A dona Maria? Sei quem é... aquela que ajuda os carentes. Seu José? Sei, é aquele que conserta tudo quando a gente precisa. Seu João? O dono do mercadinho que faz festa na rua...
Uma das principais características do mundo moderno, principalmente nas cidades grandes, é o anonimato. Quanto mais os municípios se desenvolvem, mais as pessoas se isolam, fechando-se em pequenos mundos residenciais e profissionais. Vive-se um momento em que não se olha para ninguém e desejar um bom dia para uma pessoa que passa por nós diariamente na rua, mas que não conhecemos, pode parecer ofensa ou abuso.
Décadas atrás, sabia-se o nome de cada vizinho, a profissão, os que eram casados, solteiros, os que tinham filhos, quantos filhos, o nome e idade das crianças, a escola onde estudavam. Bastava um ficar doente, para todos os vizinhos aparecerem em visitas amigáveis e zelosas, acompanhadas por bolos, salgados, frutas, doces e muito carinho.
Naquela época, verificava-se, na prática, o verdadeiro conceito de comunidade e todos os moradores de uma região relacionavam-se como uma grande família. Era fácil pedir para alguém dar comida ao cachorro e recolher as correspondências quando se ia viajar, como era seguro e confiável deixar a chave de casa com o vizinho, porque o filho chegaria mais tarde da escola.
Hoje, as pessoas sentem até medo quando percebem o olhar insistente de um vizinho. Moradores de um mesmo prédio se cruzam freqüentemente nos portões, mas preferem baixar a cabeça a cumprimentar e sorrir, como se ali houvesse um vaso ao invés de um ser humano.
Mas algumas comunidades ainda resistem a esse processo de isolamento e mantêm o bom relacionamento entre os moradores. Mais que isso, alguns conseguem sobreviver ao anonimato, tornando-se personalidades e sustentando fama no bairro.
Na maioria das vezes, são pessoas que residem há muitos anos no mesmo local, cidadãos mais velhos, que sempre se destacaram pela profissão exercida ou por atividades realizadas regularmente. Os políticos e demais pessoas públicas não contam. Encrenqueiros e fofoqueiros também não. A reportagem considera apenas cidadãos comuns, que conquistaram a estima e respeito de sua comunidade pelo bom relacionamento e pelo auxílio ao próximo.
Como a enfermeira que é procurada por todos quando há um problema de saúde por perto: Meu filho caiu da escada, bateu a cabeça e se cortou. O que eu faço?. Ou o velho farmacêutico, que é acionado a qualquer hora do dia ou da noite para oferecer um medicamento aos vizinhos. Ou, ainda, o encanador, que conhece quase toda a rede hidráulica das imediações, tamanha a procura.
Outra vertente de famosos são alguns comerciantes, que, por seu comportamento ou iniciativa, transformam fregueses em amigos assíduos. Os benzedores também merecem destaque: basta entrar no bairro e perguntar, que todos sabem indicar o caminho para chegar até eles.
Por fim, há os que ganham notoriedade pelas campanhas sociais que promovem, pelo auxílio à vizinhança, pela doação de si às necessidades de alguém. São os quebra-galhos das imediações, atentos a qualquer chamado e absolutamente dispostos à solidariedade. O JC nos Bairros apresenta, nesta edição, algumas destas personalidades.