficando aqui para um bate-papo. Já aconteceu, por exemplo, de eu baixar o volume do aparelho porque entraram jovens no mercado e eles virem pedir para eu aumentar, porque estavam gostando, conta.

Assis comenta que sempre recebe a visita de moradores importantes do bairro, que aparecem para tomar café, conversar e ouvir. E eles reclamam quando encontram o som desligado, sorri. Durante a entrevista, um freguês chegou a cantar com o comerciante, elogiando a iniciativa e recordando melodias antigas.

De acordo com Assis, a música o encanta desde criança. Antes de mudar-se para Bauru, quando morava em São Bernardo do Campo (região metropolitana de São Paulo), ele costumava reunir-se mensalmente com amigos numa roda de violão. Atualmente, o comerciante integra o Coral Arte Viva de Bauru, que é sua principal fonte de lazer, como ressalta.

Banco de Asilo

O número de amigos que o mecânico Gilberto Mogioni, 41 anos, recebe em sua oficina, no Jardim América, é tão grande, que ele batizou um banco do local de Banco de Asilo. Conhecido como Baby por todo o bairro, ele ressalta que muitos fregueses vão até lá para consertar o carro e sentam no banco para esperar. Mas tem gente que aparece aqui só para bater papo mesmo. Eles sentam, lêem o jornal, conversam um pouco e vão embora, comenta.

Trabalhando no local há 34 anos, Baby é acionado por motoristas de todas as idades e posições sociais, inclusive para prestar socorro aos finais de semana. De acordo com alguns de seus clientes, Baby tornou-se amigo de muitos moradores no local e adora fazer brincadeiras. Já vendi a lancha de um freguês por um preço irrisório, já troquei um carro por 600 pizzas, sempre na gozação, afirma.

Uma de suas freguesas, que não quis identificar-se, comenta que confia seus carros ao mecânico há muitos anos. Desde que minhas filhas eram pequenas. Hoje elas são adultas. E Baby é muito cuidadoso com a crianças, fica pondo para dentro para evitar que corram riscos de atropelamento nas ruas, é um amigo mesmo, diz.

Xerife

Antônio Duarte de Souza Brandão, 82 anos, ficou famoso na Vila Quággio quando foi contratado como fiscal de trânsito pela Prefeitura Municipal de Bauru, na gestão Nicola Avalone Júnior. Ele usava na camisa uma estrela, que lhe conferiu o apelido de Xerife. Sua principal atribuição, na época, era fiscalizar se as carroças tinham placa, pois o Governo havia determinado a numeração de carroças e bicicletas (norma posteriormente revogada) para controlar o pagamento de impostos.

A notoriedade de Brandão permitiu que ele fosse eleito vereador duas vezes. Um dia, a Prefeitura prendeu várias pessoas que trafegavam em bicicletas sem placas. Só que todos eram trabalhadores e eles não conseguiram chegar ao serviço naquele dia. Imediatamente, apresentei um projeto de lei à Câmara Municipal dando isenção de impostos para as bicicletas, lembra.

Xerife também conquistou o afeto e respeito de muitas pessoas ao arrumar empregos e tratamentos de saúde para quem lhe pedia. E deixei muita gente construir casa sem planta. Fui até chamado a atenção pelo prefeito Nuno de Assis, que disse que estava atrapalhando a administração dele. Eu só respondi que o que atrapalhava eram a erosões que ele não resolvia - e que estão aí até hoje, observa.

Encanador oficial

Alcides Lourenço Alves, 75 anos, conhecido como Sr. Sabiá, tornou-se o encanador oficial do bairro, segundo alguns moradores do Jardim Bela Vista. Morador da região há 48 anos, ele já prestou serviços na residência de boa parte dos vizinhos. Basta aparecer um problema no encanamento que todos correm logo à casa de Sabiá.

Recentemente, Alves foi vítima de um assalto que o deixou internado por 21 dias. Na ocasião, muitos vizinhos procuraram o Jornal da Cidade mostrando-se incorformados com o ocorrido. Eles diziam que Sabiá não tem inimigos, que é querido por todos, ressaltando seu empenho no trabalho, mesmo depois de ter se aposentado. Atualmente, em função de uma cirurgia resultante do assalto, Alves não está trabalhando. Mas não vejo a hora de poder voltar à rotina, afirma.

Conselheiro de saúde

Seu Candinho aposentou-se chefe do Posto Médico da Empresa Ferroviária Noroeste em 1977, mas ainda hoje é o farmacêutico preferido de boa parte dos moradores do Jardim Bela Vista. Aos 80 anos, Cândido Prado ainda atende na farmácia da Igreja Santo Antônio e recebe inúmeros fregueses em casa, que vão lhe pedir conselhos de saúde.

De acordo com a vizinha Gesminda Colletto, 65 anos, todo mundo procura pelo farmacêutico com absoluta confiança. Outro amigo confirma isso, dizendo que conhece Candinho há mais de 40 anos e que ele esteve pronto a sacrificar-se para ajudar outras pessoas.

Antigamente, eles me procuravam para medir a pressão, para pedir remédio. Hoje não se pode mais fazer isso em qualquer lugar, só no posto de saúde. Mas ainda tem muita gente que me procura fora de hora para resolver problemas. Um dia desses, por exemplo, um morador lá do Jardim Pagani ligou para mim à meia-noite pedindo que eu fosse aplicar uma injeção na esposa dele. Eu fui - prefiro atender a ser atendido, brinca.

Faz-tudo

A decoradora aposentada Rosa Horácio Auad, 67 anos, tornou-se um faz-tudo nas imediações da Vila Coralina. Viúva e dependente dos recursos de pensão e aposentadoria, que são insuficientes para o sustento, Dona Rosa começou a trabalhar como manicure pela vizinhança. Em pouco tempo, passou a fazer, também, serviços domésticos nas redondezas, salgados por encomenda e serviços de banco para uma amiga.

Sou uma pessoa que faz de tudo para viver, porque a aposentadoria não dá para nada, né?, justifica. Mas não é só isso. De acordo com vizinhos ouvidos pela reportagem, Auad está sempre disposta a ajudar e faz qualquer coisa que lhe peçam. É nosso quebra-galhos, pau para toda obra, informam.

Além do trabalho, a faz-tudo ganhou fama pelo carinho e auxílio que presta às pessoas, visitando e levando salgados para os doentes, dando apoio àqueles que necessitam. Tem uma moradora do bairro que ela leva ao banco todo mês no dia da amiga receber o pagamento. E ela não ganha nada por isso - ao contrário, ela até gasta com o ônibus, observa uma vizinha.

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