Cresci ouvindo histórias de pescador, principalmente aquelas mais emocionantes, daquelas que a gente prestava uma atenção danada...
Isso há quase 50 anos, quando a gente não tinha televisão e nos reuníamos todas as noites, em cima de um encerado de lona, nas portas das casas das colônias, que eram as casas dos ferroviários da Paulista.
Aí sentavam homens, crianças e mulheres que se deliciavam com os licores de jabuticaba, nizete, bolinhos doces, pipoca, cada um trazia um comes e a gente traçava tudo... Era só alegria... As crianças eram os ouvintes mais assíduos, com chupeta e tudo... Os cabelinhos arrepiavam, mas a gente insistia... Conta tio... Conta mais...
E foi numa dessas noites gostosas, que o pescador da colônia Dito Prado contou uma emocionante história que agradou a todos...
Contou ele, que fora em uma pescaria com vários amigos lá de Lucélia, SP, para o rio Miranda. Com toda traia, com comestíveis e os bebíveis, principalmente a manguaça da época, Tatuzinho. Quando lá chegaram, fizeram o acampamento e não conseguiam dormir. O cansaço, os mosquitos, etc... Só conseguiram depois dos goles, quando começa o efeito anestesiante... Dito Prado olhou pro céu e viu aquela belezura de lua que refletia no mirandão e pensou: já que não consegui dormir, vou pescar... E outro gole ele tomou, nisso já tinha perdido a conta de quantos...
Convidou os amigos, ninguém topou. Resolveu ir sozinho. Se preparou e arremessou a vara, rio a dentro. Era uma noite quente, calma, só o rio falava.
De repente, sentiu uma grande fisgada. Pensou: peguei um e é dos grandes...
Segurou forte a vara, que balançava sem parar, e Dito Prado, tentando o equilíbrio, se segurava como podia, apesar dos goles.
Abriu bem os olhos e se encantou com o que viu... Parecia peixe, parecia um boto... Não dava para distingüir, apesar da noite enluarada.
De repente, uma sacudidela maior e lá se foi pra dentro do mirandão, Dito Prado, com vara e com tudo.
Seus olhos brilharam e seu raciocínio mais que depressa, pensou: Deve ser um baita de um peixe, que os meus companheiros vão ficar de boca aberta. Esperneia daqui, esperneia dali e não teve jeito... Começou a gritar pelos companheiros, olhem, é uma sereia, olha o corpão, os olhos que grandão, parecia extasiado... Com os gritos todos acordaram e vieram correndo em seu auxílio.
Depois de muito esforço, conseguiram tirar o pescador, que já estava exausto. Reanimado, qual não foi a sua surpresa... Que sereia que nada, era mesmo um jacaré, doidinho pra abraçá-lo eternamente.
Esta foi mais uma das histórias do Dito Prado Pescador, que guardo na minha lembrança.
(*) Laura Prado Fogolin é admiradora das histórias de pescadores e moradora de Agudos.