Desgostosa de tanto ver desperdícios e comilanças na data em que deveria ser reverenciado - e não comemorado - o nascimento de Cristo, a professorinha australiana resolveu contar para os seus alunos de seis anos que Papai Noel não existe. É invenção do comércio para vender. Puro merchandising, como se diz em inglês, a exemplo do tal coelhinho da Páscoa. Quem compra os presentes são os pais, às vezes com enorme sacrifício somente para não frustrar os filhos com seus pedidos pouco modestos.
Foi o que ela disse na aula. Os pais reclamaram com as autoridades educacionais que resolveram punir a mestra por conduta antipedagógica. Abriu-se a polêmica. A imprensa partiu em defesa da liberdade de cátedra e de expressão. Quem tem que decidir se a criança está preparada para saber a verdade são os pais - protestou a maioria que tem filhos pequenos, já preparando o linchamento da mestra. Invocaram o Eclesiastes - tudo tem seu tempo certo. Ninguém tem o direito de destruir a imaginação dos inocentes. Quando amadurecem emocionalmente, cada um dá seu adeus às ilusões perdidas. Parcela menor defendeu que a escola deve ensinar sim, os significados mais puros do Natal, e estes vão além do saco de presentes do Papai Noel. A confraternização universal é calcada nos ensinamentos e exemplos que o Aniversariante nos deixou. Estas as lições mais importantes.
Nesta altura da discussão o maior intelectual da Austrália, entrevistado, dá um tom azedo à crítica dizendo-se inspirado em Shakespeare: em vez de procurar seu destino nos céus os homens devem procurá-lo nas próprias ações. Papai Noel para ele, não passa de um clow (palhaço) - nem fu nem fê na ordem das coisas. Ho-ho-ho.
Fico pensando nos meninos da Mangueira que se deram por felizes quando Papai Noel, na verdade um mulato sarará, presenteou o grupo com um pandeiro e uma cuíca já bem usados. Comovem-me os milhões que vivem abaixo da linha da miséria neste País e sequer têm o direito de sonhar com o bom velhinho. A estes, os pais vão ter que contar a verdade. Tudo não passa de uma ilusão incutida na mente da criança. Quem não pode atender o pedido do filho acaba tendo que explicar a triste realidade.
Os Correios brasileiros receberam neste ano mais de 70 mil pedidos endereçados a Papai Noel, onde estiver. A EBCT abre oportunidade a voluntários que queiram atendê-los e até consegue êxito, muitas vezes. A televisão mostrou a menina que pediu uma casa para os pais ameaçados de despejo. Apareceu um Papai Noel no Correio com um terreninho no meio do mato. Tive a sensação de que ele queria mais era se livrar do IPTU.
Conheço muitos adultos que ainda não abandonaram suas fantasias. Em casa minha mulher diz que eu acredito em Papai Noel porque a cada um que bate à porta dizendo ser para o Natal dos lixeiros eu passo uns miúdos. A partir do sexto que tocou a campainha passei a desconfiar. Só o primeiro, usava o uniforme laranja.
O escocês J. M. Barrie, criador de Peter Pan, no início do século passado, disse que uma fada cai morta, em algum lugar, cada vez que uma criança deixa de acreditar nesses personagens que povoam a Terra do Nunca ou o Reino do Faz-de-Conta da nossa infância. Nele se inspirou Olavo Bilac para versejar que uma estrela desaparece no céu quando uma virgem morre. Freud assegurou que a única coisa real é o sonho. Mediante sua análise conseguimos penetrar nos mais profundos recônditos da alma.
Eis a dimensão do esforço de quem semeia felicidades e ajuda o patrão a faturar, só para descolar um dinheirinho que o permita chegar em casa na noite de Natal com pouca coisa na sacola, mas um sorriso de vitória.